domingo, 1 de julho de 2018

Jubiabá


Resenha
Livro: Jubiabá
Autor: Jorge Amado
Ano de lançamento: 1935
Jubiabá é o quarto livro de Jorge Amado que leio. Os três anteriores foram: Dona Flor e seus dois maridos; Capitães da Areia e Tenda dos Milagres. Sou apaixonada pelo estilo de escrita do autor, pelas críticas sociais que sempre estão presentes em suas obras. Com a leitura de Jubiabá, me torno ainda mais admiradora desse grande autor brasileiro. O livro foi escrito quando ele tinha apenas 22 anos. O processo de escrita do livro teve início na Bahia e foi finalizado no Rio de Janeiro.
O livro conta a história de Antônio Balduíno, um dos primeiros protagonistas negros da literatura brasileira. Baldo, como também era conhecido, passou grande parte da sua infância no Morro do Capa Negro, na Bahia. De lá de cima, gostava de observar a cidade, com suas cores, luzes. Foi criado por sua tia Luisa, que foi para ele, pai e mãe, tudo que ele tinha na vida. Baldo passou grande parte de sua vida ouvindo histórias na porta da casa da sua tia. Zé Camarão, uma referência para Baldo, contava ABCs de homens valentes. Um ABC é um tipo de cantiga popular na Bahia. Antônio cresceu com o desejo de possuir ele mesmo um ABC um dia, pois seria valente a tal ponto. Uma figura muito presente na vida de Baldo desde sua tenra infância até a fase adulta é Jubiaba, quem dá nome ao livro. Ele é um pai de santo, que cuidava de toda a comunidade do morro. Resolvia problemas entre famílias, mediava discussões, além de, obviamente, ser um líder religioso respeitadíssimo.
Logo pelo fato do romance levar o nome do pai de santo Jubiabá, e não do protagonista , podemos perceber como esse personagem  é importante na construção da identidade do protagonista. Assim como em todos os livros que li desse autor, o componente religioso é peça fundamental no desenrolar da trama. Os rituais religiosos, a perseguição que existia na época vinda do próprio Estado , contra os professantes das religiões de matrizes africanas, é bem retratada nesse livro, assim como o é em todos os outros. Longe de esgotar o tema e torna-lo repetitivo, Jorge Amado consegue trabalha-lo de maneira peculiar em cada um dos romances, trazendo uma aura de magia em todos os seus livros. Faz total sentido a repetição desse tema em suas obras, visto que Jorge Amado, quando foi deputado federal em 1945 pelo Partido Comunista do Brasil, foi autor da lei de direito à liberdade de culto religioso.
A tia Luisa trabalhava vendendo doces e carregava esses quitutes na cabeça diariamente. Por isso, acaba enlouquecendo. Quando sua tia enlouquece, Baldo é levado para viver com um comendador. Vive algum tempo lá, conformado com sua vida, até ocorrer um episodio que o leva a fugir da casa do comendador. Um fato importante a ser salientado é: nessa casa que Baldo conhece o grande amor de sua vida, Lindinalva, que era filha do homem que o abrigou.
A partir disso, Baldo passa a viver na rua, como mendigo, junto com outras crianças. Nesse ponto, o livro lembra bastante Capitães da Areia. A própria trajetória e comportamento de Antônio Balduíno carrega semelhanças com o chefe dos Capitães da Areia, Pedro Bala. Nesse momento, podemos acompanhar a vida dessas crianças. Uma vez li que Jorge Amado romanceava a vida das crianças de rua em seus livros. Mas Jorge Amado apenas confere protagonismo aos excluídos, mostrando que não é só de sofrimento que essas crianças vivem. Há momentos felizes em suas vidas, momentos de solidariedade e compaixão , os quais Jorge Amado relata. Ele dá voz aos marginalizados, em minha opinião, de maneira muito satisfatória.
Depois desse período, Baldo vira trabalhador nas plantações de fumo. Mas Antônio sempre levava em sua cabeça a ideia de que não seria escravo de senhores. Desde pequeno, ele desejava ser um negro livre e acreditava que sendo trabalhador, era escravo. Sempre viu nos trabalhadores a figura de escravos, vencidos pelo sistema. Por isso, nunca foi seu desejo parar em trabalho algum. Pulava de ocupação em ocupação, vendia seus sambas. Nesse ponto da venda dos sambas podemos perceber uma crítica. Baldo vendia seus sambas bem barato e não sabia o destino de suas letras. Até ouvir uma vez tocando em uma festa e descobrir que o homem para o qual ele vendera sua poesia, lucrava bastante com isso. Podemos perceber uma critica à apropriação nesse ponto. Além de trabalhar nas plantações, Baldo passou um tempo como trabalhador de circo, e lutador de boxe.
Ocorre um fato na trama que leva Baldo a mudar sua trajetória: atendendo à um desejo de Lindinalva, ele acaba tendo que criar o filho do amor de sua vida. Para isso, passa a trabalhar como estivador. Nesse ponto, há uma reviravolta: Baldo acaba descobrindo a força do trabalhador. A partir de uma greve dos operários, Balduíno percebe , se formando politicamente no trabalho, que os donos de fábricas, os burgueses, vivem da exploração das massas e que, o proletariado poderia se unir contra toda essa exploração do capital. Esse é um dos momentos finais do livro, muito emocionante, onde podemos perceber essa transformação no pensamento de Antônio. Apesar de romancear nesse ponto a união dos proletários, são momentos narrados de maneira tão doce, terna, ao mesmo tempo, com paixão, que aquecem o coração daqueles que acreditam na força dos trabalhadores contra a exploração, dos oprimidos pelos opressores.
Apesar de haver um protagonista, a partir do qual toda a história gira, não há somente um narrador na história. Todos os personagens que passam pela trama , deixam sua marca, narram, contam , de alguma maneira, um pedaço do enredo. O(s) narrador(es) é atravessado pelos próprios pensamentos o tempo inteiro, conferindo uma veracidade, de maneira semelhante ao que ocorre em Crime e Castigo, de Dostoiévski.
Por toda a importância dos temas sócias retratados, pela escrita rica em detalhes, que te levam a imaginar exatamente aquelas cenas do livro, vale a pena e muito, a leitura das poucas mais de 200 páginas desse clássico, de um dos mais importantes autores do mundo, que é brasileiro. Vida longa à literatura brasileira!!

