domingo, 21 de abril de 2019

Os cadernos de Praga

                                                         Foto: Daflon fotografia


Resenha
Livro: Os cadernos de Praga
Autor: Abel Posse
Ano: 1999
Número de páginas: 258
Editora: Record


Sou fascinada por romances históricos e sou suspeita para falar do protagonista principal desse: Ernesto Guevara de La Serna, ou simplesmente Che Guevara. O livro une ficção e realidade, resgatando os relatos de um caderno escrito por Che durante o período de mais ou menos cinco meses que residiu em Praga, escondendo sua identidade sob os pseudônimos de Vasquez Rojas, Adolfo Mena e Ramón Benítez.

O autor fez uma extensa pesquisa consultando pessoas que conheceram Che quando ele era apenas Ernesto Guevara e outros que já o conheceram como o revolucionário em questão. O autor pegou trechos do diário e mesclou com episódios fictícios. A fronteira entre o real e o imaginário é muito tênue: não dá para saber onde começa um e termina outro. Além dos relatos do caderno, há capítulos em que o autor explica como fez para chegar em uma determinada história, entrevistas do autor com as testemunhas que também são muito enriquecedoras.

Anteriormente, já havia lido Diários de Motocicleta. A escrita dos cadernos é tão lírica quanto no livro inteiramente escrito por Guevara. Com muitas metáforas, as passagens se tornam prosa com a fluidez e leveza de uma poesia. Quando ele fala da asma, uma doença que naquela época ainda não havia os tratamentos disponíveis  como hoje, descreve-a como Dama da Aurora. Trechos belíssimos também são aqueles em que ele descreve a relação dele com a mãe. Podemos acompanhar também a culpa por  ter sido um marido ausente, filho ausente, pai ausente. Sempre ausente por conta da revolução. A culpa é um sentimento que persegue Guevara por toda a vida. Culpa e inquietação.

Se você deseja conhecer mais sobre o Guevara humano, para além do lado político revolucionário, recomendo a leitura desse livro. Acredito que você, assim como eu, irá se apaixonar por esse ser humano que foi tão altruísta, gentil, honesto e justo. Além do texto ser muito rico do ponto de vista da linguagem. Boa leitura

domingo, 7 de abril de 2019

Rani e o Sino da divisão


Resenha
Livro: Rani e o Sino da Divisão
Autor: Jim Anotsu
Ano: 2014
Editora: Gutemberg
Número de páginas: 320

Muitas pessoas tem um pouco de preconceito em relação à literatura brasileira. Eu, particularmente, leio de tudo, e no momento, tenho feito um esforço para ler autores latino-americanos, asiáticos, do leste europeu, africanos, para sair um pouco do eixo Estados Unidos-Europa. Esse pode ser um ótimo livro para quem quer começar a se aventurar pela literatura brasileira contemporânea, do autor mineiro Jim Anotsu.

Rani é uma menina de 16 anos, que mora em uma cidade do interior de Minas Gerais, a Graúna( descobri que se refere à cidade de Itaúna, na realidade) e tem uma vida pacata, até mesmo um pouco tediosa. Sua rotina é ir para a escola onde cursa o Ensino Médio, tocar em uma banda com sua melhor amiga Marina , ler muito, ver séries e escutar músicas. Rani é uma menina negra, que se mudou da antiga escola por sofrer racismo.

Um desses dias cotidianos, quando ela corta caminho para ir à escola pelo cemitério da cidade, encontra com um menino vestindo roupas coloridas e sente um calafrio, seguido de uma enorme vontade de sair correndo. É o que ela faz. Quando chega na sua escola, tem uma surpresa ao  perceber que o menino colorido é seu mais novo colega de classe. O garoto se chama Pietro e na realidade é um vampiro que revela a Rani um fato que mudará sua vida para sempre: na verdade, a garota é uma xamã urbana. Existe um xamã que está matando e arrancando os corações de seus colegas a fim de despertar o Grande Espirito. Ele se chama Aiba e também está atrás de Rani.

