domingo, 15 de julho de 2018

A hora da estrela


Resenha
Livro: A hora da estrela
Autora: Clarice Lispector
Ano de lançamento: 1977

“O que é mais do que invenção, é minha obrigação contar sobre essa moça entre milhares delas. É dever meu, nem que seja de pouca arte, o de revelar-lhe a vida. Por que há o direito ao grito. Então eu grito.”

Começo minha resenha desse clássico da literatura brasileira. Todos deveríamos ter direito ao grito, à fala. Mas , infelizmente, em nossa sociedade, só tem voz e vez uma determinada parcela da população. Por que estou falando sobre isso? Por que é exatamente em torno disso que grande parte da história irá girar.

Clarice Lispector foi uma escritora e jornalista nascida na Ucrânia e naturalizada no Brasil. Dizia que era pernambucana. É considerada como uma das maiores escritoras brasileiras do século XX e a mais importante escritora judia desde Kafka. Por conta da perseguição que havia em sua terra natal aos judeus naquela época, mudou-se com sua família para o Brasil.

A hora da estrela trata de vários temas complexos, de maneira fluida. O livro começa com um narrador, chamada Rodrigo S. M, que é o alter ego de Clarice, narrando a história de Macabéa, uma nordestina que vivia no rio, por ocasião da perda da sua única parente viva.

O narrador utiliza muita metalinguagem, ou seja, usa a língua portuguesa, um livro, para falar sobre o ato de escrever um livro. Essas passagens nas quais são feitas essas reflexões são extremamente apaixonantes. O(a) autor(a) consegue nos transmitir a angustia que é passar para o papel uma determinada história. Rodrigo diz que gosta de fatos, que, assim como João Cabral de Mello Neto, trataria a palavra como pedra, por que os fatos existem. Se compromete a fazer uma narrativa simples. O que acaba não ocorrendo. Repleto de metáforas e reflexões acerca da vida e do fazer literário, o livro inteiro é uma obra prima. É interessante como tem uma passagem em que ele fala que outro escritor também poderia fazer o trabalho dela. Mas, com a prerrogativa de ser homem, visto que mulheres são muito piegas. O que é curioso e acredito ter sido uma provocação da escritora. Quando o escritor falar sobre fatos simples, já está falando sobre o ponto de vista dele, portanto, sendo subjetivo, nunca pedra somente. Para mim, serve para mostrar que, por mais que a realidade possa parecer simples na superfície, ela é complexa. Assim como Macabéa. Vamos à sua história.

Macabéa era uma moça nordestina, que foi viver no Rio. Criada pela tia, não conheceu o amor, a amizade, o carinho. Sua tia não a tratava bem, e vivia colocando-a de castigo. Desde sua infância, sempre foi sozinha. Com a morte da sua única família, foi trabalhar no rio. Possuindo curso de datilografia, acaba trabalhando nessa profissão, ganhando menos de um salário mínimo. Sonha com o dia que irá ter dinheiro para comprar coca cola e ir ao cinema. Mora num apartamento com outras quatro Marias. Mas, mesmo a casa sendo cheia, se sente só. Sua única companhia é um rádio, onde ouve diariamente sua estação preferida.

Um dia, decide faltar ao trabalho e acaba conhecendo Olimpio, um homem nordestino que se tornou seu namorado. Nunca tendo conhecido nenhum tipo de afeto, se apaixona por ele, mesmo esse homem nunca tendo tratado-a de maneira digna. Sempre maltratava a Macabéa, que, iludida, achava que iria um dia ser a esposa dele e constituir família. Até o momento que Olimpio trai ela com a colega de trabalho da mesma, Glória. Ela fica desolada e , ouvindo conselhos da própria Glória, vai visitar uma cartomante, que lhe conta o desfecho de sua vida.

Como sabemos de todos esses pensamentos? Não é através da própria protagonista. Ela não possui falar, ou tem mínimas, ao redor do livro inteiro. É o autor Rodrigo que acaba transformando toda a história , que ele pretendia ser narração perfeita de fatos pedra, em uma linda história literária, e( por que não? ) inventa.

