domingo, 23 de setembro de 2018

O conto da Aia


Resenha
Livro: O conto da Aia
Autora: Margaret Atwood
Ano de lançamento: 1985
Número de páginas: 366

Margaret Atwood é uma escritora canadense de 78 anos que já escreveu romances, ensaios, poesias, contos e histórias em quadrinho. Ganhadora de vários prêmios internacionais, e está na calçada da fama do Canadá, em Toronto.
O livro O conto da Aia, de nome original The Handmand’s Tale, foi adaptado para o cinema na década de 90 e ganhou uma adaptação mais recente na forma de série de tv, produzida pela Hulu, streaming que não chegou ao Brasil ainda, concorrente da Netflix. É exibida no Brasil pela Paramount. Já tem duas temporadas e a terceira está confirmada.

A obra fala sobre um futuro distópico, onde o presidente dos Estados Unidos sofre um golpe por parte de um grupo religioso fazendo com que o país se torne uma teocracia, baseando suas leis na bíblia, passando a se chamar Gilead.

Nesse novo país, as mulheres não têm direito à nada: nome próprio, ler, escrever, trabalhar, sair de casa. Por conta de desastres ambientais, a maior parte das mulheres não consegue ter filhos. São divididas em castas: as tias (responsáveis por educarem as futuras reprodutoras da nação); as esposas, que se vestem de azul e por não conseguirem cumprir com seu papel na sociedade, são obrigadas a tolerar a presença de uma aia em sua casa; as Marthas, que se vestem de verde, uma espécie de governanta da casa dos oficiais; e finalmente as Aias. As Aias, que se vestem de vermelho, são mulheres que ainda são férteis e utilizadas como receptáculos, meros úteros de duas pernas, para ter filhos para os comandantes. Os comandantes são o que conhecemos hoje como governadores, prefeitos etc.

A história é narrada por Offred. Reparem no nome: Of (significa “de”) mais o nome a quem essas mulheres pertenciam. A Offred pertencia ao comandante Fred. As mulheres não possuíam mais seu nome passado, destituídas do que nos diferencia, elas são simplesmente úteros, cuja função é a reprodução. Quando uma mulher muda de casa, outra se torna Offred e assim por diante.

Todo mês no período fértil as Aias são estupradas pelos comandantes, num ritual bizarro. A esposa participa desse ritual. Confesso que as descrições desse processo me deixaram nauseadas.

Offred ainda consegue se lembrar de como era antes desse regime teocrático se instalar. Ela tinha uma família, uma filha e um marido e acaba sendo separada de todos que ama. Mas ela possui algo que ninguém consegue remover: a sua memória, suas lembranças. É através do seu pensamento que a protagonista consegue se manter viva, como um traço de realidade no bálsamo de tristeza, irracionalidade, que a cerca. Isso que a faz manter-se viva e ao mesmo tempo, acaba gerando angústia, pois ela se recorda como era ser mulher naquela sociedade. Necessitamos permanecer vigilantes aos nossos direitos, sempre, pois de uma hora para outra, eles podem ser retirados.
A justificativa que se dá para o cerceamento das mulheres é bíblica e cercada de protecionismo. Os homens dizem estar protegendo as mulheres de toda aquela liberdade que havia sido conquistada e mal utilizada.

Aliás, o livro como um todo me deixou enojada. Por se tratar de uma ficção, uma distopia, carrega um quê de profecia. Como não traçar paralelos com a realidade em que vivemos? Algum dia não fomos tratadas como meros receptáculos pelo Estado? Acompanhamos a discussão sobre descriminalização do aborto recentemente. Até mesmo nos casos em que há garantia de aborto legalizado no Brasil, a mulher encontra dificuldades para consegui fazê-lo. No outro extremo, observamos a proposta de esterilização compulsória das mulheres mais pobres, negando-as o direito de planejar suas vidas, construir suas famílias. Em que momento da história recente tivemos nossos plenos direitos garantidos? A nossa sociedade é machista e por isso, nós, mulheres, somos vistas como meros objetos criados para a satisfação do homem.

