domingo, 21 de julho de 2019

Favela Gótica


Resenha
Livro: Favela Gótica
Autor: Fabio Shiva
Ano: 2019
Número de páginas: 279
Editora: Verlidelas

         Favela Gótica, romance com pitadas de ficção científica, distopia, policial e terror. Tudo isso ambientando no nosso Brasil desigual, evidenciando nossas rachaduras enquanto sociedade. Com enredo envolvente e cenas de tirar o fôlego, representa uma inovação muito bem-vinda à literatura nacional. Vamos ao enredo.
         Liana é uma adolescente viciada em uma droga chamada Z, que tem muitas semelhanças com o crack. Como várias outras garotas pobres das nossas periferias brasileiras, precisa mendigar, se prostituir de diversas formas a fim de sobreviver e alimentar seu vício. Paralelamente à história de Liana, acompanhamos os Registros Akáshicos, uma espécie de subnarração que vai ajudando a encaixar os acontecimentos ao longo da obra.
         Liana mora em um casebre numa favela com sua “família”, pessoas sem laços de sangue que se juntaram a fim de conseguir melhor se manter nesse local tão cruel. Em uma noite, que poderia acabar como outra qualquer, Liana presencia um assassinato e acaba sendo perseguida pelos lobisomens, os policiais. O romance todo trabalha através de metáforas: os policiais são lobisomens, que se tornam mais agressivos durante a noite, mostrando as torturas e violência cotidiana à qual os moradores da favela estão submetidos diariamente; as crianças invisíveis , menores moradores de rua, os quais a sociedade não consegue enxergar; os zumbis, usuários da droga, tão submersos nessa situação e viciados quanto os nossos usuários de droga que moram nas ruas; o próprio sistema de produção da droga é tão sujo e envolve autoridades que ganham com essa situação quanto na nossa realidade.
         Acompanhamos através de um narrador em terceira pessoa, que se foca na trajetória de Liana, sua aventura, que é ao mesmo tempo uma busca pela solução de problemas que vão aparecendo ao longo da trama como uma busca por autoconhecimento, onde ela consegue enxergar o verdadeiro sentido de sua existência, das trevas para a luz. A narrativa me lembrou alguns livros que já li, como A mãe, a filha e o espírito da santa, de P. J. Pereira e o clássico de sci fi Laranja Mecânica, do Anthony Burguess, no modo de narrar a história e na violência de alguns acontecimentos.
         Comecei a leitura e conclui em apenas três dias, tamanha a ansiedade para saber sobre os acontecimentos. Uma trama envolvente, narrativa fluida e que de quebra, ainda nos faz pensar sobre as mazelas e chagas da nossa sociedade. Recomendo fortemente a leitura da obra.

domingo, 7 de julho de 2019

A princesa prometida


Resenha
Livro: A Princesa Prometida
Autor: William Goldam (S. Morgenstern.)
Ano da edição: 2018
Número de páginas: 416
Editora: Intrínseca

