domingo, 30 de dezembro de 2018

Desde que o samba é samba


Resenha
Livro: Desde que o samba é samba
Autor: Paulo Lins
Ano: 2012
Número de páginas: 303

Paulo Lins se consagrou como autor com seu primeiro romance lançado em 1997, Cidade de Deus. Passados 15 anos, lança seu segundo romance. O livro é um romance documental, feito  a partir de uma extensa pesquisa bibliográfica, em livros, sites e falas de entidades de umbanda e candomblé, que retrata o surgimento do samba, a reinvenção desse ritmo, o surgimento de novos instrumentos,  no bairro Estácio, no Rio de Janeiro, assim como a origem da primeira escola de samba, Deixa Falar.

Além desse enredo público, a trama gira em torno de 3 personagens, de maneira mais privada: o malandro Brancura, o português Sodré e a prostituta Valdirene. Ademais, temos personagens secundários, tão importantes quanto esses, como Tia Almeida (tia Ciata), Silva(Ismael Silva), Bide e Bastos. Figuram pessoas importantes de maneira pontual, como Carmen Miranda, Mário de Andrade, entre outros.

Gosto de romances que instigam nossa curiosidade. Nem todos os episódios narrados são verdadeiros, então é necessário que haja uma pesquisa paralela à leitura do livro a fim de verificar a veracidade dos fatos.

O triângulo amoroso formado por Brancura, Valdirene e Sodré consegue nos prender desde o início. Os personagens são carismáticos. A todo momento eu conseguia imaginar um filme ou seriado resultando do livro.

É importante destacar: o livro narra o surgimento da Umbanda, pois é impossível falar sobre samba sem abordar a importância dessa religião estritamente brasileira, que surgiu em São Gonçalo, tendo completado 110 anos esse ano. As rodas de samba aconteciam nos terreiros de Umbanda e Candomblé a fim de driblar a polícia. Como o livro se passa entre os anos de 1927-29, havia pouco tempo desde a abolição da escravidão, menos de 50 anos. Portanto, qualquer prática que minimamente estivesse ligada aos negros sofria criminalização. A polícia espancava as pessoas , retia instrumentos musicais, impedia os blocos de pularem o carnaval.

No livro , a repressão da polícia é retratada como uma das possíveis causas para a criação da escola de samba, pois com a oficialização do bloco, seus participantes poderiam brincar o carnaval em paz.

O bairro Estácio é cenário principal dessa trama, com seus prostíbulos, bares e lanchonetes. A vida das prostitutas é retratada com muita semelhança com o real, com suas dores e sofrimentos. A efervescência , o caldo cultural existente naquela época, é sentido ao longo das linhas do romance. Existem muitas cenas de sexo e violência no livro, assim como é abordada a questão da homossexualidade de Ismael Silva. O autor mantem o nome verdadeiro apenas de alguns personagens, acredito eu que seja para se resguardar de possíveis processos. Mas com uma rápida pesquisa no google, você conseguirá descobrir a quem o autor se refere. Possui alguns traços da corrente literária naturalista, mas nada que seja exagerado, do meu ponto de vista.

A linguagem é acessível, dinâmica, com algumas gírias da época, que não prejudicam em nada o entendimento. Apesar de ter preferência pelo livro Cidade de Deus, gostei bastante da obra pelo seu conjunto: enredo, que é original, pois quase não se vê livros que retratam essas raízes do samba de maneira romanceada; personagens cativantes e complexos; descrições meticulosas que ficariam ótimas em um filme ou série; a importância da abordagem da cultura negra nos dias de hoje; violência institucionalizada do Estado, representada pelos policiais ( vemos como os sujeitos negros são marginalizados e estavam isolados com poucos anos passados da abolição da escravidão, e o Estado sempre se ocupando de traçar essa exclusão). Vale muito a pena a leitura !

domingo, 16 de dezembro de 2018

A cor púrpura


Resenha
Livro: A cor púrpura
Autora: Alice Walker
Número de páginas: 258
Ano: 1982

