domingo, 15 de setembro de 2019

Úrsula


Resenha
Livro: Úrsula
Autora: Maria Firmina dos Reis
Ano da publicação: 1859

Vocês já ouviram falar de Maria Firmina dos Reis? Começo essa resenha com esse questionamento, visto que na minha época de escola nunca havia ouvido falar dessa incrível autora, mulher, negra, abolicionista. Ela é autora do primeiro livro escrito por uma mulher, Úrsula, com temática abolicionista. Pensem o que era naquela época uma mulher negra escrever um romance que trazia a história de negros e negras como pessoas, dotadas de características positivas, não animalizadas e além de tudo, questionando o sistema , patriarcal e escravocrata. Como diz a escritora Chimamanda Ngozi Adichie, é necessário que escutemos outras histórias. A história não é única.
Em sua superfície, o romance possui um enredo simples e folhetinesco: a heroína que dá nome à história, Úrsula, uma mulher branca e pobre, que vive com a mãe, uma senhora paralitica, se apaixona por Tancredo, um jovem bacharel , que corresponde seu amor. Porém, a jovem é objeto da paixão de seu tio, irmão de sua mãe Luisa B., um comendador cruel, que jura que sua sobrinha será sua esposa , custe o que custa. Luisa B. e a filha vivem desamparadas, numa sociedade que tratava as mulheres como meros objetos de apreciação masculina(algo mudou?). Porém, esse é o enredo da superfície.
Logo no começo do livro somos apresentados à Tulio, um jovem negro escravizado, cuja senhoria é a Luisa B. que salva Tancredo, pois esse havia caído de seu cavalo e ficado desacordado. Nessa parte, já ficamos conhecendo as virtudes de Tulio, jovem lindo, negro, escravizado, gentil, bondoso e grato. Ele é colocada em pé de igualdade com o homem branco , Tancredo , e ainda por cima salva sua vida. Tancredo, muito agradecido, devota-lhe amizade, que é correspondida, além de comprar sua carta de alforria.
Também ficamos conhecendo dois outros negros escravizados: mãe Susana e Antero. Um dos capítulos mais comoventes do romance é a narrativa de mãe Susana de como era sua vida no continente africano, com marido, filha e mãe e do dia mais triste de sua vida, a sua captura pelos europeus. Ela narra a liberdade que tinha em sua terra natal e que nunca possuiria no Brasil, mesmo que um dia fosse alforriada, pois sua vida ficara lá. Aqui Maria Firmina inova trazendo uma historicidade ao negro. Na maior parte das histórias da época, os negros são simplesmente escravos, anistóricos, animalizados, sem família nem passado. Aqui, Firmina traz a perspectiva da mulher negra escravizada, e seu passado. Ponto muito ousado do romance naquela época.
A estratégia da autora é louvável: com um enredo na superfície simples e atrativo, acabaria por atrair aquela parcela da população que lia folhetins: burgueses, além da estrutura típica dos romances românticos. Com isso, esperava traduzir os horrores da escravidão para essas pessoas dotadas de privilegio. Firmina ainda usa os valores cristão para rechaçar a escravidão, numa época em que a própria igreja utilizada a Bíblia para justificar o sistema escravocrata.
Os marginalizados em uma sociedade patriarcal e escravocrata, as mulheres e os negros, tem voz e vez nesse romance. Contam sua histórias, são dotadas de sentimentos, de passado, de perspectivas, existem para além de fazer figuração ao homem branco, representado pela figura do Comendador. A mensagem é clara: enquanto existisse o sistema escravocrata e patriarcal, a felicidade de mulheres, negros e marginalizados da sociedade não seria possível. Pergunto a vocês por que um romance dessa magnitude e importância não tem destaque maior nas escolas? Por que, apesar de passados alguns anos do fim da escravidão, vivemos ainda num país racista, que possui em suas instituições a legitimação para suas práticas. Um país que mata seus jovens negros pelas mãos do Estado, que segrega, que magoa, que marginaliza. É necessário que façamos um esforço de sempre perseguir outras histórias, contadas pelo outro, pela mulher, pelo negro, pelo indígena, ou seja, pelo oprimido, a fim de mudar essa homogeneização, pois somos e sempre seremos plurais. Recomendo a leitura.

