domingo, 8 de dezembro de 2019

Ponciá Vicêncio


Resenha
Livro: Ponciá Vicêncio
Autora: Conceição Evaristo
Ano: 2017
Editora: Pallas
Número de páginas: 120

Conceição Evaristo, não escreve, faz “escrevivência”. Mulher negra, nascida na periferia de Minas Gerais, se formou adulta como professora de Escola Normal, e passou em um concurso para o magistério no Rio de Janeiro. É mestre em Literatura pela PUC e doutora pela Universidade Federal Fluminense. Disputou a cadeira 7 da Academia Brasileira de Letras, que perdeu para o jornalista Cacá Diegues. Sua campanha para a Academia foi impulsionada pela internet e teve amplo apoio popular. Apesar disso, não ocupou a cadeira, em uma Academia majoritariamente composta por homens brancos(atualmente há apenas um homem negro e cinco mulheres brancas contra trinta e três homens brancos na Academia). Autora de inúmeros contos e poesias, tem em Ponciá Vicêncio seu romance de estreia.

A obra narra a vida de Ponciá Vicêncio. Nascida em um quilombo, neta de um negro que foi escravizado, Ponciá cresceu no interior com sua família, pai, mãe e irmão. Não conheceu muito o avô, que morre quando ela era pequena, mas todas as pessoas afirmam que ela receberá um dia a herança dele. Ponciá e sua mãe, Maria Vicêncio, fazem objetos de barro para vender. Seu pai e irmão trabalham na terra dos brancos. Após a morte do pai, Ponciá decide se mudar e ir tentar a vida na cidade grande.

Ponciá leva uma vida difícil na cidade e vive mais nas suas memórias do que no momento presente. A história é narrada por um narrador em terceira pessoa, observador, e constituída de flashes, que não seguem uma ordem cronológica. 

É interessante notar que a história trabalha com as memórias, que podem ser encaradas como única e exclusivamente do ponto de vista individual como serem tratadas como a memória da história do povo negro. Quando é contado no livro que o sobrenome Vicêncio vem do coronel Vicêncio, que colocava seu sobrenome nos escravos, isso não diz respeito apenas à esse caso individual, mas reflete esse apagamento da história dos negros que foram escravizados. Ponciá tenta o tempo inteiro recuperar essa memória, perdida. Quando Ponciá relata que o pai e irmão continuam a trabalhar na terra dos brancos, mesmo o pai tendo sido de ventre livre, e não recebem salário, sendo as relações no quilombo de troca de materiais, isso diz muito sobre a condição do negro no Brasil pós abolição. Não houve uma libertação de fato com a assinatura da Lei Áurea e não igualdade ainda em nosso país entre negros e brancos, visto que os negros são mortos pelo braço armado do Estado, são os que ganham menos, acessam menos às Universidade. Apesar disso, o mito da democracia racial se faz presente. É interessante, ainda levando em consideração esse ponto, quando seu irmão Luandi chega na cidade e vê soldados negros, exclama: nunca vi negro ocupar posição de poder. Depois, com o tempo, ela vai desconstruindo essa visão de que o soldado ocupa alguma posição de superioridade , e descobre que ele é apenas mais um subalterno com uma ilusão.

O modo de contar a história me fez lembrar de outras escritoras negras, como Maria Firmino dos Reis e Carolina Maria de Jesus. Conceição tem na sua prosa, poesia. Dotada de lirismo que consegue transformar em beleza até mesmo o movimento da folha de uma árvore.

Dói no âmago , na alma, ler certas passagens que jogam em nossa cara as chagas do racismo pungente e institucional que insistem em fazer parte do cotidiano do Brasil, último país das Américas a abolir a Escravidão. As dores de uma mulher negra no seu cotidiano, tudo que ela tem de enfrentar para conseguir viver de maneira digna, evidenciam nossas injustiças diárias. É interessante destacar que apesar de Conceição ser uma autora pós moderna, ela também toca profundamente nas questões das desigualdades, das estruturas da sociedade, o que faz com que sua escrita seja dotada de originalidade. Depois de tudo isso, só consigo pensar que quem saiu perdendo a oportunidade de imortalizar uma escritora tão completa foi a Academia Brasileira de Letras. Azar o deles, sorte a nossa, pois ficamos conhecendo essa autora de qualidade inigualável. Recomendo fortemente a leitura!


domingo, 17 de novembro de 2019

Laranja Mecânica: um livro muito horrorshow!