“Eu não sou escritora porque fiz faculdade. Sou escritora porque tenho coração”


Essa foi a fala da escritora Alice Walker, durante a Bienal no Distrito Federal, em 2012, em que esteve presente para inaugurar seu livro: Rompendo o silêncio- Um Poeta Diante do Horror em Ruanda, no Congo Oriental e na Palesina/Israel.  Autora de dezenas de obras de ficção, sendo a mais conhecida A Cor Púrpura. O livro foi adaptado para o cinema, sendo dirigido pelo Steven Spielberg, com a Whoopi Goldberg no papel principal, além de ter ganho o Pulitzer e o National Book Award. Nascida no sul dos Estados Unidos, em 1944, além de autora, é militante pelos direitos civis.

A obra conta a história de Celie, uma mulher negra, moradora do sul dos Estados Unidos, ao longo de mais ou menos 30 anos, na primeira metade do século passado. A narrativa se dá a partir de cartas escritas pela protagonista, primeiramente à Deus e depois à sua irmã.
 Celie sempre foi explorada, ao longo de toda a sua vida. Sofreu as mais inúmeras violências que uma mulher negra poderia sofrer naquele tempo (e ainda hoje). Com 14 anos, começou a ser estuprada pelo pai, fato que resultou em dois filhos, que foram doados pelo homem. A mãe sempre a odiou. Um homem chamado sempre de Sr, vai pedir a mão de sua irmã, Nettie, ao pai, que nega, mas oferece a mão de Celie. Como o Sr precisava de uma pessoa para cuidar de si e dos seus filhos, aceitou.

A partir disso, um novo ciclo de violência começa. O marido a trata como um objeto. Abusa dela psicologicamente e fisicamente. Celie também se refere ao marido como Sr, demonstrando como ela não se vê como esposa e companheira dele, mas como uma empregada, serva. Um dia, o marido  fala para Celie a seguinte frase:

“ Olha só para você. É negra, é pobre, é feia, é mulher. Você não é nada.”

Essa fala evidencia o tipo de tratamento que Celie recebia e que a mulher negra de maneira geral recebe na sociedade, sendo tratada como nada. Essa situação começa a se transformar com a chegada de duas diferentes mulheres na vida da protagonista: Sofia e Shug Avery. Sofia é esposa de Harpo, enteado da protagonista. Uma mulher forte, que não se curva às ordens de homem nenhum e não se deixa ser dominada. Celie não sabe como Sofia faz isso, pois a única coisa que sabe fazer é se manter viva.

“Mas eu num sei como brigar. Tudo o que sei fazer é continuar viva.”

Shug Avery é amante do marido da protagonista. Ela é trazida para a casa do casal, pois está doente, e o Sr faz com que Celie cuida dela. O que poderia se transformar em um tremenda confusão, acaba se tornando em uma possibilidade de auto conhecimento para nossa protagonista. Ela sente despertar em si a sexualidade. Nunca havia se sentido atraída pelos homens, e não sabia que era possível sentir tamanha atração por outro ser humano. As duas desenvolvem um lindo relacionamento, repleto de companheirismo e amizade, que faz com que Celie se reconheça como um ser pensante, uma mulher forte, que já passou por muitas coisas ruins na vida e mesmo assim, é resiliente, aguentou , resistiu.

As duas travam longos diálogos que são transcritos nas cartas de Celie. Uma parte que me deixou bastante impressionada é quando Celie fala para Shug sobre Deus. Ela fala que Deus não a escuta, pois sempre escreveu cartas para ele, em forma de desabafo e nada mudou em sua vida. Transcrevo abaixo um trecho com a fala de Celie:

“ Ela falou, Dona Celie, é melhor você falar baixo. Deus pode te escutar. Eu falei. Deixa ele escutar. Se ele alguma vez escutasse uma pobre mulher negra, o mundo seria um lugar bem diferente, eu posso garantir.”