domingo, 24 de junho de 2018

Suicidas


Resenha
Livro: Suicidas
Autor: Raphael Montes
Ano de lançamento: 2012

Desde pequena, sou uma leitora ávida: amo literatura e leio livros ficcionais de todos os tipos: sejam eles histórias de romance, literatura clássica, suspense, aventura, entre outros. Já li diversos livros policiais e recentemente descobri um novo tipo de literatura: noir. Esse tipo de escrita, que também se estende à obras cinematográficas, mistura elementos de suspense, literatura policial, onde o mais importante não é a descoberta do criminoso que está sendo investigado em si, mas o desenrolar da trama, a história contada, a atmosfera sendo sentida. Esse tipo de literatura é bem mais rica, no meu ponto de vista, quando comparada com a literatura policial clássica, onde o objetivo inicial e final é a descoberta do culpado. Entretanto, não é a esse tipo de literatura que me refiro na presente obra, Suicidas, mas o tipo clássico de literatura policial.

Raphael Montes é autor desse livro, que aliás, é seu romance de estreia. Após o lançamento de Suicidas, ele já tem outros títulos publicados, como: Dias Perfeitos, O Vilarejo e Jantar Secreto. Tem despontado como uma das grandes revelações da literatura nacional, tendo sido finalista dos prêmios nacionais Benvirá e Machado de Assis. Sua obra Suicidas foi adaptada para o teatro em 2015.

Após pontuar esses aspectos, vamos ao enredo do livro. Nove jovens, moradores da zona sul carioca, decidem se matar em um dia de setembro, em uma casa de campo, praticando roleta russa. Por que jovens, aparentemente com uma vida perfeita, decidem pôr um fim à ela, de maneira tão violenta? Porém, no dia da roleta russa, algo não sai como o esperado e os corpos são encontrados carbonizados, sendo possíveis de serem identificados somente com o fornecimento de arcada dentária. Um ano após esse acontecimento, a polícia, representada pela figura da delegada Diana, convoca as mães desses suicidas para tentar esclarecer as motivações de cada um dos jovens, à luz de novas pistas: foi encontrado um caderno com as anotações de um dos participantes, Alessandro Parentoni. Esse participante, além de possuir um diário, foi escrevendo um livro em tempo real, narrando todos os acontecimentos do dia da roleta.