A protagonista é extremamente calada, mostrando, através de sua dificuldade com as palavras, a dificuldade que tem em viver. Não se reconhece como um prego substituível. Somente recebe toda a dor e sofrimento da vida, sem nunca lutar. Mas o que esperar de uma mulher que nunca conheceu o afeto verdadeiro? Que teve que migrar de seu local de origem para uma terra desconhecida? Uma imigrante nordestina, como tantos outros que vemos, não é enxergada pela sociedade. Quando é, é estereotipada. Clarice (Rodrigo) consegue aqui complexificar o pobre. Desmistificando o estereotipo de personagens pobres sendo simples. Macabéa, apesar de não se expressar em palavras, é complexa. A capital Rio de Janeiro invisibiliza os nordestinos. Podemos sentir ao longo de toda a narrativa o desamparo, a solidão, a tristeza de quem nunca foi ouvido, nunca foi visto.  Podemos perceber essa desamparo através do seguinte trecho:

“Limito-me a contar as fracas aventuras de uma moça numa cidade toda feita contra ela.”

Narrativa complexa, extraordinária. Nunca tinha lido essa autora, mas com a leitura desse clássico, já fui buscar outros livros da mesma. Joia rara, preciosidade da literatura brasileira. Quando chegará a hora de sermos estrela?

domingo, 8 de julho de 2018

A Majestade do Xingu


Resenha
Livro: A Majestade do Xingu
Autor: Moacyr Scliar
Ano de lançamento: 1997

Moacyr Scliar nasceu em 1937, em Porto Alegre. Judeu, sua família veio da Rússia, da região de Bessarábia,  tentar a sorte no Brasil. Além de escritor de romances, contos, historias infanto-juvenis, Moacyr também foi um médico sanitarista e professor da Universidade de Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre. Sabendo de toda a sua história, é impossível não traçar paralelos com a obra que está sendo resenhada.

A Majestade do Xingu conta a história de imigrantes russos, assim como a família de  Moacyr, que saem de seu país de origem para tentar possuir uma vida melhor nas Américas. No livro, é relatado como as Pogroms, agressões que aconteciam contra as populações judias na Rússia, contribuiu para as emigrações. O narrador, que não tem nome, conta a história de como conheceu seu grande amigo,Noel Nutels. Ele nos relata que conheceu esse homem ainda criança, os dois, a bordo do navio Madeira, embarcação que os trouxe às Américas. O narrador se apaixona pelo jeito do Noel, despojado, simpático, que conquista a todos. Porém, ao chegar no Brasil, Noel perde seu interesse pelo amigo em função das milhares de novidades existentes no Brasil.

As famílias se separam. A família do Noel se estabelece em Laje do Canhoto enquanto a família do narrador se estabelece em São Paulo, no Bom Retiro. O livro começa com o narrador em um hospital relatando ao médico que cuida dele a história de Noel Nutels. Noel se tornou um famoso médico sanitarista. Essa área da medicina enxerga uma comunidade como um organismo. Não individualizam , o paciente deles é a coletividade. Acredito que um dos motivos pelos quais Moacyr escolheu falar de Noel é por ele mesmo ter sido médico sanitarista. Enfim, Noel se envolveu na luta indígena. Foi viver no Xingu, com sua companheira, e cuidar dos indígenas.

O narrador, em contrapartida, viveu sua vida em função daquele amigo de infância. Ele inventa toda uma vida e situações relacionadas ao Noel, para quebrar o tédio e a monotonia de sua própria vida. Não pode realizar o sonho de seu pai em se formar em medicina, pois o pai morreu cedo, tendo ele ficado responsável pelo sustento da casa, tendo sido obrigado a largar a escola.

É interessante notar o sentido desse tipo de enredo: assim como a história de Noel existe por que alguém conta e um outro escuta, assim são nossas histórias. É necessário relatá-las para tomarem corpo e realidade.

Adoro o estilo de escrita do Moacyr. É o terceiro livro dele que leio e só me apaixono mais. O autor possui uma escrita leve, acessível à maior parte da população. Todos os livros que li dele possuem temática social presente, assim como são romances que descrevem, mesclando ficção e realidade, algum período da história.