Em relação à linguagem, é escrito da maneira que a protagonista falava, com traços de oralidade, o que confere mais veracidade à narrativa, pois sendo Celie uma mulher praticamente analfabeta, não faria sentido que suas cartas tivessem sido escritas em linguagem formal.

O livro aborda temas tão diversos quanto atuais: a opressão de gênero; o racismo, latente, que se perpetua até os dias de hoje; a relação lésbica e a bissexual (Shug é bissexual); a maneira como os negros são tratados no continente Africano e nos Estados Unidos, suas discrepâncias e sobretudo, o poder de união das mulheres. Vemos uma certa irmandade entre as mulheres do livro, que sempre se ajudam, a fim de se manterem vivas e sãs em uma sociedade que as odeia. Por todos os motivos, recomendo a leitura. Um livro dolorido, porém, extremamente essencial. Um clássico!

domingo, 2 de dezembro de 2018

O pequeno príncipe


Resenha
Livro: O Pequeno Príncipe
Autor: Antoine de Saint-Exupéry

Número de páginas: 95

Ano de lançamento: 1943

 

Antoine de Saint Exupéry (1900-1944) foi um escritor, ilustrador e piloto francês, é o autor de um clássico da literatura “O Pequeno Príncipe”, escrito em 1943. Apesar de à primeira vista parecer um livro infantil, a obra é repleta de simbolismos e metáforas. É um livro que é apreciado pelo público infantil por conta das suas ilustrações e linguagem fácil, e também é perfeito para os adultos que não deixam a sua criança interior morrer. É basicamente sobre isso que trata o livro. Vamos ao enredo.


Um piloto de avião começa narrando sua infância. Ele gostava de desenhar quando criança mas foi desestimulado pela sua família, que o obrigou a estudar para aprender uma profissão mais rentável. Quando passamos a conhecer um pouco a biografia do autor, podemos perceber que ele é o próprio piloto de avião, visto que também gostava de desenhar na infância, mas se tornou piloto por pressão da família. O protagonista nos revela que quando mostrava seus desenhos à gente grande, aos adultos, eles nunca entendiam o que estava representada verdadeiramente nas gravuras, somente as crianças eram capazes de reconhecer e entender além das aparências. Os adultos acabam complicando demais as coisas.


Em um determinado dia, esse piloto cai no meio do deserto e encontra um rapaz loiro, um pequeno príncipe. Esse menino veio de um planeta distante e já havia passado por vários outros planetas até chegar à Terra. Ele conta toda sua aventura ao piloto. Em suas andanças, encontrou um rei, um bêbado, um vaidoso, um geógrafo, um empresário, todos homens ocupados em seus próprios umbigos e em serem admirados e que não conseguem perceber a presença de nada além deles próprios.


O príncipe conta que em seu planeta de origem, cuidava de uma rosa, que se dizia única, mas pelo fato da rosa ser rude, acabou abandonando-a e foi viver suas aventuras em outros planetas. Quando encontra um jardim de rosas na terra, fica chateado pois acreditava que sua rosa era única. Mas depois descobre que o que faz uma pessoa ser única para a outra é o fato dela nos cativar. Como podemos observar através desse trecho:


“Era apenas uma raposa parecida com outras cem mil, mas eu a tornei minha amiga e agora é única no mundo.”


A rosa representa a esposa do autor. Os dois tiveram um casamento conturbado durante 13 anos e ele a abandonou em busca de outras “rosas” , mas achou essa forma de tentar se reconciliar com a esposa através da homenagem.