Resenha
Livro: Laranja Mecânica
Autor: Anthony Burguess
Ano de lançamento: 1962
Número de páginas: 224
Editora: Aleph

Um livro muito horrorshow!

Um clássico da literatura mundial, Laranja Mecânica é um romance de formação que acompanha o amadurecimento de Alex, um garoto que vive numa Inglaterra futurista, membro de uma gangue que pratica atos de ultraviolência.

Narrado pelo próprio personagem principal, o livro é dividido em três partes: a primeira parte trata da vida de Alex com seus drugis (companheiros), descrevendo as noites da gangue que ele faz parte: tomar leite moloko, roubar, estuprar e abusar. Mostram também como era a sociedade no romance, dividida em classes, hierarquizada, com muitos pobres e muita violência. Esses atos ultraviolentos não são exclusividade da turma de Alex. Fica claro que é comum adolescentes cometerem esses delitos ao longo da narrativa. Os crimes são detalhados minunciosamente, o que pode acabar embrulhando o estômago de pessoas mais sensíveis. Numa dessas noites de crimes, Alex é traído por seus companheiros e acaba sendo preso, condenado à 14 anos de prisão. Ele tinha apenas 15 anos na época.

A segunda parte narra a vida de Alex na prisão. Ele não perde traços de seu comportamento violento, o que acaba fazendo com que ele se torne objeto de um experimento que prometia curá-lo da violência e deixa-lo livre da prisão em 15 dias. Ele aproveita a deixa para sair mais cedo da cadeia e participa do tratamento, chamado Ludovico. O tratamento consistia em assistir diariamente filmes ultraviolentos, após a administração de um remédio que fazia com que ele associasse as cenas com um enorme mal-estar, fazendo com que ele se sentisse a ponto de morrer toda vez que visse ou pensasse em atos de violência, ou até mesmo sexo.

A terceira parte narra a vida de Alex logo após ele deixar a prisão. Todo o livro utiliza-se de uma linguagem chamada Nadsat, inventada pelo autor, inspirada na linguagem dos jovens ingleses e russos da época em que ele escreveu o livro, com suas gírias e malemolência. Na versão que li há um glossário ao final do livro com o significado das palavras, mas recomendo não o olhar. A estranheza provocada pelo fato de não sabermos o significado das palavras é necessária para emergirmos na atmosfera do livro. Acredito que olhar o glossário deixaria tudo menos interessante.

O livro trabalha com a questão do livre-arbítrio, afinal Alex só começou a agir bem após passar por uma tortura e aborda a questão do Estado: ate onde pode ir o seu controle na vida das pessoas, nas suas vontades individuais? A certa altura do livro um capelão da prisão se questiona se um homem que não pode escolher ser bom é igual ou pior aquele que escolhe ser mau. Podemos perceber uma crítica forte ao behaviorismo, que é um conjunto de abordagens nascidas nos séculos XIX e XX que propõe o comportamento como objeto de estudo da psicologia. A terapia/tortura do livro me fez lembrar da época da faculdade quando estudei em Psicologia da Educação o método pavloviano que consiste em um condicionamento clássico, um processo que descreve a gênese e modificação de alguns comportamentos com base nos efeitos binômio estímulo-resposta sobre o sistema nervoso central dos seres vivos. Até que ponto nossas escolhas são realmente nossas?

Também podemos extrapolar o debate que o livro traz para uma temática que vira e mexe está presente nos noticiários ou nas propagandas eleitorais de certos políticos de extrema direita: a redução da maioridade penal. Acompanhamos um Alex adolescente que apenas faz piorar seus comportamentos ultraviolentos na prisão, em contato com criminosos mais velhos e mais experientes. O próprio tratamento Ludovico nasce da necessidade de esvaziar as prisões, visto que já era evidente que as cadeias não recuperavam ninguém, pelo contrário, apenas pioravam. Esse debate já era feito há quase cinquenta anos atrás. Hoje temos observado que o Brasil é um dos países que possui uma das maiores populações carcerárias do mundo, principalmente de jovens negros e pobres, acompanhando os Estados Unidos, país onde as prisões são privadas e cada preso é uma possibilidade de lucrar em potencial. O livro nos ajuda a refletir sobre esse fato, se o encarceramento é uma solução para nos livrar da violência.