domingo, 1 de setembro de 2019

Vox


Resenha
Livro: Vox

Autora: Christina Dalcher

Ano: 2018

Número de páginas: 320

Editora: Arqueiro

 

Imaginem um mundo onde as mulheres só podem falar cem palavras por dia? Desde mulheres adultas até adolescentes e bebes recém-nascidos, onde o controle do número de palavras faladas é feito através de uma pulseira colocada no pulso dessas mulheres que as eletrocuta quando falam a centésima primeira palavra do dia. Essa é a premissa básica do livro Vox, escrito pela autora Christina Dalcher.

Esse futuro distópico, mas não muito distante, ocorre apenas nos Estados Unidos, com a eleição de um presidente ultra conservador, que foi precedido por um presidente negro. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. O livro foca-se na historia de Jean, uma ex neurolinguista e professora universitária, que, assim como todas as mulheres, perde seu direito à voz, ao trabalho, à possuir conta, acesso à internet, de ser alguém independente de sua família. Acompanhamos a rotina dessa mulher, que é casada e possui quatro filhos, uma menina e três meninos. Ela vive sua vida até que o irmão do presidente sofre um acidente e fica com um problema na região do cérebro responsável pela fala. Como ela é uma das únicas especialistas nesse assunto no país, o governo abre uma exceção e contrata ela para recuperar a fala do irmão do governante. Ela aceita, não sem antes relutar, mas exige coisas em troca, como tirar a pulseira de sua filha de cinco anos durante o processo de pesquisa.

O livro me lembrou muito outro livro de futuro distópico , O conta da Aia. Nele , as mulheres também perdem o direito às suas escolhas, se transformando em meros receptáculos de crianças. Esse livro, da autora Margaret Atwood, atualmente possui uma adaptação para a tv, na forma de um seriado, que já conta com duas temporadas. Como o livro foi escrito na década de 80, o seriado traz a história para os dias atuais. E qual não foi minha surpresa ao constatar que Vox se parece muito com o seriado. Assim como no seriado, em Vox a protagonista tem uma amiga feminista , que alerta a todos sobre o perigo que as mulheres estavam correndo, mas ninguém acredita, inclusive a protagonista. Assim como no seriado, as protagonistas tem filhos. Uma diferença é que em Vox a Jean possui filhos adolescentes, que estão sendo criados em um meio ideológico ultra- conservador e acabam absorvendo essas ideias. Mas as duas obras são bem similares, por isso o presente livro não me despertou tamanho assombro e surpresa, pois já tinha sido surpreendida anteriormente com a adaptação feita do Conto da Aia.

Em Vox, a narração se dá em primeira pessoa. No meu ponto de vista, as personagens não são muito bem construídas. Gosto bastante de obras onde o autor humaniza seus personagens, dotando-os de atitudes contraditórias, por vezes egoístas, mas acho que essa tentativa foi um pouco fracassada nesse livro. Eu vários momentos me vi com raiva da personagem tamanho o egoísmo dela em algumas de suas motivações. Primeiro, quando jovem ela não se importava com política e ainda ridicularizava sua amiga que se importava. Só passa a querer discutir o assunto quando ela se torna minoria. Tem uma passagem que tenta problematizar o feminismo branco liberal, mas não é desenvolvido no livro, sendo trazido muito jogado, o que acaba prejudicando o envolvimento com essa parte da história. Uma personagem evidencia que as feministas brancas só se preocupam com as pautas das feministas brancas, no que a protagonista sente o constrangimento dessa fala, mas não muda em nada suas atitudes.

O final do livro, apesar de subverter um pouco a lógica que vinha se desenvolvendo, o que acho um aspecto positivo, é muito apressado. Os fatos se resolvem muito rapidamente e se encaixam perfeitamente. Há um clímax que vai se resolvendo, como peças em um quebra cabeça, com pouca complexidade. Isso não me agradou muito.