Uma paródia dos livros de romance épicos. Uma história diferente de tudo que já havia lido do gênero. Essas frases são poucas para expressar a surpresa que me atingiu lendo esse clássico cult, que teve uma adaptação para o cinema, roteirizada pelo próprio autor, na década de 80.
Goldman começa a história dizendo que A princesa Prometida é seu livro preferido, apesar de nunca ter lido o mesmo. Ele nos esclarece esse ponto. O autor fala que o livro, na realidade, não é de sua autoria, mas de um homem chamado S. Morgenstern, nascido em Florin, que possuía mais de 1000 páginas. Ele segue dizendo que o livro foi lido por seu pai para um Goldman de apenas 10 anos quando convalescia de uma pneumonia, na cama de seu quarto. Seu pai havia resumido o livro conforme lia, deixando apenas as partes boas, recheadas de amor, vingança, aranhas, cobras, esgrima, lutas, coragem. Por isso, o Goldman, já adulto, decide reeditar esse grande calhamaço deixando apenas as partes boas lidas pelo seu pai. Ao longo de toda a trama, o autor interrompe a história para contar um pouco de sua vida pessoal e da maneira como foi feita a edição da história.
Nesse momento, posso dizer que fui fisgada pela leitura, pois essa organização era algo totalmente diferente das leituras com as quais estava acostumada. Eis a história. O livro conta a saga de Buttercup e Westley, uma camponesa e um menino da fazenda. Buttercup é uma mulher lindíssima, que se apaixona perdidamente por Westley, os dois apenas dois jovens na época. Ela morava com seus pais em uma fazenda e Westley era um empregado da mesma. Ela sempre maltratava o menino, que respondia aos seus insultos com a mesma frase: como queira. Um dia, quando uma mulher poderosa visita a fazenda dos pais da protagonista e dá em cima de Westley, Buttercup percebe que ele é o amor da sua vida e se declara. O empregado corresponde ao seu amor, mas decide ir para a América em busca de dinheiro, para poder se casar e dar uma vida à altura da protagonista.
Conforme o tempo vai passando, os dois se correspondem por cartas, que , de uma hora para outra, deixam de chegar. Um boato chega aos ouvidos de Buttercup, dizendo que seu amado fora morto por um pirata. Ela perde a razão e jura nunca mais se apaixonar. Após passar um tempo, o príncipe do país necessita casar, em ocasião da morte iminente de seu pai e vê em Buttercup a possibilidade de uma esposa linda, de causar inveja à todos e a pede em casamento. Ela aceita, mas deixa claro que não o ama e nunca amará.
O tempo vai passando, os dois ficam oficialmente noivos. Buttercup é sequestrada por três sujeitos peculiares: o gigante , doce e poeta Fezzik; o italiano Vizzini e o bruxo esgrimista Inigo. Devo confessar que Fezzik e Inigo acabam se tornando meus personagens preferidos ao longo da história, ao lado do casal de protagonistas, pelo seu carisma. Mas o trio sequestrador não contava com a interferência de um homem de preto, que buscava salvar Buttercup das garras dos três. A partir desse momento, a história se desenrola e nos surpreende a cada momento, com muita ironia sobre os clássicos romances românticos, muito bom humor, sátiras e uma pitada de romance na dose certa. A lição principal dessa história é que a vida não é justa.

SÓ LEIAM ESSE PARÁGRAFO APÓS A LEITURA DO LIVRO

Lembra que eu disse que o autor tece comentários ao longo de todo o livro, sobre a edição e sua vida pessoal? Fazendo um pesquisa, descobri que tudo isso não passa de invenção do autor. Todos esses comentários foram muito bem construídos e inseridos, conferindo verossimilhança à história. Juro que realmente acreditei e sofri, ri, com toda a história relatada, mas descobri, após a leitura do livro, se tratar de ficção. A meu ver, não prejudica a leitura, pelo contrário, adorei saber que ao final fui enganada assim como muitos leitores ao redor do mundo. Para mim, isso, junto ao conjunto da obra, torna-a um livro diferente de outros do gênero e especialmente interessante. Descobri também que muitos seriados, filmes e animações fazem referência à essa história. A mais interessante que descobri foi Shrek, que também é uma espécie de paródia dos contos de fada, sendo Fiona a Buttercup e Shrek o Westley. Para quem quiser se divertir, surpreender, chorar, e conhecer esse clássico cult que inspirou dezenas de outas produções, recomendo a leitura.


domingo, 23 de junho de 2019

1984



Resenha
Livro: 1984
Autor: George Orwell
Ano: 2009
Número de páginas: 416
Editora: Companhia das Letras