Como a obra é narrada pelo próprio Alex, senti muita repulsa e ojeriza em várias partes onde ele conta sobre os atos perpetrados nas noites violentas. Com a linguagem Nadsat, há uma certa veracidade nos relatos, que parecem estar sendo narrados por um adolescente de fato. Mas depois, quando ele passa pelo tratamento/tortura de ser obrigado a assistir filmes horríveis, ficar de pálpebras abertas, entre outras ações deploráveis, sentimos pena desse ser, que afinal, apesar de tudo, é apenas um adolescente. O autor joga com essa ambiguidade da vida, afinal, se o Alex é criminoso e tem que pagar pelos delitos que cometeu, a pessoa que tortura ele não seria igualmente um criminoso? Quem vigia os vigilantes? O autor também nos mostra que todas as pessoas podem ter um lado violento, quando escracha cenas de violência policial, aparelho repressor do Estado, e velhinhos aparentemente inocentes cometendo atos de ultraviolência por vingança.

O livro é um clássico, pois é atemporal e nos fornece material denso para posteriores debates. Possui uma adaptação para o cinema de 1972, com direção do Kubrick. Recomendo fortemente a leitura desse livro horrorshow, meus drugis!



domingo, 27 de outubro de 2019

NIX


Resenha
Livro: Nix
Autor: Nathan Hill
Ano: 2018
Número de páginas: 672
Editora: Intrínseca

Livro de estreia do autor Nathan Hill, confesso que fui fisgada pela capa: uma foto em preto e branco de jovens em um protesto com o título peculiar em letras garrafais e coloridas. O enredo é simples, na superfície e gira em torno de duas pessoas: Samuel Andresen-Anderson e sua mãe, Faye.

Samuel é um escritor frustrado, que leciona em uma universidade e nas horas vagas, se perde no jogo de computador Elf Scape. Odeia dar aula, pois seus alunos são desinteressados. Samuel foi abandonado pela mãe quando tinha onze anos, fato que o marcou para sempre. Samuel continuaria sua vida tediosa, se não fosse por um fato: sua mãe desaparecida, Faye, joga pedras no governador, um candidato a presidência de extrema direita. Samuel é contatado por um advogado que defende sua mãe, que pede para ele escrever uma carta a fim de ajuda-la no julgamento.

A história se passa em três temporalidades diferentes: 1960-68, final dos anos 80 e ano de 2011(tempo atual). O livro conta com capítulos curtos, que alternam entre os personagens principais e secundários. A maestria de Hill reside no fato de conectar todos esses personagens. Podemos ver como somos algozes ou oprimidos, em certa medida, ao longo da vida. Os personagens são humanos, dotados de contradições.

Na década de 60 acompanhamos a trajetória de Faye, sua infância e adolescência, e todos os fatores que contribuíram para que ela se tornasse quem é. Eu, particularmente, tive a Faye como personagem preferida e foi uma delícia acompanhar as aventuras de uma mulher que tentava romper com o que com as expectativas do que era esperado para as mulheres da época. Na década de 80 acompanhamos a infância de Samuel pouco antes de ser abandonado pela mãe. Também foi enriquecedor conhecer um pouco da sociedade da época com as ótimas descrições. No ano 2011, acompanhamos o drama de Samuel, intimado por seu editor a escrever um livro falando mal do “Terror do Governador”, sua mãe Faye, para conseguir pagar a dívida do adiantamento que recebeu pelo livro que nunca publicou, na sua juventude.

É interessante notar que Nix usa a individualidade dos personagens para falar da sociedade de cada época. Os jovens que protestavam na década de 60 e os jovens atuais, que navegam nas redes sociais. O autor trabalha com a hipótese, a meu ver, de que todos os jovens querem ser notados e amados, e usam os meios que dispõem para isso, seja protestando ou postando memes e textões nas redes sociais. Compartilho parcialmente essa visão com o autor, pois acredito que naquela época, a motivação poderia ser a mesma, porém, era necessária uma força de ação para coloca-lá em prática que não é necessária hoje nas redes sociais. Qualquer um pode ser considerado militante.