Nesse livro não é diferente. Podemos observar a história dos indígenas sendo contada, os primeiros habitantes do Brasil. Conseguimos saber mais sobre a historia dos imigrantes judeus russos e suas motivações na época para essa emigração. Além de, tema sempre presente em suas obras, o comunismo e socialismo estão retratados, não de maneira romântica, mas de maneira crítica.

Esse livro me fez pensar em como os indígenas tem seus direitos desrespeitados desde o momento que os portugueses aqui chegaram até os dias de hoje. A sociedade não entende o modo de vida deles, taxando-os de vagabundos e que não gostam de trabalhar, por possuírem um ritmo de vida que difere do capitalismo vigente.

Gostei bastante da leitura. É um livro curto, dinâmico , mas que merece ser lido. Repleto de metáforas, de fácil entendimento e relatando um pouco da história do Brasil ou histórias dos Brasis, é interessante para suscitar discussões. Fica o questionamento, ao final: quem seria a Majestade do Xingu? O que isso representa? Até a próxima leitura.

domingo, 1 de julho de 2018

Jubiabá


Resenha
Livro: Jubiabá
Autor: Jorge Amado
Ano de lançamento: 1935
Jubiabá é o quarto livro de Jorge Amado que leio. Os três anteriores foram: Dona Flor e seus dois maridos; Capitães da Areia e Tenda dos Milagres. Sou apaixonada pelo estilo de escrita do autor, pelas críticas sociais que sempre estão presentes em suas obras. Com a leitura de Jubiabá, me torno ainda mais admiradora desse grande autor brasileiro. O livro foi escrito quando ele tinha apenas 22 anos. O processo de escrita do livro teve início na Bahia e foi finalizado no Rio de Janeiro.
O livro conta a história de Antônio Balduíno, um dos primeiros protagonistas negros da literatura brasileira. Baldo, como também era conhecido, passou grande parte da sua infância no Morro do Capa Negro, na Bahia. De lá de cima, gostava de observar a cidade, com suas cores, luzes. Foi criado por sua tia Luisa, que foi para ele, pai e mãe, tudo que ele tinha na vida. Baldo passou grande parte de sua vida ouvindo histórias na porta da casa da sua tia. Zé Camarão, uma referência para Baldo, contava ABCs de homens valentes. Um ABC é um tipo de cantiga popular na Bahia. Antônio cresceu com o desejo de possuir ele mesmo um ABC um dia, pois seria valente a tal ponto. Uma figura muito presente na vida de Baldo desde sua tenra infância até a fase adulta é Jubiaba, quem dá nome ao livro. Ele é um pai de santo, que cuidava de toda a comunidade do morro. Resolvia problemas entre famílias, mediava discussões, além de, obviamente, ser um líder religioso respeitadíssimo.
Logo pelo fato do romance levar o nome do pai de santo Jubiabá, e não do protagonista , podemos perceber como esse personagem  é importante na construção da identidade do protagonista. Assim como em todos os livros que li desse autor, o componente religioso é peça fundamental no desenrolar da trama. Os rituais religiosos, a perseguição que existia na época vinda do próprio Estado , contra os professantes das religiões de matrizes africanas, é bem retratada nesse livro, assim como o é em todos os outros. Longe de esgotar o tema e torna-lo repetitivo, Jorge Amado consegue trabalha-lo de maneira peculiar em cada um dos romances, trazendo uma aura de magia em todos os seus livros. Faz total sentido a repetição desse tema em suas obras, visto que Jorge Amado, quando foi deputado federal em 1945 pelo Partido Comunista do Brasil, foi autor da lei de direito à liberdade de culto religioso.
A tia Luisa trabalhava vendendo doces e carregava esses quitutes na cabeça diariamente. Por isso, acaba enlouquecendo. Quando sua tia enlouquece, Baldo é levado para viver com um comendador. Vive algum tempo lá, conformado com sua vida, até ocorrer um episodio que o leva a fugir da casa do comendador. Um fato importante a ser salientado é: nessa casa que Baldo conhece o grande amor de sua vida, Lindinalva, que era filha do homem que o abrigou.