Guerra é Paz
Liberdade é escravidão
Ignorância é força

Esses são os lemas do Partido, regime de governo que controla a tudo e todos, desde o mais ínfimo pensamento até a maior ação, no ano de 1984, distopia futurística, obra-prima de George Orwell, autor de o também aclamado A Revolução dos Bichos. Antes de abordarmos o livro propriamente dito, é necessário ter em mente quem foi o autor: um homem de esquerda, adepto das ideais socialistas. Quando lançado, o livro foi encarado como uma crítica aos regimes totalitários, de maneira geral. Nos Estados Unidos, por ter sido lançado na época da perseguição aos comunistas (macartismo), foi visto como mais uma ferramenta dessa perseguição.
Mais um olhar mais apurado nos fará perceber que 1984 já está entre nós. Vamos ao enredo. O livro conta a história de Winston Smith, um membro do Partido Externo (algo próximo à nossa classe média), que vive em uma sociedade totalmente controlada pelo governo, o Partido, encarnado na figura do Big Brother (Grande Irmão, reconhece esse nome?). A sociedade é dividida em três classes: aquela à qual pertence Wisnston, a classe mais alta, que seriam os membros do Núcleo do Partido, a elite mais favorecida com o regime e por fim os proletas, a grande massa de trabalhadores. Winston começa a questionar o regime em que vive, de vigilância constante, onde até o mais ínfimo pensamento é passível de ser controlado através de teletelas, aparelhos capazes de transmitir e captar sons e ruídos ambientais ( smart Tv?). Winston conhece Julia, uma jovem sonhadora que odeia o partido e juntos embarcam em uma aventura, junto à uma organização secreta rebelde.
Vários conceitos são apresentados ao longo da trama, como a Novafala, um tipo de dialeto que seria implementado até o final de 2050, próprio do Socing, o regime totalitário do livro. Na Novafala, existia o conceito de duplipensamento, que em linhas gerais, significa conseguir comportar ideias contraditórias e conviver com esse paradoxo. Para exemplificar, nessa sociedade o Ministério do Amor persegue pessoas contrárias ao regime e as mata, o Ministério da Paz promove a guerra, e o Ministério da Verdade reescreve a realidade.
Podemos encontrar muitos paralelos do romance com o momento atual em que vivemos. Afinal de contas, o que seriam as exaustivas fake News, o grande revisionismo histórico observado no mundo e os fatos alternativos de Donaldo Trump senão tentativas de se reescrever a realidade? O que seriam os aparelhos eletrônicos, como smart tv, ou smarthphones, senão as teletelas? O que seriam as redes sociais, senão o Grande Irmão em ação, nos obtendo como produtos?
Acho que o mais perturbador do romance, e por isso mesmo seja um clássico, além do paralelo feito com regimes totalitários que já existiram, é perceber traços de totalitarismo em regimes considerados democráticos, afinal de contas, todos os casos citados no parágrafo anterior ocorrem cotidianamente em democracias. O final do livro não é feliz, mas podemos pensar que na época em que foi escrito havia esse sentimento melancólico e pesado de descontentamento com a situação humana e incerteza em relação ao futuro. Em 2019  o livro completa 70 anos do seu lançamento, que ele possa nos servir para uma reflexão acerca do nosso futuro e sobretudo, do nosso presente. Por todas as razões citadas, recomendo a leitura do livro.

Dica adicional: para quem gosta de ficção científica, recomendo a leitura de mais três romances clássicos do gênero: Laranja Mecânica, Farenheit 451 e Admirável Mundo Novo, todos lidos por mim e com resenhas aqui no blog. Boa leitura e reflexão.

domingo, 2 de junho de 2019

Caminhos de liberdade :a luta pela defesa da selva


Resenha
Livro: Caminhos de Liberdade, A luta pela defesa da selva
Autor: Javier Moro
Ano: 2011
Número de páginas: 460
Editora: Planeta do Brasil

Achei essa obra prima da literatura numa banca que vendia livros pela bagatela de dez reais. Eu, como professora de Biologia, assim que li o nome Chico Mendes na parte de trás do livro me interessei. Não me arrependo de ter comprado.

O livro narra a saga de Chico Mendes- seringueiro, sindicalista, homem de esquerda, ativista pelo meio ambiente- na luta pela defesa da selva. Acompanha a trajetória da família de Chico, desde a juventude de seu pai, até sua morte. O autor narra a vida e luta não só de Chico, como de várias outras pessoas que participaram das lutas , foram companheiras desse ativista durante os anos. Conhecemos Mary Alegretti, uma professora universitária que se dedicou a construir escolas para os seringueiros e teve de enfrentar a ira dos latifundiários, afinal para que pobre empregado precisaria aprender a ler e escrever? Conhecemos Gilson Pescador, um ex padre que lutou nas trincheiras da vida ao lado do companheiro Chico, e apesar de não possuir mais a batina, levou os ensinamentos cristãos a sério e entendia Jesus como homem que foi perseguido, e viveu e morreu pelos pobres. Conhecemos personagens contraditórios, como o matador, ex açougueiro e ex garimpeiro Pernambuco.