Apesar dessas críticas, é um livro acessível à todos os públicos, por sua linguagem clara e simples: homens e mulheres deveriam lê-lo e refletir sobre. Nos tempos em que vivemos, onde aqui mesmo no Brasil tivemos a eleição de um candidato que se mostrou misógino, homofóbico e racista durante sua campanha, é um ótimo exercício a leitura dessa obra para questionarmos e conjecturarmos qual será o futuro não só das mulheres, mas dos oprimidos, que não fazem parte do ápice da escala de poder. Como ler para mim, é, além de tudo, uma atividade que desperta empatia, que nos coloquemos no lugar do outro, acredito que seja uma obra necessária, apesar das minhas críticas. Recomendo a leitura, prestando atenção aos detalhes. Termino o texto com uma frase da grande pensadora Simone de Beauvoir, que tem muito a ver com a temática do livro.

 

“Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.”

domingo, 18 de agosto de 2019

Reima


Resenha
Livro: Reima
Autor: Dau Bastos
Ano:2009
Número de páginas: 384
Editora: Record

Reima é um livro lançado pelo autor Dau Bastos, que além de escritor leciona literatura brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Conta a história de personagens, que de tão bem desenvolvidas, parecem pessoas reais, moradores possíveis da cidade do Rio de Janeiro, mais especificamente da região de Santa Teresa, no morro dos Prazeres e do Cerro, além de narrar o cotidiano dos moradores do condomínio Equitativa, que fica entre os dois morros em conflito, que abriga pessoas de classe média.

A obra se desenrola nesse espaço e no tempo presente. Acompanhamos a trajetória dos traficantes, que são humanizados, não se tornando pobres coitados, mas é feito todo um esforço para mostra-los como são: pessoas, seres humanos. As causas que levaram os traficantes Camarão e Reimoso a se tornarem o que são também são bem evidenciadas ao longo da trama.

Também acompanhamos a vida de Boiô, um músico que cresceu no morro dos Prazeres, bissexual e foi ganhar a vida na Europa. Com esse personagem, escancara-se a homofobia presente no Brasil. Também ficamos conhecendo Juca, morador dos Prazeres que se tornou um líder da associação de moradores e enfrenta o poder local, seja dos desmandos dos traficantes ou da polícia.

O enredo se desenrola contando um conflito que ocorreu naquela região, envolvendo os moradores dos três locais citados. Com os moradores do condomínio de classe média desvela-se as contradições dos mesmos e da sociedade dividida em classes e todos os conflitos oriundos dessa organização. Desde Clara, a síndica que passou a se importar com os moradores do morro por serem funcionários do prédio, mas gasta o equivalente ao salário dos funcionários de um mês em cosméticos, até Manuela, mulher jovem universitária de esquerda, que deseja o fim da desigualdade, filha de Gabriel, um homem conservador, com ideais meio psicopatas e dado ao crime.

Os personagens não são unidimensionais. Todos, seja os moradores do morro ou da classe média, tem atitudes boas e ruins, amam, odeiam, traem, transam, choram e riem, são como nós, seres humanos perfeitos em nossa imperfeição. Além do excelente desenvolvimento de personagens, a construção do conflito é memorável. Toda a violência vivida pelos favelados, seja pelas mãos do Estado ou de sujeitos que atuam na ilegalidade, pode ser sentida por nós. Os traficantes são construídos como meras peças de uma engrenagem, substituíveis, enquanto grandes empresários estão por trás da guerra às drogas, guerra essa que mata pobres, negros e periféricos, sem produzir resultado esperado pela população. Também demostra que essa guerra é em certa medida estimulada pela grande mídia e tem apoio maciço de grande parcela da população, que por temer por sua segurança, apoia atrocidades.