É um livro com personagens deliciosos e complexos, que emociona, diverte e leva à reflexão, de uma maneira acessível a todos os públicos. Para quem leu, fica o questionamento: você já foi/é o Nix de alguém? Recomendo a leitura!


domingo, 6 de outubro de 2019

A morte é legal


Resenha
Livro: A morte é legal
Autor: Jim Anotsu
Editora: Draco
Páginas: 320

Esse é o segundo livro que leio do autor brasileiro Jim Anotsu. O primeiro que li foi Rani e o Sino da divisão. Apesar de ter gostado dos dois livros, Rani conseguiu me agradar mais, por vários motivos, que não cabem aqui citar, visto que a resenha é do livro A morte é legal e não de Rani.

O livro é narrado em terceira pessoa e engloba o ponto de vista de quatro diferentes personagens : Andrew, Amber, Rayla e Astrophel. Essas quatro micro histórias se interconectam o tempo inteiro no livro. Andrew e Amber são irmãos , que perderam a mãe cedo, morta em decorrência de uma doença que tem o nome de um jogador de beisebol. Andrew é um menino de 19 anos, meio emo, recluso, que passa seu tempo lendo livros, escutando música e escrevendo seu romance, A Violinista de Fevereiro. É apaixonado por sua melhor amiga Briony e não tem coragem de se declarar. Tudo muda quando ele conhece uma Ive, a princesa do fim inevitável, filha mais nova da Morte. Ela propõe a ele que juntos procurem os nomes do gato, a criatura mais poderosa do universo e que concede dois desejos às pessoas que adivinharem seus nomes. Andrew aceita e começa sua aventura.

Amber , sua irmã, é melhor amiga de Jonas, um menino negro que sofre racismo na escola. Os dois se reúnem para fazer rap. A história deles é a parte mais realista do livro e foi uma das que mais gostei. Podemos acompanhar o crescimento e amizade dos dois jovens, que , além de passarem dificuldades inerentes à adolescência, enfrentam juntos as dores e agruras de ser o que se é.

Rayla é irmã mais velha de Ive, uma burocrata do mundo espiritual. No começo, podemos achar que ela é uma vilã sem motivações, que executa suas atividades apenas pelo prazer de matar ou punir, mas ao longo da narrativa vamos começando a entender suas reais razões.

Astrophel é casado com Stella, uma fada que escolheu deixar de ser criatura sobrenatural para se tornar humana e viver seu amor ao lado de seu marido. Só que Stella está envelhecendo e os dois buscam os nomes do gato a fim de conceder a vida eterna a ela. O passado deles é emocionante e seu amor que atravessa séculos é descrito em passagens muito bonitas.

Todas essas histórias estão conectadas e se passam na cidade de Desbrel, um lugar frio parecido com Londres. Confesso que fiquei com vontade de visitar essa cidade fictícia.  Os personagens não são maniqueístas. Bons ou ruins, são simplesmente como nós, humanos (ou criaturas de outro mundo), que tomam atitudes boas ou ruins dependendo da circunstância em que se encontram. O livro possui alguns erros gramaticais, algumas frases que não terminam , que poderiam ter sido revistos ao longo da edição.

Mais do que acompanhar a história de amor do personagem principal, Andrew, é um romance de fantasia que fala muito sobre o crescimento, primeiros amores, perdas, ato de perdoar. Mistura realidade e acontecimentos fantásticos de uma maneira deliciosa de ler para quem pretende fugir um pouco dessa literalidade em que nós encontramos. Por tudo isso, recomendo a leitura, tanto desse livro,  assim como de Rani e o Sino da divisão.