Como na vida, os personagens não são unidimensionais, apenas bons ou maus. Todos tem suas contradições e suas qualidades. A exceção talvez fique por conta dos matadores de Chico e grandes latifundiários, preocupados apenas com a acumulação de riqueza em detrimento da exploração da natureza humana e não humana. As atrocidades cometidas pelos latifundiários contra os seringueiros e camponeses é de doer a alma, de arrancar lágrimas de indignação e tristeza. Observamos que os pobres desse país não tem voz e vez, nem direito à nada, nem ao mais básico dos direitos: o de ter uma moradia e garantia de alimentação.

O autor narra com maestria como o Brasil enquanto Estado ao longo dos anos vem tomando iniciativas para favorecer os grandes detentores da terra, deixando seus trabalhadores oprimidos à própria sorte. Acompanhamos o ciclo da borracha, a construção da Transamazônia e todas as consequências drásticas que isso veio a causar para os moradores da floresta e das cidades em volta dessa estrada; acompanhamos o sofrimento dos seringueiros durante a ditadura e sua aproximação com o PT, que representava naquela época a única alternativa de oposição aos militares e de luta nas bases.

O livro atenta para o fato de que o senso comum, a mídia e ate o governo tratam a região da Amazônia como sendo um vazio demográfico, sem gente morando. Sabemos que indígenas e os povos da floresta moram lá e cuidam do seu ambiente há muito tempo.

Chico, assim como as populações tradicionais, pescadores, quebradoras de coco, quilombolas, raízeiras, indígenas, fazem parte de um grupo que tem uma relação com a natureza totalmente diferente da nossa: eles são parte indissociável da natureza. Tem a consciência que para sobreviver, é necessário preservar, pois tiram seu sustento da floresta. Esses povos são responsáveis por reservas de minério, corpos de água sem poluição, solo protegido do agronegócio. Acredito que tenhamos muito a aprender com a maneira com a qual esses povos convivem com a floresta, e parar de tratar a natureza como objeto a ser explorada e dominada.

Conheci através da leitura do livro, toda a luta de Chico Mendes. Me emocionei, ri, chorei, me indignei com seu assassinato. Um povo que não tem memória, está fadado a repetir seus erros. É necessário que resgatemos nossos verdadeiros heróis, e façamos a reflexão de que, após 31 anos da morte de Chico Mendes, os grandes latifundiários continuam a matar os ambientalistas que acreditam em outra lógica de conviver com a natureza, que questiona o modo de produção capitalista. É necessário que saibamos quem foi esse ser humano, que resgatamos suas historicidade, sua materialidade e tenhamos sempre esperança em dias melhores. Recomendo a leitura.


domingo, 19 de maio de 2019

A mulher na janela



Resenha
Livro: A mulher na janela
Autor: A. J. Finn
Ano: 2018
Número de páginas: 352
Editora: Arqueiro

Uma mulher que sofre de agorafobia, medo de sair de casa após um estresse pós traumático. Vivendo a dor de uma separação, seu marido e filha longes, a psicóloga Anna Fox passa seus dias bebendo vinho, que mistura com seus remédios psiquiátricos, jogando xadrez na internet, falando no bate papo com desconhecidos que também sofrem de agorafobia, vendo filmes antigos e espionando seus vizinhos. A casa de Anna é grande e possui muitas janelas, por isso acaba passando o dia todo olhando através delas para a vida de seus vizinhos, que conseguem sair de casa e viver em sociedade. Ela acaba vivendo a vida através deles.

Até o dia que uma nova família se muda para a casa em frente a sua, os Russel. Ela passa a observar essa família e acaba testemunhando um fato grave. Mas ninguém acredita nela, pois, ela é instável, por conta dos vinhos e remédios que toma. Acredito também que pesa o fato dela ser uma mulher. Afina de contas, nós já somos desacreditadas na sociedade, imagina aquelas que sofrem de algum distúrbio psiquiátrico? São tratadas como loucas. Acho que o livro também quis passar essa ideia. Também percebi isso lendo a entrevista que o autor concedeu ao Estadão.