A partir disso, Baldo passa a viver na rua, como mendigo, junto com outras crianças. Nesse ponto, o livro lembra bastante Capitães da Areia. A própria trajetória e comportamento de Antônio Balduíno carrega semelhanças com o chefe dos Capitães da Areia, Pedro Bala. Nesse momento, podemos acompanhar a vida dessas crianças. Uma vez li que Jorge Amado romanceava a vida das crianças de rua em seus livros. Mas Jorge Amado apenas confere protagonismo aos excluídos, mostrando que não é só de sofrimento que essas crianças vivem. Há momentos felizes em suas vidas, momentos de solidariedade e compaixão , os quais Jorge Amado relata. Ele dá voz aos marginalizados, em minha opinião, de maneira muito satisfatória.
Depois desse período, Baldo vira trabalhador nas plantações de fumo. Mas Antônio sempre levava em sua cabeça a ideia de que não seria escravo de senhores. Desde pequeno, ele desejava ser um negro livre e acreditava que sendo trabalhador, era escravo. Sempre viu nos trabalhadores a figura de escravos, vencidos pelo sistema. Por isso, nunca foi seu desejo parar em trabalho algum. Pulava de ocupação em ocupação, vendia seus sambas. Nesse ponto da venda dos sambas podemos perceber uma crítica. Baldo vendia seus sambas bem barato e não sabia o destino de suas letras. Até ouvir uma vez tocando em uma festa e descobrir que o homem para o qual ele vendera sua poesia, lucrava bastante com isso. Podemos perceber uma critica à apropriação nesse ponto. Além de trabalhar nas plantações, Baldo passou um tempo como trabalhador de circo, e lutador de boxe.
Ocorre um fato na trama que leva Baldo a mudar sua trajetória: atendendo à um desejo de Lindinalva, ele acaba tendo que criar o filho do amor de sua vida. Para isso, passa a trabalhar como estivador. Nesse ponto, há uma reviravolta: Baldo acaba descobrindo a força do trabalhador. A partir de uma greve dos operários, Balduíno percebe , se formando politicamente no trabalho, que os donos de fábricas, os burgueses, vivem da exploração das massas e que, o proletariado poderia se unir contra toda essa exploração do capital. Esse é um dos momentos finais do livro, muito emocionante, onde podemos perceber essa transformação no pensamento de Antônio. Apesar de romancear nesse ponto a união dos proletários, são momentos narrados de maneira tão doce, terna, ao mesmo tempo, com paixão, que aquecem o coração daqueles que acreditam na força dos trabalhadores contra a exploração, dos oprimidos pelos opressores.
Apesar de haver um protagonista, a partir do qual toda a história gira, não há somente um narrador na história. Todos os personagens que passam pela trama , deixam sua marca, narram, contam , de alguma maneira, um pedaço do enredo. O(s) narrador(es) é atravessado pelos próprios pensamentos o tempo inteiro, conferindo uma veracidade, de maneira semelhante ao que ocorre em Crime e Castigo, de Dostoiévski.
Por toda a importância dos temas sócias retratados, pela escrita rica em detalhes, que te levam a imaginar exatamente aquelas cenas do livro, vale a pena e muito, a leitura das poucas mais de 200 páginas desse clássico, de um dos mais importantes autores do mundo, que é brasileiro. Vida longa à literatura brasileira!!

domingo, 24 de junho de 2018

Suicidas


Resenha
Livro: Suicidas
Autor: Raphael Montes
Ano de lançamento: 2012

Desde pequena, sou uma leitora ávida: amo literatura e leio livros ficcionais de todos os tipos: sejam eles histórias de romance, literatura clássica, suspense, aventura, entre outros. Já li diversos livros policiais e recentemente descobri um novo tipo de literatura: noir. Esse tipo de escrita, que também se estende à obras cinematográficas, mistura elementos de suspense, literatura policial, onde o mais importante não é a descoberta do criminoso que está sendo investigado em si, mas o desenrolar da trama, a história contada, a atmosfera sendo sentida. Esse tipo de literatura é bem mais rica, no meu ponto de vista, quando comparada com a literatura policial clássica, onde o objetivo inicial e final é a descoberta do culpado. Entretanto, não é a esse tipo de literatura que me refiro na presente obra, Suicidas, mas o tipo clássico de literatura policial.