domingo, 15 de setembro de 2019

Úrsula


Resenha
Livro: Úrsula
Autora: Maria Firmina dos Reis
Ano da publicação: 1859

Vocês já ouviram falar de Maria Firmina dos Reis? Começo essa resenha com esse questionamento, visto que na minha época de escola nunca havia ouvido falar dessa incrível autora, mulher, negra, abolicionista. Ela é autora do primeiro livro escrito por uma mulher, Úrsula, com temática abolicionista. Pensem o que era naquela época uma mulher negra escrever um romance que trazia a história de negros e negras como pessoas, dotadas de características positivas, não animalizadas e além de tudo, questionando o sistema , patriarcal e escravocrata. Como diz a escritora Chimamanda Ngozi Adichie, é necessário que escutemos outras histórias. A história não é única.
Em sua superfície, o romance possui um enredo simples e folhetinesco: a heroína que dá nome à história, Úrsula, uma mulher branca e pobre, que vive com a mãe, uma senhora paralitica, se apaixona por Tancredo, um jovem bacharel , que corresponde seu amor. Porém, a jovem é objeto da paixão de seu tio, irmão de sua mãe Luisa B., um comendador cruel, que jura que sua sobrinha será sua esposa , custe o que custa. Luisa B. e a filha vivem desamparadas, numa sociedade que tratava as mulheres como meros objetos de apreciação masculina(algo mudou?). Porém, esse é o enredo da superfície.
Logo no começo do livro somos apresentados à Tulio, um jovem negro escravizado, cuja senhoria é a Luisa B. que salva Tancredo, pois esse havia caído de seu cavalo e ficado desacordado. Nessa parte, já ficamos conhecendo as virtudes de Tulio, jovem lindo, negro, escravizado, gentil, bondoso e grato. Ele é colocada em pé de igualdade com o homem branco , Tancredo , e ainda por cima salva sua vida. Tancredo, muito agradecido, devota-lhe amizade, que é correspondida, além de comprar sua carta de alforria.
Também ficamos conhecendo dois outros negros escravizados: mãe Susana e Antero. Um dos capítulos mais comoventes do romance é a narrativa de mãe Susana de como era sua vida no continente africano, com marido, filha e mãe e do dia mais triste de sua vida, a sua captura pelos europeus. Ela narra a liberdade que tinha em sua terra natal e que nunca possuiria no Brasil, mesmo que um dia fosse alforriada, pois sua vida ficara lá. Aqui Maria Firmina inova trazendo uma historicidade ao negro. Na maior parte das histórias da época, os negros são simplesmente escravos, anistóricos, animalizados, sem família nem passado. Aqui, Firmina traz a perspectiva da mulher negra escravizada, e seu passado. Ponto muito ousado do romance naquela época.
A estratégia da autora é louvável: com um enredo na superfície simples e atrativo, acabaria por atrair aquela parcela da população que lia folhetins: burgueses, além da estrutura típica dos romances românticos. Com isso, esperava traduzir os horrores da escravidão para essas pessoas dotadas de privilegio. Firmina ainda usa os valores cristão para rechaçar a escravidão, numa época em que a própria igreja utilizada a Bíblia para justificar o sistema escravocrata.
Os marginalizados em uma sociedade patriarcal e escravocrata, as mulheres e os negros, tem voz e vez nesse romance. Contam sua histórias, são dotadas de sentimentos, de passado, de perspectivas, existem para além de fazer figuração ao homem branco, representado pela figura do Comendador. A mensagem é clara: enquanto existisse o sistema escravocrata e patriarcal, a felicidade de mulheres, negros e marginalizados da sociedade não seria possível. Pergunto a vocês por que um romance dessa magnitude e importância não tem destaque maior nas escolas? Por que, apesar de passados alguns anos do fim da escravidão, vivemos ainda num país racista, que possui em suas instituições a legitimação para suas práticas. Um país que mata seus jovens negros pelas mãos do Estado, que segrega, que magoa, que marginaliza. É necessário que façamos um esforço de sempre perseguir outras histórias, contadas pelo outro, pela mulher, pelo negro, pelo indígena, ou seja, pelo oprimido, a fim de mudar essa homogeneização, pois somos e sempre seremos plurais. Recomendo a leitura.

domingo, 1 de setembro de 2019

Vox


Resenha
Livro: Vox

Autora: Christina Dalcher

Ano: 2018

Número de páginas: 320

Editora: Arqueiro

 

Imaginem um mundo onde as mulheres só podem falar cem palavras por dia? Desde mulheres adultas até adolescentes e bebes recém-nascidos, onde o controle do número de palavras faladas é feito através de uma pulseira colocada no pulso dessas mulheres que as eletrocuta quando falam a centésima primeira palavra do dia. Essa é a premissa básica do livro Vox, escrito pela autora Christina Dalcher.