O livro segue com questões filosóficas e existencialistas, chega a me lembrar um Albert Camus para crianças, com o risco de estar sendo exagerada , e um pouco mais acessível ao grande público, diferente do autor argelino. Conseguimos compreender o valor das verdadeiras amizades, a importância de nunca deixarmos a nossa criança interior morrer, pois o modo como as crianças observam o mundo é inocente e desprendido da maior parte dos preconceitos que nos infectam quando adultos, fala sobre a dor da perda de alguém querido. Na minha opinião, o príncipe representa a criança interior do piloto. O encontro entre o piloto e o príncipe acaba sendo um encontro entre ele e ele mesmo, bem no estilo do filme Logan. Quem já viu consegue entender o que estou dizendo. Por todos os motivos, recomendo fortemente a leitura. Que possamos aprender a nunca abandonar de vez nossa maneira mais infantil, desprendida, de olhar o mundo, quando necessário. Afinal, gente grande é complicada! Vamos descomplicar!!!


domingo, 18 de novembro de 2018

Éramos seis


Resenha
Livro: Éramos Seis
Autora: Maria Jose Dupré
Número de páginas: 192
Ano de lançamento: 1943

O romance retrata a vida da família de Dona Lola, uma típica vida de dona de casa do começo do século passado. A história se desenrola através de mais de duas décadas e a partir dela é possível acompanhar as mudanças que a sociedade paulistana sofreu ao longo do anos .

Dona Lola vive com seu marido, Júlio, e seus quatro filhos: Carlos, Alfredo, Julinho e Isabel. Todos com personalidades incrivelmente diferentes entre si. Carlos sempre foi um menino amável, estudioso, responsável e trabalhador, apesar de um pouco moralista, e isso é até compreensível, visto que após a morte do pai ele passa a comandar a casa juntamente com sua mãe, mas não avancemos muito; Alfredo é o que se pode chamar de bom-vivã, não gosta de trabalhar nem de estudar, desde pequeno; Julinho sempre gostou de guardar dinheiro e teve faro para os negócios e Isabel era a menina vaidosa, garota dos olhos de ouro do pai.

Podemos acompanhar a trajetória dessa família, e maneira tão bem descrita e construída, com personagens tão complexos, que parece que estamos vivenciando uma história verdadeira, típica daquela época. Julio era um marido machista, mas temos que pensar que o livro se passa nas primeiras décadas do século passado, ou seja, olhar com a perspectiva atual para esses personagens se constitui em anacronismo. Apesar de ser um marido machista, deixar a educação das crianças na mão de sua esposa, viveu e se dedicou ao máximo à sua família; passava  o dia inteiro trabalhando para conseguir sustentar a família e apesar de ser um pouco sem jeito, meio durão, calejado pela vida, percebemos várias atitudes de amor dele para com os filhos.

Vamos observando a vida da família pobre, pelos olhos de Dona Lola. Uma personagem forte, dedicada mãe e esposa amorosa. Sempre fez de tudo para ajudar o marido financeiramente. A família era muito pobre, podemos observar o sacrifício deles para criar os quatro filhos.

O livro levanta algumas polêmicas da época. Naquele tempo não existia a lei do divórcio, que data da década de 70. O que existia era o desquite, mas a pessoa não poderia casar-se novamente. Isabel apaixona-se por um homem desquitado, o que leva ao desgosto de sua família, que acaba não aceitando aquele relacionamento. Apesar do preconceito e repulsa que sofreu, Isabel leva seu amor adiante. O paralelo que consigo traçar é com os relacionamentos homoafetivos atualmente, que em muitas famílias ainda são tratados como algo anormal e visto de maneira pejorativa pela sociedade. 
Espero que um dia isso seja apenas uma lembrança de um tempo em que tivemos que lutar por coisas óbvias. Assim como é super cotidiano hoje uma pessoa se divorciar, torço para que os relacionamentos homoafetivos sejam encarados com essa normalidade futuramente.

Outra polêmica levantada é sobre o comunismo. O Alfredo em determinada época da vida começa a frequentar reuniões comunistas. A gente acaba sentindo como era o tratamento dado a esse assunto na época. Ninguém sabia de fato o que era o comunismo, mas eram contra e as pessoas eram malvistas pela sociedade. Semelhança com a atualidade?