A sinopse do livro pode enganar. Muitas pessoas podem achar que se trata de um livro de ação, suspense, que narrará o conflito, com sangue, tiroteio e violência. Isso ocorre, mas o foco não é o suspense em si, mas as consequências dessa violência, os atores que sofrem, os sujeitos que provocam, o estado da cidade do Rio, as desigualdades que os cidadãos cariocas enfrentam, o racismo do Estado, institucionalizado. Existem muitas cenas de sexo no livro, mas que se encaixam no contexto e acabam compondo o conjunto de maneira orquestrada e equilibrada.

Por todos os motivos mencionados, ler essa obra em tempos de intolerância, desamor, violência e falta de empatia é um excelente exercício para nos fazer pensar em nossas próprias contradições, nosso modo de ler e interpretar o mundo, nossa sociedade desigual, mas que não precisa ser assim para sempre. Recomendo a leitura!


domingo, 21 de julho de 2019

Favela Gótica


Resenha
Livro: Favela Gótica
Autor: Fabio Shiva
Ano: 2019
Número de páginas: 279
Editora: Verlidelas

         Favela Gótica, romance com pitadas de ficção científica, distopia, policial e terror. Tudo isso ambientando no nosso Brasil desigual, evidenciando nossas rachaduras enquanto sociedade. Com enredo envolvente e cenas de tirar o fôlego, representa uma inovação muito bem-vinda à literatura nacional. Vamos ao enredo.
         Liana é uma adolescente viciada em uma droga chamada Z, que tem muitas semelhanças com o crack. Como várias outras garotas pobres das nossas periferias brasileiras, precisa mendigar, se prostituir de diversas formas a fim de sobreviver e alimentar seu vício. Paralelamente à história de Liana, acompanhamos os Registros Akáshicos, uma espécie de subnarração que vai ajudando a encaixar os acontecimentos ao longo da obra.
         Liana mora em um casebre numa favela com sua “família”, pessoas sem laços de sangue que se juntaram a fim de conseguir melhor se manter nesse local tão cruel. Em uma noite, que poderia acabar como outra qualquer, Liana presencia um assassinato e acaba sendo perseguida pelos lobisomens, os policiais. O romance todo trabalha através de metáforas: os policiais são lobisomens, que se tornam mais agressivos durante a noite, mostrando as torturas e violência cotidiana à qual os moradores da favela estão submetidos diariamente; as crianças invisíveis , menores moradores de rua, os quais a sociedade não consegue enxergar; os zumbis, usuários da droga, tão submersos nessa situação e viciados quanto os nossos usuários de droga que moram nas ruas; o próprio sistema de produção da droga é tão sujo e envolve autoridades que ganham com essa situação quanto na nossa realidade.
         Acompanhamos através de um narrador em terceira pessoa, que se foca na trajetória de Liana, sua aventura, que é ao mesmo tempo uma busca pela solução de problemas que vão aparecendo ao longo da trama como uma busca por autoconhecimento, onde ela consegue enxergar o verdadeiro sentido de sua existência, das trevas para a luz. A narrativa me lembrou alguns livros que já li, como A mãe, a filha e o espírito da santa, de P. J. Pereira e o clássico de sci fi Laranja Mecânica, do Anthony Burguess, no modo de narrar a história e na violência de alguns acontecimentos.
         Comecei a leitura e conclui em apenas três dias, tamanha a ansiedade para saber sobre os acontecimentos. Uma trama envolvente, narrativa fluida e que de quebra, ainda nos faz pensar sobre as mazelas e chagas da nossa sociedade. Recomendo fortemente a leitura da obra.

domingo, 7 de julho de 2019

A princesa prometida


Resenha
Livro: A Princesa Prometida
Autor: William Goldam (S. Morgenstern.)
Ano da edição: 2018
Número de páginas: 416
Editora: Intrínseca