Raphael Montes é autor desse livro, que aliás, é seu romance de estreia. Após o lançamento de Suicidas, ele já tem outros títulos publicados, como: Dias Perfeitos, O Vilarejo e Jantar Secreto. Tem despontado como uma das grandes revelações da literatura nacional, tendo sido finalista dos prêmios nacionais Benvirá e Machado de Assis. Sua obra Suicidas foi adaptada para o teatro em 2015.

Após pontuar esses aspectos, vamos ao enredo do livro. Nove jovens, moradores da zona sul carioca, decidem se matar em um dia de setembro, em uma casa de campo, praticando roleta russa. Por que jovens, aparentemente com uma vida perfeita, decidem pôr um fim à ela, de maneira tão violenta? Porém, no dia da roleta russa, algo não sai como o esperado e os corpos são encontrados carbonizados, sendo possíveis de serem identificados somente com o fornecimento de arcada dentária. Um ano após esse acontecimento, a polícia, representada pela figura da delegada Diana, convoca as mães desses suicidas para tentar esclarecer as motivações de cada um dos jovens, à luz de novas pistas: foi encontrado um caderno com as anotações de um dos participantes, Alessandro Parentoni. Esse participante, além de possuir um diário, foi escrevendo um livro em tempo real, narrando todos os acontecimentos do dia da roleta.

A partir disso, a narrativa se passa em três distintos tempos: vamos acompanhando a leitura do diário de Alessandro, do seu livro e a gravação da reunião com as mães.
Uma coisa já começou a me incomodar nesse momento: por que somente as mães foram chamadas para essa reunião? Por que não os pais, os responsáveis? Pode parecer um ponto sem importância, mas contribui para perpetuar a ideia de que a educação de um filho é responsabilidade única e exclusiva da mãe.

A policial Diana vai lendo o livro e o diário de Alessandro, considerando tudo aquilo como prova cabal e definitiva dos fatos passados. Se considerarmos toda a adrenalina que ocorria enquanto a roleta russa se desenrolava, como podemos considerar que o Alessandro conseguiu narrar tudo aquilo em tempo real? Como atestar que a história narrada pelo ponto de vista de um único personagem é a verdade? Esses fatos, básicos, não parecem incomodar a polícia. Achei essa uma enorme falha no livro. O motivo da reunião é torpe: não vejo realmente o sentido de levar mulheres, que já foram despedaçadas pelo suicídios de seus filhos, a reviver todos aqueles momentos, pois a policial faz a leitura da obra de Alessandro, que narra em detalhes os acontecimentos.
Achei que o livro exagera na violência. Tudo bem que é um livro policial, já esperamos esse tipo de cena, mas acredito que tenha violência gratuita. Podemos considerar o fato dos jovens estarem passando por momentos de tensão extrema e liberar o que há de mais podre no ser humano, todavia, ainda sigo firme na minha posição de que algumas cenas não precisariam estar presentes, tais como estupro, necrofilia, conferindo um caráter meio sádico ao enredo.

 À primeira vista, os personagens  podem parecer que são caricatos, estereotipados. Temos um playboy da zona sul, forte, meio burro, que só pensa em mulheres; uma mulher feminista, considerada feia para os padrões de beleza; um emo depressivo com tendências suicidas; um nerd que ama escrever e não se dá bem com mulheres. Como falei, o autor tenta desenvolver melhor esses personagens e ir além do estereotipo inicial, sendo em alguns momentos bem sucedido e em outros, nem tanto. Já li uma obra do mesmo autor, Dias perfeitos. Nessa obra, também temos um personagem tímido, nerd, que não se dá bem com as mulheres. Parece repetir uma fórmula.

Acaba a leitura, fiquei surpresa com a reviravolta presente. Porém, analisando melhor, pude perceber que o autor vai deixando várias pistas ao longo da trama, e que, para um leitor mais atento, ficaria fácil de perceber. Assim como em Dias perfeitos, temos aqui um final inesperado, me levando a levantar novamente a hipótese de fórmula que parece dar certo, repetida. Não posso afirmar isso lendo apenas dois livros do autor, mas foi a impressão que ficou comigo.