Carlos representa a moralidade cristã e tradicional. Sempre vigiando os irmãos, tomando conta, ainda que em sua visão para o bem, da vida de todos os irmãos, indo contra suas ações que ele considerava imorais. Para mim, fica claro que ele representa a sociedade com seus preconceitos arraigados. Mesmo assim, conseguimos entender essa responsabilidade que Carlos carrega e ele era uma pessoa tão doce e amável, que era difícil ficar com raiva dele.

Ao final da história, temos Dona Lola sozinha, sem maridos, com seus  filhos vivendo longe. Por isso o título: éramos seis. No começo, eram seis pessoas na casa; muitas brincadeiras, refeições na mesa, sacrifícios, mas acima de tudo, muito amor. Podíamos senti-lo emanando naquela família. Ao longo dos anos, mortes acontecem, separações, brigas, terminando a história somente com a matriarca da família e toda a sua solidão, permeada por lembranças felizes e outras nem tanto assim. Recomendo a leitura!

domingo, 4 de novembro de 2018

Jango e eu: memórias de um exílio sem volta


Resenha
Livro: Jango e eu: memórias de um exílio sem volta
Autor: João Vicente Goulart
Ano de lançamento: 2017
Número de páginas: 350

Não sou profunda conhecedora da história do Brasil, mas me interesso por livros de variados assuntos. Confesso que o que me chamou a atenção primeiramente nesse livro foi a foto da capa e o título. É uma fotografia de um menino no colo de um adulto, a criança olhando para seu pai e este contemplando o horizonte. O menino é João Vicente, autor do livro. Essa belíssima fotografia resume bem toda a obra: um relato, repleto de afeto de um filho para com seu pai.

O livro não se propõe a contar a história brasileira, com referências bibliográficas, pois, nas palavras do próprio autor, já existem inúmeras obras que se prestam a esse papel. A obra narra a vida no exilio de Jango, como era conhecido João Goulart, e sua família. O presidente foi deposto pela ditadura de 64 e teve que se exilar fora do país. Primeiramente no Uruguai e depois na Argentina.

Acompanhamos a vida exilada dessa família, tão longe de casa, por motivos tão tristes. Na América Latina vivíamos um período ditatorial, que acabou tomando o Uruguai e a Argentina poucos anos depois, transformando esses países em um perigo para os exilados. João Vicente consegue nos passar a sensação tão viva de isolamento que seu pai e sua mãe viveram, enquanto ele e sua irmã, crianças ainda, ele com 7 anos somente, faziam vários amiguinhos por onde passavam.

A obra é tão bem descrita que parece que estamos assistindo a um filme. São narrados os encontros com amigos ilustres do presidente, como Josué de Castro, Darcy Ribeiro, Paulo Freire, a cantora Maysa, o cineasta Glauber Rocha. É delicioso e extremamente enriquecedor ler sobre essas reuniões com seus amigos, alguns também na condição de exilados e outros que iam para visitar o amigo.  Jango pretendia fazer reformar de base no Brasil - agrária, educacional, política - e foi impedido por uma elite escravocrata, que não perde a chance, desde sempre, de manter seus privilégios. Penso que nosso país poderia ter sido diferente caso Jango tivesse se mantido no poder. Condenava os extremismos, até mesmo da esquerda. Em relação à isso, podemos ficar conhecendo as tensões envolvendo Jango e Brizola, seu cunhado. Enquanto Leonel apostava numa revolta armada contra o regime da ditadura, Jango acreditava em uma possível saída democrática.

Penso que ler essa obra em um momento político como o nosso seja maravilhoso, pois nos faz refletir sobre como a perda das liberdades individuais pode afetar a vida das pessoas. É necessário refletirmos acerca desse assunto, em nossa frágil democracia e o que governos autoritários podem ter como consequência. Poderíamos ter tido reformas de base e atualmente, o Brasil poderia ter menos desigualdade, visto que somos um dos países mais desiguais do mundo. São apenas reflexões, mas vale a pena pensar sobre.