A partir disso, a narrativa se passa em três distintos tempos: vamos acompanhando a leitura do diário de Alessandro, do seu livro e a gravação da reunião com as mães.
Uma coisa já começou a me incomodar nesse momento: por que somente as mães foram chamadas para essa reunião? Por que não os pais, os responsáveis? Pode parecer um ponto sem importância, mas contribui para perpetuar a ideia de que a educação de um filho é responsabilidade única e exclusiva da mãe.

A policial Diana vai lendo o livro e o diário de Alessandro, considerando tudo aquilo como prova cabal e definitiva dos fatos passados. Se considerarmos toda a adrenalina que ocorria enquanto a roleta russa se desenrolava, como podemos considerar que o Alessandro conseguiu narrar tudo aquilo em tempo real? Como atestar que a história narrada pelo ponto de vista de um único personagem é a verdade? Esses fatos, básicos, não parecem incomodar a polícia. Achei essa uma enorme falha no livro. O motivo da reunião é torpe: não vejo realmente o sentido de levar mulheres, que já foram despedaçadas pelo suicídios de seus filhos, a reviver todos aqueles momentos, pois a policial faz a leitura da obra de Alessandro, que narra em detalhes os acontecimentos.
Achei que o livro exagera na violência. Tudo bem que é um livro policial, já esperamos esse tipo de cena, mas acredito que tenha violência gratuita. Podemos considerar o fato dos jovens estarem passando por momentos de tensão extrema e liberar o que há de mais podre no ser humano, todavia, ainda sigo firme na minha posição de que algumas cenas não precisariam estar presentes, tais como estupro, necrofilia, conferindo um caráter meio sádico ao enredo.

 À primeira vista, os personagens  podem parecer que são caricatos, estereotipados. Temos um playboy da zona sul, forte, meio burro, que só pensa em mulheres; uma mulher feminista, considerada feia para os padrões de beleza; um emo depressivo com tendências suicidas; um nerd que ama escrever e não se dá bem com mulheres. Como falei, o autor tenta desenvolver melhor esses personagens e ir além do estereotipo inicial, sendo em alguns momentos bem sucedido e em outros, nem tanto. Já li uma obra do mesmo autor, Dias perfeitos. Nessa obra, também temos um personagem tímido, nerd, que não se dá bem com as mulheres. Parece repetir uma fórmula.

Acaba a leitura, fiquei surpresa com a reviravolta presente. Porém, analisando melhor, pude perceber que o autor vai deixando várias pistas ao longo da trama, e que, para um leitor mais atento, ficaria fácil de perceber. Assim como em Dias perfeitos, temos aqui um final inesperado, me levando a levantar novamente a hipótese de fórmula que parece dar certo, repetida. Não posso afirmar isso lendo apenas dois livros do autor, mas foi a impressão que ficou comigo.

Acredito ser importante avisar que a obra não deve ser lida por pessoas que possuem depressão, que tenham algum tipo de tendência suicida, pois, como já foi apontado por diversos órgãos, tais como OMS, falar sobre esse assunto acaba ativando gatilho em pessoas que já possuem tais tendências a tentarem realizar esses atos.

O livro contém muitas páginas. Raphael usa de artifícios para te prender até o fim do livro, mas, não por ser excelente, apenas pelo motivo de querer chegar ao fim. Esse foi meu caso. Achei o livro bem problemático em todos os sentidos que falei acima, além da motivação para tudo, que acabamos descobrindo ao final, ser extremamente torpe. 

domingo, 17 de junho de 2018

O caminho de casa


Resenha
Livro: O caminho de casa
Autora: Yaa Gyasi
Ano de lançamento: 2017


Duas meias irmãs, separadas por ocasião de seu nascimento, fruto de um estupro, que nunca vieram a se conhecer. Essa é a premissa inicial da obra O caminho de casa, da escritora ganense Yaa Gyasi.

Esi e Effia , as irmãs, foram criadas por famílias diferentes. Effia foi criada por uma mulher que a odiava e que a vendeu para ser esposa de um britânico, indo morar em Cape Coast, por ocasião de seu casamento. Esi, pelo contrário, teve uma infância recheada de carinho, criada com todo amor por sua família, mas quando sua aldeia perde uma batalha, ela é separada de sua família e levada como escrava. A partir desse ponto, teremos a narração da história de diferentes personagens, todos eles descendentes das duas irmãs. Cada capítulo nos introduz à vidas diferentes, porém ligadas entre si. Longe de conferir ao texto uma quebra ou deixá-lo menos dinâmico, acredito que essa estrutura tenha promovido o efeito contrário: conferiu dinamismo à prosa.