É um livro amargo, difícil de digerir, impossível esquecer. Acredito que essa seja uma das funções da literatura: incomodar, tocar na ferida, machucar. Por vezes, precisei parar para respirar ao ler algumas passagens do livro. Mas, não podemos perder a esperança de que, em algum dia, consigamos construir uma sociedade mais justa e mais igualitária para todas e todos. Por isso, fecho a resenha com esse trecho abaixo:


“Sigo adiante esta história triste e faminta e sórdida, esta história trôpega e mutilada, porque afinal, quero que você a ouça... Pelo fato de estar lhe contando alguma coisa, estou pelo menos acreditando em você... Por que estou contando está história para você, desejando sua existência, logo você existe.”

domingo, 9 de setembro de 2018

Lituma nos Andes


Resenha
Livro: Lituma nos Andes
Autor: Mario Vargas Llosa
Ano de lançamento: 1993
Número de páginas: 272

Mario Vargas Llosa é conhecido por não ter papas na língua e falar o que pensa. Suas falas são sempre polêmicas e confesso que esse foi o motivo pelo qual eu atrasava a leitura dos seus livros. Foi ganhador do prêmio Nobel de literatura em 2010. Concorreu à presidência no Peru nos anos 90, tendo sido derrotado por Fujimori. É no meio dessa efervescência política que Llosa publica Lituma nos Andes.

O livro fala sobre dois policiais que foram levados à Nacco, cidade situada na altitude Andina, que só conseguia sustentar sua existência graças à construção de uma estrada que atravessaria os Andes. Os funcionários da lei foram chamados pois três pessoas desapareceram, não tendo sido achados seus corpos. Eles foram para os Andes investigar essas mortes.

Acompanhamos a investigação sob o ponto de vista , na maior parte das vezes, de Lituma. Lituma é um cidadão de Piura, cidade urbanizada e é sob essa ótica que ele analisa a vida cotidiana dos moradores da montanha, chamados de serranos. Ele é um personagem preconceituoso em relação à população local, tratando-os como atrasados, movidos pelo mistiscismo, violentos, enquanto exalta a civilidade e urbanidade de quem vive na costa. Já é de se imaginar que o personagem que dá nome ao livro não desperte muita simpatia nos moradores, em sua maior parte indígenas, que tratam o investigador com desconfiança.

Tomas é um cabo de polícia, braço direito de Lituma. Tomasito e Lituma passam as noites conversando sobre o amor perdido do cabo, Mercedes. Essas passagens são responsáveis pelos respiros de amor, tão necessários em meio ao caos violento do cotidiano diário das montanhas, relatado por Lituma. São diálogos repletos de lirismo por parte de Tomas, que nunca superou a perda de seu amor, mantendo esperança de um dia reencontrá-la.

Também é muito presente no livro o grupo Sendero Luminoso, que teve origem em um movimento criado por intelectuais de orientação marxista, que foi responsável por alguns ataques na década de 70 e 80 no Peru. No livro, esse grupo acaba sendo demonizado, retratando os indivíduos pertencentes ao movimento como animalizados, cegos. Não sei até que ponto isso corresponde à verdade. Não me aprofundei no tema de maneira a contrapor ou corroborar com essa visão.

São retratadas no livro as crenças dos indígenas das montanhas. É muito rico sob o ponto de vista cultural, nos fazendo viajar através do mundo dos pishtacos, apus, entre outras figuras míticas das montanhas. A descrição dos Andes é riquíssima, levando o leitor a sentir que estava realmente inserido no cenário em questão.

Quanto ao ritmo de escrita, o autor mistura temporalidades sem divisão gráfica, o que pode parecer um pouco confuso à primeira vista, mas que traz certa dinâmica ao texto, sendo fácil se acostumar ao ritmo peculiar de escrita após algumas páginas lidas.

O ponto principal que o livro, em minha opinião, traz à discussão é a dicotomia entre civilização e barbárie. Onde começa nossa humanidade? Até onde somos capazes de ir para nos salvar? O que nos separa dos bárbaros? Essa divisão fica evidente na separação entre costeiros(os humanos, civilizados) e os serranos (atrasados, não humanos, bárbaros). Essa visão será desconstruída ao longo do livro, pois todos nós temos humanidade e barbárie em nosso coração. A maior parte das pessoas não é ruim ou boa cem por cento do tempo. Esse entrecruzamento será responsável por uma das grandes sacadas do livro.