Acredito ser importante avisar que a obra não deve ser lida por pessoas que possuem depressão, que tenham algum tipo de tendência suicida, pois, como já foi apontado por diversos órgãos, tais como OMS, falar sobre esse assunto acaba ativando gatilho em pessoas que já possuem tais tendências a tentarem realizar esses atos.

O livro contém muitas páginas. Raphael usa de artifícios para te prender até o fim do livro, mas, não por ser excelente, apenas pelo motivo de querer chegar ao fim. Esse foi meu caso. Achei o livro bem problemático em todos os sentidos que falei acima, além da motivação para tudo, que acabamos descobrindo ao final, ser extremamente torpe. 

domingo, 17 de junho de 2018

O caminho de casa


Resenha
Livro: O caminho de casa
Autora: Yaa Gyasi
Ano de lançamento: 2017


Duas meias irmãs, separadas por ocasião de seu nascimento, fruto de um estupro, que nunca vieram a se conhecer. Essa é a premissa inicial da obra O caminho de casa, da escritora ganense Yaa Gyasi.

Esi e Effia , as irmãs, foram criadas por famílias diferentes. Effia foi criada por uma mulher que a odiava e que a vendeu para ser esposa de um britânico, indo morar em Cape Coast, por ocasião de seu casamento. Esi, pelo contrário, teve uma infância recheada de carinho, criada com todo amor por sua família, mas quando sua aldeia perde uma batalha, ela é separada de sua família e levada como escrava. A partir desse ponto, teremos a narração da história de diferentes personagens, todos eles descendentes das duas irmãs. Cada capítulo nos introduz à vidas diferentes, porém ligadas entre si. Longe de conferir ao texto uma quebra ou deixá-lo menos dinâmico, acredito que essa estrutura tenha promovido o efeito contrário: conferiu dinamismo à prosa.

O fato de traçar uma genealogia de família, faz lembrar o livro Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez, onde o autor colombiano conta a história de várias gerações da família Buendía. Yaa consegue um feito semelhante a Gabo. Sua forma de contar história me lembra a autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie.

 

Mais do que contar a história de uma família, observamos o retrato do negro durante vários séculos ate chegar aos dias atuais, tendo como cenário ora Gana ora Estados Unidos. Podemos sentir na pele como a escravidão foi cruel e trouxe consequências para a vida dos descendentes de negros escravizados que ultrapassam séculos. É muito interessante, nesse sentido, o esforço feito no livro de falar sobre a ancestralidade de negros, visto que, em países onde houve a escravidão, é impossível conhecer a sua hereditariedade.

 

A escravidão é retratada de forma muito dolorida, levando-nos, leitores, a refletir sobre como um regime perverso se sustentou durante muito tempo em diversas sociedades. Podemos acompanhar no livro também como os britânicos apreciavam a guerra existente entre os povos fânti e axânti, pois conseguiam lucrar com essa briga, com o comércio de escravos.

 

Podemos observar como a escravidão influenciou a forma como os negros são vistos pela sociedade e instituições em geral, fato que tem origem na sociedade colonial e escravocrata. É impossível não traçar paralelos com o nosso país. Um local extremamente racista, de maneira velada. Onde negros e negras são mortos e mortas pelo simples fato de ter a pele mais escura, não conseguem empregos, não conseguem estudar e ter acesso à uma vida que se equipare à dos brancos. É necessário que façam esforços sobre humanos para conseguir conquistar algo na vida. Enquanto o número de homicídios de mulheres brancas diminui no Brasil, o de mulheres negras aumentou. Vivemos genocídio da população jovem e negra.

 

A autora toca em um importante ponto: fala sobre o colorismo e a tentativa de deixar aquele negro de pele mais clara como sendo não negro. Também é abordado no enredo o tema da solidão da mulher negra, que é relegada à viver sozinha ou se subjugar à relacionamentos com homens que não acreditam que uma mulher negra seja “feita para casar.”