O fato de traçar uma genealogia de família, faz lembrar o livro Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez, onde o autor colombiano conta a história de várias gerações da família Buendía. Yaa consegue um feito semelhante a Gabo. Sua forma de contar história me lembra a autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie.

 

Mais do que contar a história de uma família, observamos o retrato do negro durante vários séculos ate chegar aos dias atuais, tendo como cenário ora Gana ora Estados Unidos. Podemos sentir na pele como a escravidão foi cruel e trouxe consequências para a vida dos descendentes de negros escravizados que ultrapassam séculos. É muito interessante, nesse sentido, o esforço feito no livro de falar sobre a ancestralidade de negros, visto que, em países onde houve a escravidão, é impossível conhecer a sua hereditariedade.

 

A escravidão é retratada de forma muito dolorida, levando-nos, leitores, a refletir sobre como um regime perverso se sustentou durante muito tempo em diversas sociedades. Podemos acompanhar no livro também como os britânicos apreciavam a guerra existente entre os povos fânti e axânti, pois conseguiam lucrar com essa briga, com o comércio de escravos.

 

Podemos observar como a escravidão influenciou a forma como os negros são vistos pela sociedade e instituições em geral, fato que tem origem na sociedade colonial e escravocrata. É impossível não traçar paralelos com o nosso país. Um local extremamente racista, de maneira velada. Onde negros e negras são mortos e mortas pelo simples fato de ter a pele mais escura, não conseguem empregos, não conseguem estudar e ter acesso à uma vida que se equipare à dos brancos. É necessário que façam esforços sobre humanos para conseguir conquistar algo na vida. Enquanto o número de homicídios de mulheres brancas diminui no Brasil, o de mulheres negras aumentou. Vivemos genocídio da população jovem e negra.

 

A autora toca em um importante ponto: fala sobre o colorismo e a tentativa de deixar aquele negro de pele mais clara como sendo não negro. Também é abordado no enredo o tema da solidão da mulher negra, que é relegada à viver sozinha ou se subjugar à relacionamentos com homens que não acreditam que uma mulher negra seja “feita para casar.”

 

De maneira leve e poética, nos leva a refletir acerca de temas tão caros e tão urgentes em nossa sociedade. Leitura necessária e atual, que tem todas as características para se tornar um clássico.


domingo, 3 de junho de 2018

Alvo Noturno


Resenha
Livro: Alvo Noturno
Autor: Ricardo Piglia
Lançamento : 2011



Ricardo Piglia foi um escritor argentino, nascido em 1941, que morreu no ano de 2017 em consequência da doença que descobriu em 2014: esclerose lateral amniotrófica. Autor de cinco romances, dentre eles Alvo Noturno , Dinheiro Queimado e inúmeros ensaios. Pelo livro Alvo Noturno recebeu o prêmio literário venezuelano Romulo Gallegos, já concedido a Gabriel García Marquez, Roberto Bolaños entre outros, além do prêmio Dashiel Hammet.

Alvo Noturno é um livro de narrativa policial na superfície, mas que possui muitas camadas a serem desvendadas. Faz parte da literatura noir, que se caracteriza por histórias que misturam terror, mistério e elementos policiais, mas que vai além da investigação policial.  Assim faz Piglia nesse romance: temos um crime, que já é apresentado nas primeiras páginas. Em um povoado no interior é assassinado Tony Durán, um porto riquenho negro, morador de Nova Jersey, que chega ao interior da Argentina com muito dinheiro. Tony teve um caso com as gêmeas Belladona, filhas de um dos mandachuvas daquele local.

Emilio Renzi, alter ego de Piglia, já presente em outras obras, é enviado de Buenos Aires para o povoado para investigar a morte, mas seu principal objetivo é traçar um painel social daquele local. Essa obra é muito mais que um romance policial usual, visto que o mais importante não é conhecermos o assassino, o responsável pela morte. O crime fica na superfície. O autor está mais preocupado que consigamos conhecer um pouco mais sobre a sociedade argentina retratada na época.