Quanto ao final, assim como outros escritores latino-americanos, que faziam parte do boom latino americano, Llosa nos presenteia com um desfecho digno de realismo mágico. A construção da história se dá todo do ponto de vista da racionalidade, para ser contrariada ao final. Não posso detalhar mais, com risco de conter spoilers. Recomendo fortemente a leitura desse livro, pois o autor consegue transformar uma simples história policial em um delicioso romance. Boas leituras!

domingo, 26 de agosto de 2018

Guantánamo Boy


Resenha
Livro: Guantánamo Boy
Autora: Anna Perera
Ano de lançamento: 2009
Número de páginas: 309

Khalid Ahmed é um típico garoto inglês de 15 anos: vai para escola estudar, sai com amigos, paquera meninas, gosta de futebol e não se liga muito em assuntos de política. Adora mexer no computador, conversar, principalmente com seu primo Tariq, que vive no Paquistão. Apenas por um fato ele se diferencia do resto dos meninos do seu país: ele é muçulmano, com mãe turca e pai paquistanês. Depois do 11 de setembro, começa a sentir na pele a paranoia que se instalou contra o terrorismo no Ocidente. Muitas pessoas passavam na rua olhando para ele, com ojeriza, medo. Seu pai vivia dizendo: são tempos difíceis para os muçulmanos. Mas Khalid, como adolescente, acaba não dando muita importância à essas questões.

No feriado de Páscoa, Khalid viaja com a família para o Paquistão, para visitar seus parentes, por ocasião da morte da sua avó. No Paquistão, Khalid é sequestrado, pois é confundido com um terrorista da Al-Qaeda. A partir desse momento, é levado para uma prisão, onde é interrogado e torturado, sendo transferido posteriormente para Guantánamo, prisão americana que fica em Cuba.

É importante frisar que Khalid tinha apenas 15 anos na ocasião de sua prisão. Não cometeu nenhum crime, apenas era um garoto muçulmano que vivia no Ocidente. Podemos sentir na pele a angústia vivida por Khalid, consegui sentir a dor das torturas, da injustiça. Ainda um menino, sendo tratado de maneira desumana e injusta.
Podemos relacionar o assunto do livro com casos de xenofobia, que todos os dias enche os noticiários. Imigrantes sofrem preconceito e violência nos países que moram. É importante também reparar o emprego do pai e da mãe de Khalid. O pai trabalha há anos como ajudante de cozinha, ganhando pouco e a mãe é secretaria. Os dois, apesar de residirem há anos na Inglaterra, não conseguem ter acesso à empregos que ganhem um pouco mais. Na minha visão, por serem imigrantes.

O livro é ficcional, mas poderia facilmente ser confundido como baseado em fatos, visto a verossimilhança transmitida através do tema, super atual, e da descrição contundente de todo o ambiente. Os personagens são muito bem trabalhados e desenvolvidos. O enredo te envolve e a escrita da autora é fluida, apesar do tema pesado. Indico a leitura.


sábado, 18 de agosto de 2018

O sol na cabeça


Resenha
Livro: O sol na cabeça
Autor: Geovani Martins
Ano de lançamento: 2018
Número de páginas: 119

Geovani Martins é um escritor brasileiro de apenas 26 anos, nascido em Bangu, já morou na Rocinha e atualmente vive no Vidigal. Já trabalhou em diversos ofícios, como atendente de lanchonete, garçom em bufê infantil, barraca de praia e “homem-placa”. Participou da Festa Literária das Periferias, a Flup, teve alguns de seus contos publicados na revista setor X e foi convidado para a programação paralela da Flip. Por que eu fiz toda essa apresentação inicial do autor? Por que o fato de ser quem ele é- pobre, negro, morador de favela- é certamente a inspiração para os treze contos que compõem o livro.

O livro O sol na cabeça já teve seus direitos vendidos para virar filme e já foi comercializado para nove países diferentes. O que o torna tão especial? É um livro que possui treze contos, todos diferentes e sem ligação entre si, mas que giram em torno de uma temática principal: a vida nas periferias.