É uma obra apaixonante, lírica, que conta os fatos com um carinho enorme, afinal de contas, é um filho falando sobre o pai. Os dois sempre foram muito companheiros e amigos. Pelos olhos de João Vicente, acabamos conhecendo um homem honesto, benevolente, um autêntico líder e estadista, mas sobretudo um pai, marido e pessoa sensacional. Acredito que a educação é uma ferramenta poderosíssima para transformar o mundo e ler nos ajuda a pensar criticamente, por isso recomendo fortemente a leitura e reflexão


domingo, 21 de outubro de 2018

A neblina do passado



Resenha
Livro: Neblina do passado
Autor: Leonardo Padura
Ano de lançamento: 2005
Nº de páginas: 320

Sou um pouco suspeita para falar de livros do Leonardo Padura, escritor cubano, ganhador de diversos prêmios de literatura internacionais, tais como Prêmio Hammet e Prêmio Princesa das Astúrias de Literatura. Esse é o sexto livro que leio do autor (você pode ler minhas outras resenhas aqui no blog). Sou apaixonada pela escrita, pelo universo criado por Padura, e, essencialmente, por Cuba.

Nesse livro, temos como protagonista Mário Conde, figura já carimbada em outros romances do autor, como na série Quatro Estações em Havana. A história se passa em 2003, quatorze anos depois de Conde largar sua função de investigador na polícia. Ele vive da compra e venda de livros usados, prática muito comum em Cuba. Mário descobre um verdadeiro tesouro: uma biblioteca com exemplares de livros raríssimos e valiosos. Ele leva seu sócio, Pombo, para participar do negócio com ele. Juntamente com os livros, o ex policial acha uma carta de uma cantora de bolero dos anos 50, Violeta del Rio, e passa a ficar obcecado para saber mais sobre a vida da mulher.

A partir desse momento, mergulhamos no passado junto com Conde. Numa era pré-revolução, com muitos cantores e cantoras de bolero, quando a música era farta na cidade, as casas de show fervilhavam, Cuba respirava música. Conde é melancólico por natureza. Por isso, fica entusiasmado para saber mais sobre essa Cuba , na época que nem ele era nascido.

O ex investigador e seu amigo se veem envolvidos em uma teia de assassinatos no tempo presente, que pode ter origens no passado. Pode um fato acontecido há tantos anos ter reflexos no tempo presente?

O título é sugestivo e nele se baseia todo o livro: a neblina do passado, uma nesga, uma parte do tempo que nos afeta ainda, que nos nubla de uma tal maneira que não conseguimos enxergar a verdade. Como uma nuvem que nos causa cegueira. É necessário enfrentar o tempo que passou de cabeça erguida, pois só assim, conseguiremos superá-lo.

A escrita de Padura é impecável: suas descrições de cenas de sexo, cenas de comida, cenas de violência, são todas recheadas de um lirismo, mas ao mesmo tempo, com tons coloquiais, que nos leva a acreditar que aquilo realmente aconteceu e que estamos vivenciando esses fatos junto com nosso protagonista. O amor de Conde para com seus amigos e sua companheira Tamara é algo retomando e bem trabalhado nesse volume.

Me senti nostálgica, como diria Renato Russo, nessa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi. Cuba é apaixonante, quente, sedutora, amistosa, acolhedora. Só fez aumentar em mim ainda mais a vontade de conhecer esse, nas falas do próprio Padura, nem céu socialista nem inferno da direita, mas sim um purgatório. Padura consegue ser crítico ao seu país, mas percebe-se um amor pela cidade, pela ilha, que escapa em cada poro do personagem principal. Afinal, não somos maniqueístas e isso o autor consegue trabalhar muito bem. Recomendo a leitura.

domingo, 7 de outubro de 2018

O amor segundo Buenos Aires


Resenha
Livro: O Amor Segundo Buenos Aires
Autor: Fernando Scheller
Ano de lançamento: 2016
Número de páginas: 288

O Amor Segundo Buenos Aires é, realmente, um livro sobre esse sentimento que nos move: o amor, em todas as suas formas e manifestações. O livro é o romance de estreia do jornalista Fernando Scheller.