Esse futuro distópico, mas não muito distante, ocorre apenas nos Estados Unidos, com a eleição de um presidente ultra conservador, que foi precedido por um presidente negro. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. O livro foca-se na historia de Jean, uma ex neurolinguista e professora universitária, que, assim como todas as mulheres, perde seu direito à voz, ao trabalho, à possuir conta, acesso à internet, de ser alguém independente de sua família. Acompanhamos a rotina dessa mulher, que é casada e possui quatro filhos, uma menina e três meninos. Ela vive sua vida até que o irmão do presidente sofre um acidente e fica com um problema na região do cérebro responsável pela fala. Como ela é uma das únicas especialistas nesse assunto no país, o governo abre uma exceção e contrata ela para recuperar a fala do irmão do governante. Ela aceita, não sem antes relutar, mas exige coisas em troca, como tirar a pulseira de sua filha de cinco anos durante o processo de pesquisa.

O livro me lembrou muito outro livro de futuro distópico , O conta da Aia. Nele , as mulheres também perdem o direito às suas escolhas, se transformando em meros receptáculos de crianças. Esse livro, da autora Margaret Atwood, atualmente possui uma adaptação para a tv, na forma de um seriado, que já conta com duas temporadas. Como o livro foi escrito na década de 80, o seriado traz a história para os dias atuais. E qual não foi minha surpresa ao constatar que Vox se parece muito com o seriado. Assim como no seriado, em Vox a protagonista tem uma amiga feminista , que alerta a todos sobre o perigo que as mulheres estavam correndo, mas ninguém acredita, inclusive a protagonista. Assim como no seriado, as protagonistas tem filhos. Uma diferença é que em Vox a Jean possui filhos adolescentes, que estão sendo criados em um meio ideológico ultra- conservador e acabam absorvendo essas ideias. Mas as duas obras são bem similares, por isso o presente livro não me despertou tamanho assombro e surpresa, pois já tinha sido surpreendida anteriormente com a adaptação feita do Conto da Aia.

Em Vox, a narração se dá em primeira pessoa. No meu ponto de vista, as personagens não são muito bem construídas. Gosto bastante de obras onde o autor humaniza seus personagens, dotando-os de atitudes contraditórias, por vezes egoístas, mas acho que essa tentativa foi um pouco fracassada nesse livro. Eu vários momentos me vi com raiva da personagem tamanho o egoísmo dela em algumas de suas motivações. Primeiro, quando jovem ela não se importava com política e ainda ridicularizava sua amiga que se importava. Só passa a querer discutir o assunto quando ela se torna minoria. Tem uma passagem que tenta problematizar o feminismo branco liberal, mas não é desenvolvido no livro, sendo trazido muito jogado, o que acaba prejudicando o envolvimento com essa parte da história. Uma personagem evidencia que as feministas brancas só se preocupam com as pautas das feministas brancas, no que a protagonista sente o constrangimento dessa fala, mas não muda em nada suas atitudes.

O final do livro, apesar de subverter um pouco a lógica que vinha se desenvolvendo, o que acho um aspecto positivo, é muito apressado. Os fatos se resolvem muito rapidamente e se encaixam perfeitamente. Há um clímax que vai se resolvendo, como peças em um quebra cabeça, com pouca complexidade. Isso não me agradou muito.

Apesar dessas críticas, é um livro acessível à todos os públicos, por sua linguagem clara e simples: homens e mulheres deveriam lê-lo e refletir sobre. Nos tempos em que vivemos, onde aqui mesmo no Brasil tivemos a eleição de um candidato que se mostrou misógino, homofóbico e racista durante sua campanha, é um ótimo exercício a leitura dessa obra para questionarmos e conjecturarmos qual será o futuro não só das mulheres, mas dos oprimidos, que não fazem parte do ápice da escala de poder. Como ler para mim, é, além de tudo, uma atividade que desperta empatia, que nos coloquemos no lugar do outro, acredito que seja uma obra necessária, apesar das minhas críticas. Recomendo a leitura, prestando atenção aos detalhes. Termino o texto com uma frase da grande pensadora Simone de Beauvoir, que tem muito a ver com a temática do livro.