A obra impressiona pelo realismo e pela presença de muitas vozes. Nos contos onde o narrador é personagem, a linguagem é característica da juventude periférica, com gírias, muitas vezes locais, com traços de oralidade. Isso impressiona, parece que estamos escutando uma pessoa contar, tamanho o grau de realidade que esse tipo de escrita confere. Já nos contos onde o narrador é observador, a linguagem já é a da gramática normativa. Isso confere um extremo realismo aos contos, pois parecem que foram escritos por pessoas realmente diferentes, e você passa a acreditar naquelas histórias.

Percebam que usei as palavras realismo e realidade, por que é basicamente disso que os contos tratam.  A realidade da vida nas periferias brasileiras, mais especificamente no Rio de Janeiro. Mas ao invés daquela visão que muitos, que não vivem a realidade de uma favela tem, estereotipada, conseguimos enxergar as cores, sons, e beleza na vida daquelas pessoas que são tão maltratadas pelo Estado, seja pelas mãos da polícia , dos bandidos ou pela ausência de políticas públicas.
O trecho abaixo é apenas um dos inúmeros que evidenciam a desigualdade presente no Rio de Janeiro:

“ Era tão bom tudo aquilo, que queria continuar trabalhando pra sempre, pensava isso enquanto estava em casa; mas, quando chegava nos condomínios, pegava o cano que usava pra recolher as bolinhas de tênis, pisava na quadra, sentia o sol esquentando na minha cabeça, a obrigação de servir gente que nem olhava na minha cara, nessas horas eu queria nunca mais depender de ninguém nessa vida.

O Brasil é um país que foi formado e carrega até hoje traços de seu passado colonial, com tradições escravocratas, onde o negro era e ainda é tratado como não gente, pela elite e, muitas vezes, pela classe média. Isso fica bem explicitado na obra, com o medo no olhar da classe média quando um menino negro passa, o desprezo e o nojo dirigidos aos moradores da periferia, os não gente.

Também podemos observar a poesia do cotidiano, em vários contos, pois na pobreza e na periferia não existe somente tristeza, existem vários momentos de alegria. No conto da velhinha candomblecista, pude sentir o aconchego daquele centro espírita, o carinho das crianças para com ela.

Um ponto muito importante a ser observado, que reflete a realidade das periferias: quase nenhum personagem tem pai, é a mãe que cria. O pai fugiu, foi embora, ou quando muito, anda sempre bêbado. Isso encontra eco na realidade, pois a maior parte das famílias das classes mais baixa é chefiada por mulheres. A resistência, a força e fibra dessas mulheres fica homenageada nessa obra.

Minha primeira experiência com a leitura de um livro completo de literatura marginal e só tenho elogios à obra. Meu conselho é que fiquemos de olho no que mais o Geovani irá produzir, pois o autor promete, visto esse livro ser o seu de estreia. Recomendo muito a leitura do livro por todos os motivos que foram falados. A leitura nos faz conhecer realidades que não são nossas e nos faz praticar empatia. Acho que essa é uma das maiores contribuições da literatura: a prática desse sentimento tão importante nos dias atuais. Boa leitura!

“Tive que ouvir que tava errado por falar pro ceis
Que seu povo me lembra Hitler
Carregam tradições escravocratas
E não aguentam ver um preto líder”
Música Junho de 94, Djonga

domingo, 5 de agosto de 2018

Todo dia


Resenha
Livro: Todo Dia
Autor: David Levithan
Ano de lançamento: 2012
Número de páginas: 280

Todos os dias , A acorda em um corpo diferente. Tem 16 anos e toda sua vida foi assim. Uns dias acorda no corpo de meninas que gostam de meninos, outros no corpo de meninas que gostam de meninas, meninos que gostam de meninos , no corpo de pessoas brancas, negras, pobres, ricas, enfim, a única certeza é que a pessoa terá a mesma idade de A. Quando A era pequeno, já havia percebido que tinha famílias diferentes a cada dia, mas achava que isso fosse o normal para todos. Conforme foi crescendo, foi começando a entender sua condição.