A menina comum se vê em uma teia de acontecimentos surpreendentes que ela nem imaginava que existiam. No mundo sobrenatural também há “classes”. São as facções. A facção que o Pietro pertence é a dos Animais de Festa e a de mais baixo prestígio na sociedade e Rani passa a pertencer também à essa facção. Ela conhece Valentina, a irmã – e também vampira- de Pietro; Tales, filho do Lúcifer( também conhecido como hispter Lulu); Fred , o lobisomem cientista. Juntos, vão descobrir o valor das verdadeiras amizades e viver muitas aventuras na busca pela derrota de Aiba e salvação da humanidade.

É importante destacar que o livro tem muitas mulheres fortes como personagens. Começando pela protagonista: uma menina negra, de personalidade, que ama rock, não gosta de rotular relacionamentos, influenciada pela família é uma materialista ( até descobrir que ela faz parte de um mundo sobrenatural). Rani sofre racismo muitas vezes e isso é bem destacado no livro, não de forma panfletária, mas de maneira natural e até mesmo adolescentes que lerem o livro irão perceber a dor e o absurdo do racismo. Rani não orbita em torno de um personagem masculino. Apesar dela viver uma história com Pietro, continua sendo a Rani forte e inteligente de sempre; temos Marina, que apesar de ser humana permanece ao lado da amiga, enfrentando as situações irreais. É interessante por que o relacionamento das duas não é baseado em conversas sobre garotos. Aliás, somente uma vez a Marina questiona a Rani sobre o relacionamento dela com Pietro; a Valentina, uma vampira destemida, corajosa e inteligente.

 Representatividade importa. Se levarmos em consideração que esse livro tem como público alvo adolescentes, é importantíssimo que traga representações positivas de meninas, de pessoas negras, de idosos. Toda a obra quebra estereótipos estabelecidos pela nossa sociedade machista, racista. Meu eu adolescente com certeza amaria ler esse livro, assim como meu eu adulto. São de livros desse jeito que precisamos para tentar mudar, mesmo que de maneira lenta, nossa sociedade. Recomendo a leitura!

domingo, 24 de março de 2019

On the road- pé na estrada


Resenha
Livro: On the road- Pé na estrada
Autor: Jack Kerouac
Ano da edição: 2004
Editora: L&PM Pocket

Expoente da geração Beat, Jack Kerouac sempre gostou de escrever. Quando pequeno, escrevia diários. Largou a marinha e a faculdade, com o objetivo de se tornar escritor. A geração beat surgiu a partir do encontro de três estudantes na Universidade Columbia, o próprio autor, Allen Ginsberg e William Burroughs. Foi um movimento literário, instalado em uma sociedade altamente conservadora que sustentava a prosperidade econômica americana pós Segunda Guerra Mundial. Esses escritores decidiram inaugurar um movimento que ia na contramão da literatura europeia e estadunidense, com suas prosas bem paragrafadas, pontos e vírgulas de acordo com a norma padrão da língua. O movimento era contrario ao american way of life, aquele estilo de vida que serviria de referência para o mundo: o típico americano, com emprego fixo, casado, com filhos, casa e carro próprios. É bom termos todo esse contexto em mente quando formos mergulhar nessa obra.

O livro tem um tanto de autobiográfico: o próprio autor viajou na companhia de seus amigos através dos Estados Unidos. Acredita-se que ele passou ao todo sete anos nas estradas e levou apenas três semanas para escrever o livro. Na primeira versão, era um texto de parágrafo único de 36 metros de comprimento, pois o Jack escreveu em rolos de papel manteiga colados, para não perder tempo de colocar papel. Escrito à base de muita benzedrina e café, parece realmente nos transportar para aqueles momentos. A primeira versão não foi aceita por nenhuma editora, ele teve que refazer o texto, colocando indesejáveis pontos e virgulas.  O enredo é simples: conta as aventuras de dois amigos viajando. Os personagens são Sal Paradise e Dean Moriarty. Ao longo da trama, temos vários personagens surgindo, as inúmeras mulheres de Dean, os outros amigos que pegavam carona em algumas das inúmeras vezes que eles estavam na estrada. Acredita-se que Sal represente o autor e Dean o amigo com o qual viajou.