Somos levados o tempo inteiro a tentar entender o que está se passando na cabeça dos personagens do livro. Me fez lembrar bastante de dois outros livros de thriller psicológico também, A Garota exemplar e a A garota no trem. O que realmente é verdade? O Que realmente está acontecendo? O autor vai construindo o mistério ao longo de todo o livro, vai nos dando pistas, mas sem revelar a verdade. O enredo possui muitas viradas surpreendentes.

A linguagem é fluida, narrado em primeira pessoa. Por isso, a sensação que dá é de que você está preso na casa junto com a protagonista. Mais do que isso, a prisão da protagonista é em sua mente, afinal de contas, é isso que a impede de sair de casa. A capa do livro traz a seguinte frase: não é paranoia se está realmente acontecendo. Acaba nos dando pistas sobre os acontecimentos do livro.

O próprio autor afirmou em uma entrevista que teve a ideia do livro baseando-se no filme de Hitchcock, Janela Indiscreta. A inspiração é clara da premissa principal. Ao longo da trama, a protagonista assiste vários filmes desse diretor, inclusive citando as falas. As próprias falas refletem o estado de espirito da personagem naquele momento. Acredito que por isso mesmo, o livro é muito cinematográfico. Não à toa a Fox comprou os direitos da adaptação para o cinema e fiquei curiosa para saber o resultado. O autor também contou na mesma entrevista que sofria de depressão e estava um tempo de licença para se tratar quando teve a ideia do livro. O que explica a profundidade com que o tema de fobia, depressão, ansiedade é tratado. O próprio autor vivenciou essas sensações, o que acaba trazendo muita verossimilhança aos relatos.

Se você gosta de um suspense, de tentar desvendar mistérios, vai adorar esse livro. Eu devorei em apenas poucos dias, quando não estava lendo, ficava pensando na leitura e tentando juntar as peças do quebra-cabeça. Recomendo a leitura!

domingo, 21 de abril de 2019

Os cadernos de Praga

                                                         Foto: Daflon fotografia


Resenha
Livro: Os cadernos de Praga
Autor: Abel Posse
Ano: 1999
Número de páginas: 258
Editora: Record


Sou fascinada por romances históricos e sou suspeita para falar do protagonista principal desse: Ernesto Guevara de La Serna, ou simplesmente Che Guevara. O livro une ficção e realidade, resgatando os relatos de um caderno escrito por Che durante o período de mais ou menos cinco meses que residiu em Praga, escondendo sua identidade sob os pseudônimos de Vasquez Rojas, Adolfo Mena e Ramón Benítez.

O autor fez uma extensa pesquisa consultando pessoas que conheceram Che quando ele era apenas Ernesto Guevara e outros que já o conheceram como o revolucionário em questão. O autor pegou trechos do diário e mesclou com episódios fictícios. A fronteira entre o real e o imaginário é muito tênue: não dá para saber onde começa um e termina outro. Além dos relatos do caderno, há capítulos em que o autor explica como fez para chegar em uma determinada história, entrevistas do autor com as testemunhas que também são muito enriquecedoras.

Anteriormente, já havia lido Diários de Motocicleta. A escrita dos cadernos é tão lírica quanto no livro inteiramente escrito por Guevara. Com muitas metáforas, as passagens se tornam prosa com a fluidez e leveza de uma poesia. Quando ele fala da asma, uma doença que naquela época ainda não havia os tratamentos disponíveis  como hoje, descreve-a como Dama da Aurora. Trechos belíssimos também são aqueles em que ele descreve a relação dele com a mãe. Podemos acompanhar também a culpa por  ter sido um marido ausente, filho ausente, pai ausente. Sempre ausente por conta da revolução. A culpa é um sentimento que persegue Guevara por toda a vida. Culpa e inquietação.