Imagine não possuir corpo, somente uma essência? Não possuir gênero, família, amigos? Assim vive A. Não se importa muito com a situação. Já desistiu de tentar entendê-la. Vive conforme suas regras: tentar não se apegar e tentar não interferir tanto na vida da pessoa que o abriga, afinal, ele é apenas um hospedeiro por 24 horas. Mas tudo isso muda quando ele ocupa o corpo de um garoto chamado Justin e se apaixona por sua namorada, Rhiannon. A partir desse momento, A muda suas regras e passa a querer viver o amor ao lado dessa menina por quem está apaixonada (o).

A premissa do livro por si só já chama atenção, pois é muito diferente de tudo que estamos acostumados a ler. Acredito que a principal mensagem do livro seja sobre empatia. Será que somos capazes de amar alguém que muda de corpo todos os dias? Afinal, amamos corpos ou essências? Você continuaria a amar seu marido, esposa, namorada(o) se isso ocorresse? É interessante colocar esse debate em questão. 

Podemos estendê-lo para discutir identidade de gênero e orientação sexual. Identidade de gênero é como você se identifica no mundo, de acordo com os papeis de gênero estabelecidos na sociedade que você vive. Homem, mulher, não binário. Já orientação sexual diz respeito à quem você se atrai, por quem você sente carinho.  A diferença entre esses dois conceitos fica bem exemplificada nas situações do livro.

A já acordou no corpo de pessoas suicidas, drogadas. Uma diversidade enorme de vidas. Os adolescentes que lerem o livro vão se identificar, provavelmente, com algumas das situações vividas pelo(a) protagonista. Afinal, são fatos que fazem parte da vida da maior parte das pessoas de 16 anos. Nisso, o livro cumpre um papel crucial: de fazer o leitor se colocar no lugar das pessoas, praticando a identificação emocional com o outro, que não é você. O autor trabalha esses problemas cotidianos de maneira não sensacionalista e panfletária, a meu ver, uma abordagem correta dos temas. O sentimento juvenil de não se encaixar em lugar nenhum, de não se sentir completo, de construção de identidade, é bem representado pelas várias vidas do personagem.

Rhiannon e A irão viver um romance intenso e arrebatador. Mas será que Rhiannon consegue amar além da capa, além da casca do corpo? Ela é uma personagem nada maniqueísta, possui muitas camadas e é dotada de realidade, pois somos seres humanos, passíveis de erros e contradições. Mais um ponto positivo para o romance.

Por tudo que foi explicitado acima, recomendo fortemente a leitura do romance. É relativamente curto, perfeito para jovens adultos e adolescentes, especialmente esses últimos, que estão em constante processo de construção de identidades. Aliás, quem não está se construindo e reconstruindo o tempo inteiro? Livro gostoso de ler, fluido, dinâmico, e que nos faz refletir sobre questões sérias e urgentes, de maneira leve. Acredito que a mensagem principal, dentre tantas outras, seja: pratiquemos empatia! Só ela nos salva! Deixo vocês com uma citação que achei extremamente marcante.


“Não sei como isso funciona, nem o porquê. Parei de tentar entender há muito tempo. Nunca vou compreender, não mais do que qualquer pessoa normal entenderá a própria existência. Depois de algum tempo é preciso aceitar o fato de que você simplesmente existe. ”

domingo, 22 de julho de 2018

O fim do homem soviético


Resenha
Livro: O fim do homem soviético
Autora: Svetlana Aleksiévitch
Ano de lançamento: 2013

Não costumo fazer resenhas de livros que não sejam literários. Gosto bastante de ler livros reportagem, feitos por jornalistas. Apesar de não ser costume resenhá-los, essa presente obra se torna a primeira exceção nessa minha regra.

O livro traz entrevistas organizadas pela autora feitas do ano de 1991 até 2012. Ela divide o livro em duas partes. Uma vai de 1991 até 2001 e a segunda parte de 2001 até 2012. São colhidos relatos de pessoas comuns, que viveram nos tempos da União Soviética e como o fim dela afetou suas trajetórias. Imagine passar toda a sua vida vivendo numa nação e, de um dia para o outro, essa nação não existir mais? Essa é a essência do livro.