O livro é narrado em um fluxo. Os diálogos não são marcados por aspas nem travessões, pois fazem parte da narrativa. Para quem está acostumado à leitura de livros bem formatados, pode estranhar. Eu estranhei um pouco a velocidade da narrativa, mas é perfeitamente compreensível. Parece que estamos pedindo carona junto com os personagens, dirigindo através da América ou adentrando o México, como ocorre na última viagem deles juntos.

Muitas atitudes dos personagens podem ser consideradas machistas em alguns momentos, irresponsáveis, mas é necessário levar em conta o contexto da escrita. Os personagens se desfizeram de todas as amarras sociais a fim de encontrar AQUILO: vida, amor, amizade, felicidade, drogas, sexo, companhia, seja lá o que aquilo represente.

É certamente um livro que te deixa com vontade de viajar e explorar por aí. As descrições meticulosas de tudo e de todos nos traz a sensação de que estamos conhecendo, sentindo os cheiros, gostos, vendo as paisagens, passando perrengues, juntamente com os personagens.

O livro no final, acaba sendo sobre dois amigos. É lindo e às vezes irritante o modo como Sal Paradise idolatra o amigo Dean, que é seu ídolo. Dean, no seu jeito louco, também ama Sal. A amizade que os une acaba sendo o elo do livro, o que importa no final de tudo é estarmos cercados de gente que amamos. O final do livro considerei uma metáfora interessante sobre o modo de vida do autor, não falarei para não dar spoilers, mas prestem atenção.

Para gostar do livro, é necessário levar em consideração todo o contexto de produção e o que essa obra e todas as outras do movimento beat representaram. Acredito que uma das funções da literatura seja criar empatia, que nos coloquemos no lugar do outro. Esse livro me fez pensar em como seria ser um jovem na década de 40 e 50 nos Estados Unidos, em meio a uma sociedade altamente tradicional e que vendia um único modo de vida como certo e detentor da felicidade. Recomendo a leitura, com um olhar empático. Se deixe levar pelas estradas sinuosas da América, na companhia de dois grandes amigos. Relaxe e aproveite a leitura.

domingo, 10 de março de 2019

A casa dos espíritos


Resenha
Livro: A casa dos espíritos
Autora: Isabel Allende
Número de páginas: 448
Editora: Bertrand Brasil

Isabel Allende é uma escritora nascida no Peru, mas com nacionalidade chilena. Autora premiada que conta com mais de 20 títulos escritos, entre romances, contos, poemas e peças. Antes de ser escritora, foi jornalista em uma revista feminina na juventude, onde tratava temas polêmicos, como aborto e liberdade sexual feminina. É sobrinha do Salvador Allende, presidente deposto pela ditadura militar no Chile na década de 70.

Realmente fiquei estagnada, arrepiada, emocionada e no final, sem palavras com a leitura do romance. O livro conta a história de 3 gerações de uma família, que começa com os Del Valle no começo do século passado e termina na década de 70 do mesmo século, com os Trueba. Mistura elementos reais com outros mágicos, típico do realismo mágico. Foi publicado em 1982 durante o boom da literatura latino-americana, na mesma época da publicação de Cem Anos de Solidão, do Gabriel Garcia Marquez. E não é somente a época de publicação que esses dois romances dividem. Os dois contam histórias reais misturados com magia, abordam a trajetória de uma família, e sobretudo, de um continente. Através da leitura dos livros, podemos conhecer melhor a América Latina, no caso da Casa dos Espíritos, pelo ponto de vista feminino.