 

De maneira leve e poética, nos leva a refletir acerca de temas tão caros e tão urgentes em nossa sociedade. Leitura necessária e atual, que tem todas as características para se tornar um clássico.


domingo, 3 de junho de 2018

Alvo Noturno


Resenha
Livro: Alvo Noturno
Autor: Ricardo Piglia
Lançamento : 2011



Ricardo Piglia foi um escritor argentino, nascido em 1941, que morreu no ano de 2017 em consequência da doença que descobriu em 2014: esclerose lateral amniotrófica. Autor de cinco romances, dentre eles Alvo Noturno , Dinheiro Queimado e inúmeros ensaios. Pelo livro Alvo Noturno recebeu o prêmio literário venezuelano Romulo Gallegos, já concedido a Gabriel García Marquez, Roberto Bolaños entre outros, além do prêmio Dashiel Hammet.

Alvo Noturno é um livro de narrativa policial na superfície, mas que possui muitas camadas a serem desvendadas. Faz parte da literatura noir, que se caracteriza por histórias que misturam terror, mistério e elementos policiais, mas que vai além da investigação policial.  Assim faz Piglia nesse romance: temos um crime, que já é apresentado nas primeiras páginas. Em um povoado no interior é assassinado Tony Durán, um porto riquenho negro, morador de Nova Jersey, que chega ao interior da Argentina com muito dinheiro. Tony teve um caso com as gêmeas Belladona, filhas de um dos mandachuvas daquele local.

Emilio Renzi, alter ego de Piglia, já presente em outras obras, é enviado de Buenos Aires para o povoado para investigar a morte, mas seu principal objetivo é traçar um painel social daquele local. Essa obra é muito mais que um romance policial usual, visto que o mais importante não é conhecermos o assassino, o responsável pela morte. O crime fica na superfície. O autor está mais preocupado que consigamos conhecer um pouco mais sobre a sociedade argentina retratada na época.

O livro se passa na década de 1970, a mesma época da ditadura na Argentina. Temos personagens usuais de romances policiais, como o  Croce, o comissário investigador, que possui métodos nada comuns para solucionar seus casos de crime, se internando em manicômios ou indo para a cadeia de vez em quando para pensar, adota métodos indutivos e não dedutivos, um excêntrico em sua essência.

Ricardo Piglia narra com êxito o processo de desconcentração industrial que ocorreu na Argentina, assim como suas consequências. Os desmandos e crueldades do capitalismo ficam bem evidentes ao longo de toda a trama. Também podemos perceber por que a chegada de Durán em povoado do interior causa tanto espanto: ele era um negro, com dinheiro. Quase não existem negros na Argentina, pois foram exterminados, como fica bem evidenciado no romance.

Podemos observar a extrema concentração fundiária que existe no meio rural argentino, onde temos uma pequena parcela da população possuindo muitas propriedades de terra, enquanto a maior parte fica relegada ser empregada dessa minoria rica, sem nenhuma perspectiva de melhoria, pois os possuidores de terra já herdam a mesma, por ocasião de nascimento.

O estilo noir, o fato da  revelação da identidade do criminoso não ser o ponto principal do livro, se constituindo, mais do que isso, em um  painel da sociedade argentina da época, me lembra muito a prosa de Leonardo Padura, escritor cubano, autor de romances policiais nada convencionais também, onde, assim como em Alvo Noturno, o principal é conseguirmos conhecer um pouco mais sobre as complexas sociedades, de Piglia, a argentina e de Padura, a de Cuba. Adoro livros nesse estilo e fiquei extremamente feliz em poder conhecer mais um autor latino-americano que contemple esse tipo de escrita. A América Latina é muita rica em literatura, basta sabermos procurar.

domingo, 27 de maio de 2018

A confissão da leoa


Resenha
Livro: A confissão da leoa
Autor: Mia Couto
Ano de lançamento : 2012

Tenho feito um esforço para fazer leituras de obras que não sejam oriundas dos locais hegemônicos de produção cultural: Estados Unidos e Europa. Estou procurando livros de autores provenientes do continente africano, asiático, américa latina, nessa tentativa de conhecer e valorizar o contra hegemônico. Foi em uma dessas buscas que conheci Mia Couto, escritor moçambicano e também biólogo, ganhador de muitos prêmios literários, dentre eles o Prêmio Neustadt, tendo sido  somente ele e João Cabral de Melo Neto os únicos escritores de língua portuguesa a recebê-lo.