A autora consegue capturar essa sensação de desolamento vivida pelas pessoas. A maior parte delas que viveram sob o antigo regime, tem saudades daquela época. Eles relatam que para a pessoa simples, a vida era boa. Todos tinham direito à educação, saúde, coisas essenciais eram gratuitas. Podemos acompanhar o relato de pessoas que foram presas na época de Stalin e, mesmo essas pessoas, lembram com saudade do passado.

Em 1991 chega a tão anunciada “liberdade”, com a perestroika e glasnot. Mas na visão das pessoas entrevistadas, não houve liberdade. A não ser aquela liberdade capitalista, de consumir o que você quiser, desde que tenha o dinheiro disponível. Mais do que o fim de uma era, de um regime, essa abertura marca o fim do homo sovieticus.

É muito interessante observar a diferença dos depoimentos de filhos e pais/avós. Enquanto os mais velhos se interessam muito por leitura, pois na URSS todos tinham direito à educação, todos liam, desde a mais tenra infância. Já os mais novos têm seus deuses na música, no glamour, não se interessam muito por leitura como seus antepassados. Muda-se a lógica de vida. Antes, era necessária pouca coisa material para ser feliz. Hoje, é necessário ter muito dinheiro para conseguir chegar às suas aspirações, ser se torna ter.

As passagens que nos contam como a cozinha era importante para a família da URSS são lindíssimas, dotadas de poesia do cotidiano. Era nesse cômodo familiar que havia as conversas proibidas nos outros locais da casa, era lá que criticavam o regime, riam, comiam.

Além de todo o lirismo que consegue ser extraído desses relatos de pessoas comuns, há também muita tristeza e violência. Nas passagens das pessoas que foram presas, passaram anos em campos de trabalho forçado, tendo sido denunciados muitas vezes por um vizinho, um amigo. Se você fosse denunciado naquela época, fazendo qualquer coisa contrária ao regime, era prisão na certa.

Podemos sentir também como a atual Rússia é cruel, tanto com os russos mais simples quanto para os imigrantes. Pessoas com nível superior, como engenheiros, contadores, professores, trabalhando como taxistas, vendedores. Isso tudo é muito perverso. Além do fato da Rússia em sua superfície esbanjar opulência, enquanto em seu subsolo legitima espancamento de imigrantes, homossexuais, mulheres.

Acredito que esse livro deva ser lido em qualquer contexto histórico, pois a autora consegue trazer a individualidade das histórias esquecidas pelos livros de histórias ao mesmo tempo que unifica esses relatos em torno de características comuns. Dá voz aos esquecidos. Uma obra belíssima, onde a realidade se torna poesia.   Quando ouvimos o outro, estamos praticando empatia. Sentimento tão necessário atualmente.

domingo, 15 de julho de 2018

A hora da estrela


Resenha
Livro: A hora da estrela
Autora: Clarice Lispector
Ano de lançamento: 1977

“O que é mais do que invenção, é minha obrigação contar sobre essa moça entre milhares delas. É dever meu, nem que seja de pouca arte, o de revelar-lhe a vida. Por que há o direito ao grito. Então eu grito.”

Começo minha resenha desse clássico da literatura brasileira. Todos deveríamos ter direito ao grito, à fala. Mas , infelizmente, em nossa sociedade, só tem voz e vez uma determinada parcela da população. Por que estou falando sobre isso? Por que é exatamente em torno disso que grande parte da história irá girar.

Clarice Lispector foi uma escritora e jornalista nascida na Ucrânia e naturalizada no Brasil. Dizia que era pernambucana. É considerada como uma das maiores escritoras brasileiras do século XX e a mais importante escritora judia desde Kafka. Por conta da perseguição que havia em sua terra natal aos judeus naquela época, mudou-se com sua família para o Brasil.

A hora da estrela trata de vários temas complexos, de maneira fluida. O livro começa com um narrador, chamada Rodrigo S. M, que é o alter ego de Clarice, narrando a história de Macabéa, uma nordestina que vivia no rio, por ocasião da perda da sua única parente viva.