Uma paródia dos livros de romance épicos. Uma história diferente de tudo que já havia lido do gênero. Essas frases são poucas para expressar a surpresa que me atingiu lendo esse clássico cult, que teve uma adaptação para o cinema, roteirizada pelo próprio autor, na década de 80.
Goldman começa a história dizendo que A princesa Prometida é seu livro preferido, apesar de nunca ter lido o mesmo. Ele nos esclarece esse ponto. O autor fala que o livro, na realidade, não é de sua autoria, mas de um homem chamado S. Morgenstern, nascido em Florin, que possuía mais de 1000 páginas. Ele segue dizendo que o livro foi lido por seu pai para um Goldman de apenas 10 anos quando convalescia de uma pneumonia, na cama de seu quarto. Seu pai havia resumido o livro conforme lia, deixando apenas as partes boas, recheadas de amor, vingança, aranhas, cobras, esgrima, lutas, coragem. Por isso, o Goldman, já adulto, decide reeditar esse grande calhamaço deixando apenas as partes boas lidas pelo seu pai. Ao longo de toda a trama, o autor interrompe a história para contar um pouco de sua vida pessoal e da maneira como foi feita a edição da história.
Nesse momento, posso dizer que fui fisgada pela leitura, pois essa organização era algo totalmente diferente das leituras com as quais estava acostumada. Eis a história. O livro conta a saga de Buttercup e Westley, uma camponesa e um menino da fazenda. Buttercup é uma mulher lindíssima, que se apaixona perdidamente por Westley, os dois apenas dois jovens na época. Ela morava com seus pais em uma fazenda e Westley era um empregado da mesma. Ela sempre maltratava o menino, que respondia aos seus insultos com a mesma frase: como queira. Um dia, quando uma mulher poderosa visita a fazenda dos pais da protagonista e dá em cima de Westley, Buttercup percebe que ele é o amor da sua vida e se declara. O empregado corresponde ao seu amor, mas decide ir para a América em busca de dinheiro, para poder se casar e dar uma vida à altura da protagonista.
Conforme o tempo vai passando, os dois se correspondem por cartas, que , de uma hora para outra, deixam de chegar. Um boato chega aos ouvidos de Buttercup, dizendo que seu amado fora morto por um pirata. Ela perde a razão e jura nunca mais se apaixonar. Após passar um tempo, o príncipe do país necessita casar, em ocasião da morte iminente de seu pai e vê em Buttercup a possibilidade de uma esposa linda, de causar inveja à todos e a pede em casamento. Ela aceita, mas deixa claro que não o ama e nunca amará.
O tempo vai passando, os dois ficam oficialmente noivos. Buttercup é sequestrada por três sujeitos peculiares: o gigante , doce e poeta Fezzik; o italiano Vizzini e o bruxo esgrimista Inigo. Devo confessar que Fezzik e Inigo acabam se tornando meus personagens preferidos ao longo da história, ao lado do casal de protagonistas, pelo seu carisma. Mas o trio sequestrador não contava com a interferência de um homem de preto, que buscava salvar Buttercup das garras dos três. A partir desse momento, a história se desenrola e nos surpreende a cada momento, com muita ironia sobre os clássicos romances românticos, muito bom humor, sátiras e uma pitada de romance na dose certa. A lição principal dessa história é que a vida não é justa.

SÓ LEIAM ESSE PARÁGRAFO APÓS A LEITURA DO LIVRO

Lembra que eu disse que o autor tece comentários ao longo de todo o livro, sobre a edição e sua vida pessoal? Fazendo um pesquisa, descobri que tudo isso não passa de invenção do autor. Todos esses comentários foram muito bem construídos e inseridos, conferindo verossimilhança à história. Juro que realmente acreditei e sofri, ri, com toda a história relatada, mas descobri, após a leitura do livro, se tratar de ficção. A meu ver, não prejudica a leitura, pelo contrário, adorei saber que ao final fui enganada assim como muitos leitores ao redor do mundo. Para mim, isso, junto ao conjunto da obra, torna-a um livro diferente de outros do gênero e especialmente interessante. Descobri também que muitos seriados, filmes e animações fazem referência à essa história. A mais interessante que descobri foi Shrek, que também é uma espécie de paródia dos contos de fada, sendo Fiona a Buttercup e Shrek o Westley. Para quem quiser se divertir, surpreender, chorar, e conhecer esse clássico cult que inspirou dezenas de outas produções, recomendo a leitura.