Se você deseja conhecer mais sobre o Guevara humano, para além do lado político revolucionário, recomendo a leitura desse livro. Acredito que você, assim como eu, irá se apaixonar por esse ser humano que foi tão altruísta, gentil, honesto e justo. Além do texto ser muito rico do ponto de vista da linguagem. Boa leitura

domingo, 7 de abril de 2019

Rani e o Sino da divisão


Resenha
Livro: Rani e o Sino da Divisão
Autor: Jim Anotsu
Ano: 2014
Editora: Gutemberg
Número de páginas: 320

Muitas pessoas tem um pouco de preconceito em relação à literatura brasileira. Eu, particularmente, leio de tudo, e no momento, tenho feito um esforço para ler autores latino-americanos, asiáticos, do leste europeu, africanos, para sair um pouco do eixo Estados Unidos-Europa. Esse pode ser um ótimo livro para quem quer começar a se aventurar pela literatura brasileira contemporânea, do autor mineiro Jim Anotsu.

Rani é uma menina de 16 anos, que mora em uma cidade do interior de Minas Gerais, a Graúna( descobri que se refere à cidade de Itaúna, na realidade) e tem uma vida pacata, até mesmo um pouco tediosa. Sua rotina é ir para a escola onde cursa o Ensino Médio, tocar em uma banda com sua melhor amiga Marina , ler muito, ver séries e escutar músicas. Rani é uma menina negra, que se mudou da antiga escola por sofrer racismo.

Um desses dias cotidianos, quando ela corta caminho para ir à escola pelo cemitério da cidade, encontra com um menino vestindo roupas coloridas e sente um calafrio, seguido de uma enorme vontade de sair correndo. É o que ela faz. Quando chega na sua escola, tem uma surpresa ao  perceber que o menino colorido é seu mais novo colega de classe. O garoto se chama Pietro e na realidade é um vampiro que revela a Rani um fato que mudará sua vida para sempre: na verdade, a garota é uma xamã urbana. Existe um xamã que está matando e arrancando os corações de seus colegas a fim de despertar o Grande Espirito. Ele se chama Aiba e também está atrás de Rani.

A menina comum se vê em uma teia de acontecimentos surpreendentes que ela nem imaginava que existiam. No mundo sobrenatural também há “classes”. São as facções. A facção que o Pietro pertence é a dos Animais de Festa e a de mais baixo prestígio na sociedade e Rani passa a pertencer também à essa facção. Ela conhece Valentina, a irmã – e também vampira- de Pietro; Tales, filho do Lúcifer( também conhecido como hispter Lulu); Fred , o lobisomem cientista. Juntos, vão descobrir o valor das verdadeiras amizades e viver muitas aventuras na busca pela derrota de Aiba e salvação da humanidade.

É importante destacar que o livro tem muitas mulheres fortes como personagens. Começando pela protagonista: uma menina negra, de personalidade, que ama rock, não gosta de rotular relacionamentos, influenciada pela família é uma materialista ( até descobrir que ela faz parte de um mundo sobrenatural). Rani sofre racismo muitas vezes e isso é bem destacado no livro, não de forma panfletária, mas de maneira natural e até mesmo adolescentes que lerem o livro irão perceber a dor e o absurdo do racismo. Rani não orbita em torno de um personagem masculino. Apesar dela viver uma história com Pietro, continua sendo a Rani forte e inteligente de sempre; temos Marina, que apesar de ser humana permanece ao lado da amiga, enfrentando as situações irreais. É interessante por que o relacionamento das duas não é baseado em conversas sobre garotos. Aliás, somente uma vez a Marina questiona a Rani sobre o relacionamento dela com Pietro; a Valentina, uma vampira destemida, corajosa e inteligente.

 Representatividade importa. Se levarmos em consideração que esse livro tem como público alvo adolescentes, é importantíssimo que traga representações positivas de meninas, de pessoas negras, de idosos. Toda a obra quebra estereótipos estabelecidos pela nossa sociedade machista, racista. Meu eu adolescente com certeza amaria ler esse livro, assim como meu eu adulto. São de livros desse jeito que precisamos para tentar mudar, mesmo que de maneira lenta, nossa sociedade. Recomendo a leitura!

2001- Uma odisseia no espaço

                                                               Resenha   Livro: 2001- Uma odisseia no espaço   Autor: Arthur ...