Confesso que me interessei pelo livro a partir do título e pela foto de capa, que é magnífica. O titulo me chamou atenção pois tenho sonho de conhecer toda a América Latina, inclusive a cidade portenha, capital da Argentina. Não consigo pensar em cenário melhor para a história. Aliás, Buenos Aires não é somente pano de fundo da história. É uma das personagens principais. Mas vamos ao enredo.

Hugo, um brasileiro, decide se mudar para Buenos Aires por amor  à sua namorada, Leonor,  que tenta se reaproximar do pai argentino. Mas, logo no primeiro capítulo do livro, somos surpreendidos com o término desse relacionamento. O capitulo narra o momento que Hugo deixa Leonor, pois não enxerga mais reciprocidade naquela união, que se tornara unilateral. Nesse momento, já podemos observar uma inversão : é o homem que sofre pela mulher, não ao contrário. Ponto positivo já no começo do livro.
A partir disso, todos os capítulos são narrados por personagens diferentes , que falam sobre uma outra pessoa. Por exemplo, o primeiro capítulo se intitula: Leonor, segundo Hugo. Todos os capítulos obedecem à essa estrutura. Achei ótimo, pois nos apresenta a história sob variados pontos de vista.

Além de Hugo, temos Carol, uma comissária de bordo que nutria uma paixão platônica pelo Hugo; Eduardo, o melhor amigo de Hugo; sr Pedro, pai de Hugo. E Buenos Aires, que se torna um dos amores do nosso personagem principal, amor , esse sim, correspondido.

É importante destacar a presença de um casal homossexual na trama: Eduardo e Daniel. Um dos casais mais apaixonantes que já tive o prazer de acompanhar a história. O amor desse casal é retratado de maneira fluida, não sendo a sexualidade deles o que os determina, apenas mais um espectro, uma característica dos seres humanos Edu e Dani, mas sem deixar de abordar os preconceitos e dificuldades vividas pelos homossexuais em nossa sociedade.

O livro toca em temáticas sensíveis, como o aborto, de maneira não sensacionalista. Todos os personagens são bem reais, nada maniqueístas. Me identifiquei facilmente com todos eles, pois somos assim: seres não perfeitos, buscando conexões.
A obra é permeada por emoções. Muitas vezes me peguei rindo, chorando, pensando. Gosto de livros que me provoquem sensações, seja de que natureza for. Esse me provocou emoções diversas.

Acredito que o livro fale sobre conexões: aquelas que podemos encontrar com nossos amigos, ao longo da vida, que podem nos ajudar e estar do nosso lado muito mais que nossa família; aquela com nossos pais, onde alguns tem relacionamentos confusos, paradoxais, outros possuem uma relação mais leve , de puro amor; com nosso (s) amor(es), que conhecemos ao longo de nossa vida. Sobretudo, identificação com um lugar, o qual nos sentimos em casa. Esse lugar também pode ser uma pessoa. O capítulo final é homônimo do titulo do livro. Traz a cidade de Buenos Aires dissertando sobre o amor.

O autor descreve muito bem os locais da cidade portenha, aumentando muito a minha vontade de conhecer esse local. Todo capítulo vem com um mapa do lugar de Buenos Aires importante para o personagem em questão.

A obra fala sobre amor em todas as suas formas, manifestações, pluralidade existente. Em tempos de ódio, é melhor andar amado. Recomendo a leitura!

“Se você já amou demais
Se acredita que todo amor vale a pena
Esse livro é para você.”

2001- Uma odisseia no espaço

                                                               Resenha   Livro: 2001- Uma odisseia no espaço   Autor: Arthur ...