A história começa com os Del Valle, que tinham vários filhos. A mãe se chamava Nivea e era sufragista, um escândalo naquela época, uma das primeiras feministas do país. Sua filha preferida era Rosa, que acaba morrendo. Rosa estava prometida à Esteban Trueba, que após a morte de sua amada, decide se casar com Clara, que aceita, acreditando ser seu destino. Clara é uma das personagens mais encantadoras da obra. Era clarividente, falava com os espíritos como quem conversa com os vivos. Dona de um coração puro e bom, sempre ajudava muitas pessoas. Pelo seu aspecto divino, não consegue se conectar com seu marido, Esteban. Esse sim, representando a sociedade burguesa, machista. Abusou de muitas mulheres, e nesse momento podemos fazer um paralelo com a colonização da América Latina e em como ocorreram diversos estupros ao longo desse processo. Eles tiveram três filhos: Jaime, Nicolau e Blanca.

Jaime herda o coração puro da mãe e se torna médico para ajudar os pobres e necessitados. Se preciso for, tira a roupa do corpo para dar aos que necessitavam. Nicolau é um  “maluco beleza”, praticante do amor livre e vida sem amarras. Blanca também é uma mulher forte e se apaixona por um dos empregados da fazendo do pai, Pedro Tercero Garcia. Pedro é um homem revolucionário, que desde pequeno desafiava o patrão por acreditar que todos tem o direito à viver com dignidade. Lutava contra a desigualdade em todas as suas formas e vive na história um amor avassalador com Blanca, que resulta em uma gravidez e no nascimento de Alba.

Eu me apaixonei pela Alba. Personagem feminista, idealista, socialista e que acaba desafiando seu avô, que apesar de odiar os comunistas, não consegue fazer o mesmo com sua neta. Ela e o avô tem uma relação de amor, pois esse sentimento é assim, contraditório e que não há concordância entre todas as atitudes dos envolvidos.
A história de desenrola até chegar ao seu clímax, que consiste na deposição de um presidente de esquerda eleito democraticamente. Semelhança com a realidade, pois o Chile teve seu presidente Salvador Allende deposto e viveu quase duas décadas sob o jugo de uma ditadura militar, fato que se repetiu em toda a América Latina.

Nesse livro, podemos sentir o quanto fomos roubados, maltratados, e apesar de tudo, conseguimos fazer poesia, enxergar a magia da vida , mesmo nas coisas mais terríveis. Tudo sob a ótica da mulher, escrito com muito cuidado e abordando temas sensíveis. Além da escrita ser extremamente fluida, o enredo é envolvente. A própria história da família é envolvente e quando fazemos o paralelo com a história da América Latina, isso enriquece mais ainda. Me apaixonei pelo livro, pela autora e pretende ler mais livros dela. Vamos ler mulheres, autores latino-americanos, descolonizar o pensamento e a literatura. Recomendo, obviamente, a leitura do livro.


domingo, 24 de fevereiro de 2019

A Metamorfose


Resenha
Livro: A metamorfose
Autor: Franz Kafka
Número de páginas: 96
Editora: Principis, ano 2018

Uma obra curta, essencialmente simples de entender, se observarmos apenas a superfície; um mergulho mais profundo nos faz capaz de entender um pouco mais sobre a natureza humana, solidão, capitalismo, direitos humanos, entre outras questões.
O enredo é velho conhecido da maior parte das pessoas: o jovem Gregor Samsa acorda em um belo dia em sua cama com um corpo diferente do seu usual, pois agora ele é um inseto. Gregor era um caixeiro viajante que sustentava a família – mãe, pai e irmã- e trabalhava apenas por essa razão, pois os seus pais possuíam uma dividia com seu chefe; do contrário já teria largado há tempos o emprego, pois o odiava. Gregor era o provedor da família e extremamente valorizado enquanto tal.