domingo, 23 de junho de 2019

1984



Resenha
Livro: 1984
Autor: George Orwell
Ano: 2009
Número de páginas: 416
Editora: Companhia das Letras

Guerra é Paz
Liberdade é escravidão
Ignorância é força

Esses são os lemas do Partido, regime de governo que controla a tudo e todos, desde o mais ínfimo pensamento até a maior ação, no ano de 1984, distopia futurística, obra-prima de George Orwell, autor de o também aclamado A Revolução dos Bichos. Antes de abordarmos o livro propriamente dito, é necessário ter em mente quem foi o autor: um homem de esquerda, adepto das ideais socialistas. Quando lançado, o livro foi encarado como uma crítica aos regimes totalitários, de maneira geral. Nos Estados Unidos, por ter sido lançado na época da perseguição aos comunistas (macartismo), foi visto como mais uma ferramenta dessa perseguição.
Mais um olhar mais apurado nos fará perceber que 1984 já está entre nós. Vamos ao enredo. O livro conta a história de Winston Smith, um membro do Partido Externo (algo próximo à nossa classe média), que vive em uma sociedade totalmente controlada pelo governo, o Partido, encarnado na figura do Big Brother (Grande Irmão, reconhece esse nome?). A sociedade é dividida em três classes: aquela à qual pertence Wisnston, a classe mais alta, que seriam os membros do Núcleo do Partido, a elite mais favorecida com o regime e por fim os proletas, a grande massa de trabalhadores. Winston começa a questionar o regime em que vive, de vigilância constante, onde até o mais ínfimo pensamento é passível de ser controlado através de teletelas, aparelhos capazes de transmitir e captar sons e ruídos ambientais ( smart Tv?). Winston conhece Julia, uma jovem sonhadora que odeia o partido e juntos embarcam em uma aventura, junto à uma organização secreta rebelde.
Vários conceitos são apresentados ao longo da trama, como a Novafala, um tipo de dialeto que seria implementado até o final de 2050, próprio do Socing, o regime totalitário do livro. Na Novafala, existia o conceito de duplipensamento, que em linhas gerais, significa conseguir comportar ideias contraditórias e conviver com esse paradoxo. Para exemplificar, nessa sociedade o Ministério do Amor persegue pessoas contrárias ao regime e as mata, o Ministério da Paz promove a guerra, e o Ministério da Verdade reescreve a realidade.
Podemos encontrar muitos paralelos do romance com o momento atual em que vivemos. Afinal de contas, o que seriam as exaustivas fake News, o grande revisionismo histórico observado no mundo e os fatos alternativos de Donaldo Trump senão tentativas de se reescrever a realidade? O que seriam os aparelhos eletrônicos, como smart tv, ou smarthphones, senão as teletelas? O que seriam as redes sociais, senão o Grande Irmão em ação, nos obtendo como produtos?
Acho que o mais perturbador do romance, e por isso mesmo seja um clássico, além do paralelo feito com regimes totalitários que já existiram, é perceber traços de totalitarismo em regimes considerados democráticos, afinal de contas, todos os casos citados no parágrafo anterior ocorrem cotidianamente em democracias. O final do livro não é feliz, mas podemos pensar que na época em que foi escrito havia esse sentimento melancólico e pesado de descontentamento com a situação humana e incerteza em relação ao futuro. Em 2019  o livro completa 70 anos do seu lançamento, que ele possa nos servir para uma reflexão acerca do nosso futuro e sobretudo, do nosso presente. Por todas as razões citadas, recomendo a leitura do livro.

Dica adicional: para quem gosta de ficção científica, recomendo a leitura de mais três romances clássicos do gênero: Laranja Mecânica, Farenheit 451 e Admirável Mundo Novo, todos lidos por mim e com resenhas aqui no blog. Boa leitura e reflexão.

domingo, 2 de junho de 2019

Caminhos de liberdade :a luta pela defesa da selva


Resenha
Livro: Caminhos de Liberdade, A luta pela defesa da selva
Autor: Javier Moro
Ano: 2011
Número de páginas: 460
Editora: Planeta do Brasil

Achei essa obra prima da literatura numa banca que vendia livros pela bagatela de dez reais. Eu, como professora de Biologia, assim que li o nome Chico Mendes na parte de trás do livro me interessei. Não me arrependo de ter comprado.