A confissão da leoa é um livro que aborda um tema muito urgente na sociedade moçambicana, e que encontra ecos na nossa sociedade brasileira também: a posição da mulher. O autor começa o livro com a seguinte frase: Deus já foi mulher.  Antes de Deus ser chamado de Nungu, segundo  lenda da criação do universo,  o Senhor do Universo, ele era mãe. A mulher já ocupou, outrora, uma posição de superioridade na sociedade.
O enredo do livro é simples e foi inspirado em uma situação que o próprio Mia couto vivenciou enquanto biólogo: uma aldeia começa a ser atacada por leões, que atacam somente mulheres; para combater os animais, é chamado um caçador, Arcanjo Baleiro. O livro é narrado por duas pessoas: o caçador e Mariamar, uma moradora da aldeia de Kulumani que acabou de perder sua irmã, Silência, morta pelos leões.

“Até que os leões inventem as suas próprias histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça.”

Nesse trecho, podemos perceber uma metáfora: os leões representam as mulheres e os caçadores, os homens. Essa não é a única metáfora do livro, que é simplesmente recheado delas. Mia Couto possui uma prosa belíssima, por muitas vezes poética, emocionante, mágica.

O livro narra a vida de todas as mulheres, que já nascem mortas. Uma fala muito marcante é de Hanifa, mãe de Mariamar, quando questionada sobre a paz que será obtida pela morte dos lões:

“ Qual paz? Talvez para eles, os homens-disse- Por que nós, mulheres, todas as manhãs continuamos a despertar para uma antiga e infindável guerra.”

As mulheres não são seres possuidores de direitos naquela sociedade: são sempre representadas por seus maridos, pais, parentes. Muitas das vezes, esses próprios atores são responsáveis pela vida de desgraça que as mulheres levam, abusando e oprimindo as mesmas.. Não tem a possibilidade de fala, somente levam uma vida de servidão. Lá em Moçambique,  muitas mulheres trabalham em casa, nas lavouras, e esse tipo de trabalho é visto como uma ajuda ao marido, não sendo valorizado.

Além do ataque de leões, existem casos de mulheres que estavam sendo estupradas, e essas situações não encontravam repercussão na aldeia, visto que se tratava, apenas de mulheres, que nem seres humanos são, servindo somente para a servidão e procriação.

Mas , em contrapartida, temos no livro, -pelo ponto de vista das mulheres representadas nele: Mariamar; Naftalinda, a esposa do administrador, que se rebela contra toda a situação da mulher; Hanifa, que conhece a situação, mas não consegue se revoltar- possibilidades de reflexão belíssimas e tocantes. Couto consegue representar esse eu lírico feminino de maneira belíssima: conseguimos sentir a sofreguidão enfrentada por essas mulheres, que antes de se tornarem não pessoas, eram deusas, que tudo perderam.  Como mulher, vivendo no Brasil, país extremamente machista e desigual para as mulheres, consegui me identificar e sentir a dor sentida por aquelas mulheres, doeu muito em mim.

Arcanjo, apesar de ser homem, retrata as mulheres sob um ponto de vista positivo: como geradoras, seres humanos, dotados de ancestralidade, divindade. Ele tem uma fala incrível, ao final do livro, que trago aqui:

“Naquele momento estou rodeado de deusas. De um lado e do outro lado da despedida, naquele rasgar de mundos, são mulheres que costuram a minha rasgada história.”

Ao final do livro temos a confissão da leoa: nós, como mulheres, somos leoas, temos que enfrentar toda essa sociedade que nos odeia, quando confessamos, quando gritamos a opressão que sofremos, somos taxadas de loucas. É isso que o livro visa trazer: mostrar a história sob o ponto de vista das leoas, todo seu sofrimento e possibilidades de resistência e mudanças. A mensagem ao final é, que se nos unirmos, temos a potencialidade de transformar, minimamente, a sociedade em que vivemos. Leitura essencial !!!!

2001- Uma odisseia no espaço

                                                               Resenha   Livro: 2001- Uma odisseia no espaço   Autor: Arthur ...