Quando o protagonista perde o horário pro trabalho, pois acordara como um inseto (importante destacar que o autor não especifica qual, deixando a cargo de nossa imaginação aquele mais asqueroso e repugnante que pudermos imaginar), seus pais começam a bater na porta, juntamente com sua irmã para ver o que acontecera. Logo em seguida, chega o gerente da empresa em pessoa a fim de verificar a razão da ausência de seu empregado. Na realidade, vemos como a família e o chefe não estão preocupados com a saúde ou o bem-estar do Gregor, mas somente com as consequências que adviriam da falta no trabalho.

Podemos perceber como o protagonista trata a questão de ter se tornado um inseto como secundário, ao passo que tenta convencer seu chefe de que está perfeitamente saudável para trabalhar. O chefe, a despeito de todos os serviços prestados durante cinco anos em que o empregado nunca faltara, sai correndo e abandona o trabalhador na amargura. É angustiante perceber a maneira como a qual Gregor tenta convencer a todos que sua condição é passageira e que ele poderia estar trabalhando normalmente. Muitos trabalhadores vão trabalhar mesmo doentes por conta do medo de demissões, ameaças por parte dos chefes e isso fica muito explicitado nessa parte. Assim como no filme Daniel Blake, podemos perceber que um trabalhador improdutivo é uma pedra no caminho do sistema, ele é descartável e quando não está saudável, o mais acertado, dentro da lógica capitalista, é descarta-lo.

Se tem uma palavra que define essa novela é angústia. É terrivelmente desesperador ver a maneira como a família de Greg muda o tratamento em relação à ele a partir do momento que o provedor se torna um inválido, que necessita de cuidados e provisão financeira. Quantos de nós já testemunhamos famílias que descartam seus idosos, as pessoas doentes, muitas vezes cuidando de forma a não os deixar morrer apenas, mas sem falar uma palavra de carinho e conforto? Assim que Greg se sente, jogado fora, inutilizado.

Greg se sente aprisionado em sua casca, em seu próprio corpo. Nesse momento fiz uma analogia às pessoas transexuais, que são pessoas que não se identificam com o sexo biológico com o qual nasceram. Essas pessoas são excluídas e marginalizadas na sociedade, assim como Greg, tratadas como repugnantes apenas por não se encaixarem no corpo com o qual nasceram, na casca, que nada mais é que um envoltório.
O autor utiliza um estilo que iria conferir a ele sua fama: narra episódios absurdos com extremo realismo, com verossimilhança. O que é real e o que não pode ocorrer se misturam, se imbricam a ponto da gente questionar o que é concreto, o que existe verdadeiramente.

Podemos pensar em todos os excluídos de nossa sociedade e ao tratamento que recebem. Esse livro joga em nossa cara as chagas de nossa sociedade, a hipocrisia, ao revelar que no final, o monstro de verdade não é o inseto repugnante, mas sim os “cidadãos de bem”. Leitura altamente recomendada!

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Brooklyn


Resenha
Livro: Brooklyn
Autor: Colm Tóilbín
Ano: 2011
Número de páginas: 304
Editora: Companhia das Letras