 

“Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.”

domingo, 18 de agosto de 2019

Reima


Resenha
Livro: Reima
Autor: Dau Bastos
Ano:2009
Número de páginas: 384
Editora: Record

Reima é um livro lançado pelo autor Dau Bastos, que além de escritor leciona literatura brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Conta a história de personagens, que de tão bem desenvolvidas, parecem pessoas reais, moradores possíveis da cidade do Rio de Janeiro, mais especificamente da região de Santa Teresa, no morro dos Prazeres e do Cerro, além de narrar o cotidiano dos moradores do condomínio Equitativa, que fica entre os dois morros em conflito, que abriga pessoas de classe média.

A obra se desenrola nesse espaço e no tempo presente. Acompanhamos a trajetória dos traficantes, que são humanizados, não se tornando pobres coitados, mas é feito todo um esforço para mostra-los como são: pessoas, seres humanos. As causas que levaram os traficantes Camarão e Reimoso a se tornarem o que são também são bem evidenciadas ao longo da trama.

Também acompanhamos a vida de Boiô, um músico que cresceu no morro dos Prazeres, bissexual e foi ganhar a vida na Europa. Com esse personagem, escancara-se a homofobia presente no Brasil. Também ficamos conhecendo Juca, morador dos Prazeres que se tornou um líder da associação de moradores e enfrenta o poder local, seja dos desmandos dos traficantes ou da polícia.

O enredo se desenrola contando um conflito que ocorreu naquela região, envolvendo os moradores dos três locais citados. Com os moradores do condomínio de classe média desvela-se as contradições dos mesmos e da sociedade dividida em classes e todos os conflitos oriundos dessa organização. Desde Clara, a síndica que passou a se importar com os moradores do morro por serem funcionários do prédio, mas gasta o equivalente ao salário dos funcionários de um mês em cosméticos, até Manuela, mulher jovem universitária de esquerda, que deseja o fim da desigualdade, filha de Gabriel, um homem conservador, com ideais meio psicopatas e dado ao crime.

Os personagens não são unidimensionais. Todos, seja os moradores do morro ou da classe média, tem atitudes boas e ruins, amam, odeiam, traem, transam, choram e riem, são como nós, seres humanos perfeitos em nossa imperfeição. Além do excelente desenvolvimento de personagens, a construção do conflito é memorável. Toda a violência vivida pelos favelados, seja pelas mãos do Estado ou de sujeitos que atuam na ilegalidade, pode ser sentida por nós. Os traficantes são construídos como meras peças de uma engrenagem, substituíveis, enquanto grandes empresários estão por trás da guerra às drogas, guerra essa que mata pobres, negros e periféricos, sem produzir resultado esperado pela população. Também demostra que essa guerra é em certa medida estimulada pela grande mídia e tem apoio maciço de grande parcela da população, que por temer por sua segurança, apoia atrocidades.

A sinopse do livro pode enganar. Muitas pessoas podem achar que se trata de um livro de ação, suspense, que narrará o conflito, com sangue, tiroteio e violência. Isso ocorre, mas o foco não é o suspense em si, mas as consequências dessa violência, os atores que sofrem, os sujeitos que provocam, o estado da cidade do Rio, as desigualdades que os cidadãos cariocas enfrentam, o racismo do Estado, institucionalizado. Existem muitas cenas de sexo no livro, mas que se encaixam no contexto e acabam compondo o conjunto de maneira orquestrada e equilibrada.

Por todos os motivos mencionados, ler essa obra em tempos de intolerância, desamor, violência e falta de empatia é um excelente exercício para nos fazer pensar em nossas próprias contradições, nosso modo de ler e interpretar o mundo, nossa sociedade desigual, mas que não precisa ser assim para sempre. Recomendo a leitura!


2001- Uma odisseia no espaço

                                                               Resenha   Livro: 2001- Uma odisseia no espaço   Autor: Arthur ...