O livro narra a saga de Chico Mendes- seringueiro, sindicalista, homem de esquerda, ativista pelo meio ambiente- na luta pela defesa da selva. Acompanha a trajetória da família de Chico, desde a juventude de seu pai, até sua morte. O autor narra a vida e luta não só de Chico, como de várias outras pessoas que participaram das lutas , foram companheiras desse ativista durante os anos. Conhecemos Mary Alegretti, uma professora universitária que se dedicou a construir escolas para os seringueiros e teve de enfrentar a ira dos latifundiários, afinal para que pobre empregado precisaria aprender a ler e escrever? Conhecemos Gilson Pescador, um ex padre que lutou nas trincheiras da vida ao lado do companheiro Chico, e apesar de não possuir mais a batina, levou os ensinamentos cristãos a sério e entendia Jesus como homem que foi perseguido, e viveu e morreu pelos pobres. Conhecemos personagens contraditórios, como o matador, ex açougueiro e ex garimpeiro Pernambuco.

Como na vida, os personagens não são unidimensionais, apenas bons ou maus. Todos tem suas contradições e suas qualidades. A exceção talvez fique por conta dos matadores de Chico e grandes latifundiários, preocupados apenas com a acumulação de riqueza em detrimento da exploração da natureza humana e não humana. As atrocidades cometidas pelos latifundiários contra os seringueiros e camponeses é de doer a alma, de arrancar lágrimas de indignação e tristeza. Observamos que os pobres desse país não tem voz e vez, nem direito à nada, nem ao mais básico dos direitos: o de ter uma moradia e garantia de alimentação.

O autor narra com maestria como o Brasil enquanto Estado ao longo dos anos vem tomando iniciativas para favorecer os grandes detentores da terra, deixando seus trabalhadores oprimidos à própria sorte. Acompanhamos o ciclo da borracha, a construção da Transamazônia e todas as consequências drásticas que isso veio a causar para os moradores da floresta e das cidades em volta dessa estrada; acompanhamos o sofrimento dos seringueiros durante a ditadura e sua aproximação com o PT, que representava naquela época a única alternativa de oposição aos militares e de luta nas bases.

O livro atenta para o fato de que o senso comum, a mídia e ate o governo tratam a região da Amazônia como sendo um vazio demográfico, sem gente morando. Sabemos que indígenas e os povos da floresta moram lá e cuidam do seu ambiente há muito tempo.

Chico, assim como as populações tradicionais, pescadores, quebradoras de coco, quilombolas, raízeiras, indígenas, fazem parte de um grupo que tem uma relação com a natureza totalmente diferente da nossa: eles são parte indissociável da natureza. Tem a consciência que para sobreviver, é necessário preservar, pois tiram seu sustento da floresta. Esses povos são responsáveis por reservas de minério, corpos de água sem poluição, solo protegido do agronegócio. Acredito que tenhamos muito a aprender com a maneira com a qual esses povos convivem com a floresta, e parar de tratar a natureza como objeto a ser explorada e dominada.

Conheci através da leitura do livro, toda a luta de Chico Mendes. Me emocionei, ri, chorei, me indignei com seu assassinato. Um povo que não tem memória, está fadado a repetir seus erros. É necessário que resgatemos nossos verdadeiros heróis, e façamos a reflexão de que, após 31 anos da morte de Chico Mendes, os grandes latifundiários continuam a matar os ambientalistas que acreditam em outra lógica de conviver com a natureza, que questiona o modo de produção capitalista. É necessário que saibamos quem foi esse ser humano, que resgatamos suas historicidade, sua materialidade e tenhamos sempre esperança em dias melhores. Recomendo a leitura.


2001- Uma odisseia no espaço

                                                               Resenha   Livro: 2001- Uma odisseia no espaço   Autor: Arthur ...