Escrito pelo irlandês Colm Tóilbin, Brooklyn possui uma simples premissa: uma jovem mulher irlandesa na década de 50, por não encontrar oportunidades de trabalho na sua cidade natal, acaba se mudando para os Estados Unidos, mais especificamente, Brooklyn. Essa mulher se chama Eillis. Ela havia conseguido um emprego em uma mercearia de sua cidade, porém sua irmã Rose, achava que a Eilis poderia trabalhar em algo melhor, que tivesse a ver com suas qualificações, pois ela havia feito o curso básico de contabilidade. Por isso, Rose combina com um padre amigo, chamado Flood, que mora nos Estados Unidos de levar a jovem para trabalhar na “terra das oportunidades”.
Seguimos com a protagonista na viagem de Cruzeiro pelo Atlântico rumo à América. Conseguimos sentir nessas poucas páginas a agonia de viajar em espaços tão apertados e angustiantes. Chegando na América, Eilis no começo sente muitas saudades de casa, mas aos poucos vai se acostumando ao novo ambiente, morando em uma pensão para senhoras, ajudando o padre Flood na paróquia e estudando à noite, após o trabalho na loja Bartoccis, fazendo um curso longo de contabilidade. Até que ela conhece Tony, um jovem ítalo-americano com quem viverá um romance. Quando ela acreditava que estava se tornando uma cidadã mais americana que irlandesa, um fato em sua terra natal a leva a retornar para lá e ela se vê obrigada a tomar uma decisão.
É importante notar no livro que a protagonista não tem voz e nem vez. Não emite opiniões. Ela é sempre levada pela vontade alheia, seja nas pequenas ações do dia a dia, como a escolha de uma roupa, ou seja em grandes ações que poderiam mudar sua vida. Apesar de estar a um continente de distância, suas duas vidas são bastante similares e até mesmo as pessoas que fazem parte dela encontram correspondentes. Sua mãe na Irlanda pode ser encontrada na senhora Kehoe, a dona da pensão, na América, que vigia toda sua vida e a controla, como sua mãe fazia na terra natal; possui uma chefe , senhora Kelly, na Irlanda, que apenas informa a Eillis que a mesma iria trabalhar para ela na loja, e ela aceita, enquanto nos Estados Unidos, a chefe dá em cima dela e ela fica imóvel, não gosta da situação, mas é incapaz de falar algo para não desagradar; tem uma paquera na Irlanda, chamado Jim e nos Estados Unidos Tony; ate mesmo suas amigas Nancy e Anne encontram correspondentes nas suas colegas de pensão senhorita Mc Adam, Diana e outras.
Não acredito que isso tenha sido falha do autor, pelo contrário: acredito que ele quis nos mostrar o lugar que era reservado às mulheres naquela época. Eram simplesmente seres sem vozes, podadas de emitir suas opiniões por conta da sociedade extremamente machista e patriarcal. Por vezes nos irritamos com a protagonista por se deixar ser tão levada pelas situações, e em outras vezes, temos pena da mesma. Mas é angustiante pensar que ainda em nossos dias, a sociedade não gosta de mulheres que falam, pensem, gritem, protestem. Portanto, temática mais atual do que nunca. Além disso , temos a questão dos imigrantes que chegavam aos Estados Unidos naquela época e ainda o racismo, sempre presente na sociedade americana e naquela época, momento em que os negros e negras estavam tentando adentrar em lugares que lhes eram negados. Isso também é retratado no livro.
Como o próprio autor falou em uma entrevista, o livro trata de um imigrante que é estrangeiro em dois países, inclusive nele mesmo. Ou seja, a protagonista não sabe quem é, vive uma busca incessante de significados, não sabe onde é seu verdadeiro lar, onde estão e quem são seus verdadeiros amores. Acompanhá-la nessa busca pode te fazer conhecer um pouco mais de si mesmo. Recomendo a leitura

domingo, 27 de janeiro de 2019

Sempre vivemos no castelo

Resenha

Livro: Sempre vivemos no castelo
Autora: Shirley Jackson
Número de páginas: 200
Ano da edição: 2017

Shirley Jackson foi uma autora que nasceu na Califórnia, nos Estados Unidos, e morreu precocemente as 47 anos de idade, vítima de problemas de coração. Era uma pessoa ansiosa, que lutava contra o peso, fumante inveterada e desenvolveu agorafobia, medo de sair de casa e encontrar pessoas. Os medicamentos para esses transtornos eram conflitantes entre si e desconfia-se que isso tenha sido um dos motivos de sua morte prematura. Inspirou grandes autores como Stephen King e Neil Gaiman. É autora de seis romances, sendo apenas dois deles traduzidos para português até o momento e inúmeros contos. 