O narrador utiliza muita metalinguagem, ou seja, usa a língua portuguesa, um livro, para falar sobre o ato de escrever um livro. Essas passagens nas quais são feitas essas reflexões são extremamente apaixonantes. O(a) autor(a) consegue nos transmitir a angustia que é passar para o papel uma determinada história. Rodrigo diz que gosta de fatos, que, assim como João Cabral de Mello Neto, trataria a palavra como pedra, por que os fatos existem. Se compromete a fazer uma narrativa simples. O que acaba não ocorrendo. Repleto de metáforas e reflexões acerca da vida e do fazer literário, o livro inteiro é uma obra prima. É interessante como tem uma passagem em que ele fala que outro escritor também poderia fazer o trabalho dela. Mas, com a prerrogativa de ser homem, visto que mulheres são muito piegas. O que é curioso e acredito ter sido uma provocação da escritora. Quando o escritor falar sobre fatos simples, já está falando sobre o ponto de vista dele, portanto, sendo subjetivo, nunca pedra somente. Para mim, serve para mostrar que, por mais que a realidade possa parecer simples na superfície, ela é complexa. Assim como Macabéa. Vamos à sua história.

Macabéa era uma moça nordestina, que foi viver no Rio. Criada pela tia, não conheceu o amor, a amizade, o carinho. Sua tia não a tratava bem, e vivia colocando-a de castigo. Desde sua infância, sempre foi sozinha. Com a morte da sua única família, foi trabalhar no rio. Possuindo curso de datilografia, acaba trabalhando nessa profissão, ganhando menos de um salário mínimo. Sonha com o dia que irá ter dinheiro para comprar coca cola e ir ao cinema. Mora num apartamento com outras quatro Marias. Mas, mesmo a casa sendo cheia, se sente só. Sua única companhia é um rádio, onde ouve diariamente sua estação preferida.

Um dia, decide faltar ao trabalho e acaba conhecendo Olimpio, um homem nordestino que se tornou seu namorado. Nunca tendo conhecido nenhum tipo de afeto, se apaixona por ele, mesmo esse homem nunca tendo tratado-a de maneira digna. Sempre maltratava a Macabéa, que, iludida, achava que iria um dia ser a esposa dele e constituir família. Até o momento que Olimpio trai ela com a colega de trabalho da mesma, Glória. Ela fica desolada e , ouvindo conselhos da própria Glória, vai visitar uma cartomante, que lhe conta o desfecho de sua vida.

Como sabemos de todos esses pensamentos? Não é através da própria protagonista. Ela não possui falar, ou tem mínimas, ao redor do livro inteiro. É o autor Rodrigo que acaba transformando toda a história , que ele pretendia ser narração perfeita de fatos pedra, em uma linda história literária, e( por que não? ) inventa.

A protagonista é extremamente calada, mostrando, através de sua dificuldade com as palavras, a dificuldade que tem em viver. Não se reconhece como um prego substituível. Somente recebe toda a dor e sofrimento da vida, sem nunca lutar. Mas o que esperar de uma mulher que nunca conheceu o afeto verdadeiro? Que teve que migrar de seu local de origem para uma terra desconhecida? Uma imigrante nordestina, como tantos outros que vemos, não é enxergada pela sociedade. Quando é, é estereotipada. Clarice (Rodrigo) consegue aqui complexificar o pobre. Desmistificando o estereotipo de personagens pobres sendo simples. Macabéa, apesar de não se expressar em palavras, é complexa. A capital Rio de Janeiro invisibiliza os nordestinos. Podemos sentir ao longo de toda a narrativa o desamparo, a solidão, a tristeza de quem nunca foi ouvido, nunca foi visto.  Podemos perceber essa desamparo através do seguinte trecho:

“Limito-me a contar as fracas aventuras de uma moça numa cidade toda feita contra ela.”

Narrativa complexa, extraordinária. Nunca tinha lido essa autora, mas com a leitura desse clássico, já fui buscar outros livros da mesma. Joia rara, preciosidade da literatura brasileira. Quando chegará a hora de sermos estrela?

2001- Uma odisseia no espaço

                                                               Resenha   Livro: 2001- Uma odisseia no espaço   Autor: Arthur ...