O livro conta com um enredo bastante simples. Narrado em primeira pessoa pela Mary Katherine ou Merricat, como é chamada pela família. Ela vive em sua casa com sua irmã Constance Blackwood e o tio Julian. A família continha sete componentes, mas após um homicídio, ficou reduzida à três pessoas. O assassinato ocorreu pois o açúcar usado pela família foi envenenado com arsênico. Constance sobrevive pois não ingere açúcar, Merricat estava de castigo no quarto e tio Julian uma pouca quantidade, que lhe permitiu sobreviver, mas deixando-o cadeirante e com outros comprometimentos físicos. Na época, por fazer as refeições da família, Constance foi acusada de homicídio, mas, por falta de provas foi inocentada. Nesse meio tempo do julgamento, Merricat ficou em um orfanato e aguardando. 

A partir desse episódio, Merricat de apenas 18 anos e sua irmã de 28 passam a viver isoladas em sua mansão, juntamente com seu tio Julian, sendo felizes naquele refúgio que criaram. Constance desenvolveu agorafobia e não saia de casa, ficando a cargo de Merricat ir ao vilarejo comprar o que era necessário para sobreviver e trocar livros na biblioteca. Quando ela vai ao vilarejo tem que lidar com as "piadas" dos moradores que não acreditam na inocência de Constance em relação ao homicídio. Mas, mesmo antes de tudo isso ocorrer, já percebemos que a família vivia isolada do restante do vilarejo: o pai havia construído cercas em volta da casa com avisos de NÃO ULTRAPASSE, entre outras formas de proteção. Na minha opinião, isso acabou gerando um ressentimento da população em relação à família, por acharem que eles eram "ricos" demais para compartilhar a vida com o restante da população. Quando ocorre o homicídio, a ira contra eles aumenta. Se pensarmos que o livro se passa na década de , fica fácil imaginar a natureza dos insultos e sofrimento a que duas mulheres que vivem com um tio dependente tinham que passar. 

Esse frágil equilíbrio parece ser quebrado com o simples toque de uma campainha: um primo chamado Charles surge para visitar a família. Merricat é a única a perceber as segundas intenções dele com essa chegada inesperada e faz de tudo para expurgá-lo, enterrando coisas no quinta,, pendurando objetos, em rituais meio macabros. 

O interessante a pontuar no livro é a maestria com que a personalidade das personagens é construída. Constance é uma mulher doce, apesar de visivelmente transtornada com tudo que aconteceu. Dá sinais de que a qualquer momento vai conseguir sair de casa e enfrentar seus medos. Merricat se vê apavorada com essa possibilidade. Se a personagem não dissesse que tem 18 anos isso nunca poderia ser adivinhado, pois ela te comportamento infantil e visivelmente tem condição mental diferenciada. Ela parece ser um tanto quanto obcecada pela sua irmã e pela rotina que criaram, e faz de tudo para que isso se mantenha. Dona de pensamentos paranoicos e por vezes maldosos, que ela assume sem remorsos, como imaginar estar andando pelos cadáveres das pessoas do povoado ou pensar no tamanho dacova que seria suficiente para enterrar seu primo. Tio Julian é responsável por momentos de risadas ao longo da trama. Merricat Parece viver em um mundo encantado e de fantasias, que ela criou e se refugia, fazendo questão de não deixar a irmã também escapar desse local.

A narrativa é fluida e muito mais que um romance policial, na minha opinião, o mais importante é tentar desvendar o que existe na cabeça das personagens. A autora não nos dá nada de mão beijada, ficando a cargo do leitor tirar as próprias conclusões acerca dos fato que vão sendo apresentados. Vale muito a pena a leitura e posterior análise cuidados, pois à primeira vista pode parecer um romance simplista e sem muitas questões a desvendar, mas que esconde uma riqueza inigualável. Recomendo a leitura!

2001- Uma odisseia no espaço

                                                               Resenha   Livro: 2001- Uma odisseia no espaço   Autor: Arthur ...