O livro se passa na década de 1970, a mesma época da ditadura na Argentina. Temos personagens usuais de romances policiais, como o  Croce, o comissário investigador, que possui métodos nada comuns para solucionar seus casos de crime, se internando em manicômios ou indo para a cadeia de vez em quando para pensar, adota métodos indutivos e não dedutivos, um excêntrico em sua essência.

Ricardo Piglia narra com êxito o processo de desconcentração industrial que ocorreu na Argentina, assim como suas consequências. Os desmandos e crueldades do capitalismo ficam bem evidentes ao longo de toda a trama. Também podemos perceber por que a chegada de Durán em povoado do interior causa tanto espanto: ele era um negro, com dinheiro. Quase não existem negros na Argentina, pois foram exterminados, como fica bem evidenciado no romance.

Podemos observar a extrema concentração fundiária que existe no meio rural argentino, onde temos uma pequena parcela da população possuindo muitas propriedades de terra, enquanto a maior parte fica relegada ser empregada dessa minoria rica, sem nenhuma perspectiva de melhoria, pois os possuidores de terra já herdam a mesma, por ocasião de nascimento.

O estilo noir, o fato da  revelação da identidade do criminoso não ser o ponto principal do livro, se constituindo, mais do que isso, em um  painel da sociedade argentina da época, me lembra muito a prosa de Leonardo Padura, escritor cubano, autor de romances policiais nada convencionais também, onde, assim como em Alvo Noturno, o principal é conseguirmos conhecer um pouco mais sobre as complexas sociedades, de Piglia, a argentina e de Padura, a de Cuba. Adoro livros nesse estilo e fiquei extremamente feliz em poder conhecer mais um autor latino-americano que contemple esse tipo de escrita. A América Latina é muita rica em literatura, basta sabermos procurar.

domingo, 27 de maio de 2018

A confissão da leoa


Resenha
Livro: A confissão da leoa
Autor: Mia Couto
Ano de lançamento : 2012

Tenho feito um esforço para fazer leituras de obras que não sejam oriundas dos locais hegemônicos de produção cultural: Estados Unidos e Europa. Estou procurando livros de autores provenientes do continente africano, asiático, américa latina, nessa tentativa de conhecer e valorizar o contra hegemônico. Foi em uma dessas buscas que conheci Mia Couto, escritor moçambicano e também biólogo, ganhador de muitos prêmios literários, dentre eles o Prêmio Neustadt, tendo sido  somente ele e João Cabral de Melo Neto os únicos escritores de língua portuguesa a recebê-lo.

A confissão da leoa é um livro que aborda um tema muito urgente na sociedade moçambicana, e que encontra ecos na nossa sociedade brasileira também: a posição da mulher. O autor começa o livro com a seguinte frase: Deus já foi mulher.  Antes de Deus ser chamado de Nungu, segundo  lenda da criação do universo,  o Senhor do Universo, ele era mãe. A mulher já ocupou, outrora, uma posição de superioridade na sociedade.
O enredo do livro é simples e foi inspirado em uma situação que o próprio Mia couto vivenciou enquanto biólogo: uma aldeia começa a ser atacada por leões, que atacam somente mulheres; para combater os animais, é chamado um caçador, Arcanjo Baleiro. O livro é narrado por duas pessoas: o caçador e Mariamar, uma moradora da aldeia de Kulumani que acabou de perder sua irmã, Silência, morta pelos leões.

“Até que os leões inventem as suas próprias histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça.”

Nesse trecho, podemos perceber uma metáfora: os leões representam as mulheres e os caçadores, os homens. Essa não é a única metáfora do livro, que é simplesmente recheado delas. Mia Couto possui uma prosa belíssima, por muitas vezes poética, emocionante, mágica.

O livro narra a vida de todas as mulheres, que já nascem mortas. Uma fala muito marcante é de Hanifa, mãe de Mariamar, quando questionada sobre a paz que será obtida pela morte dos lões:

“ Qual paz? Talvez para eles, os homens-disse- Por que nós, mulheres, todas as manhãs continuamos a despertar para uma antiga e infindável guerra.”

As mulheres não são seres possuidores de direitos naquela sociedade: são sempre representadas por seus maridos, pais, parentes. Muitas das vezes, esses próprios atores são responsáveis pela vida de desgraça que as mulheres levam, abusando e oprimindo as mesmas.. Não tem a possibilidade de fala, somente levam uma vida de servidão. Lá em Moçambique,  muitas mulheres trabalham em casa, nas lavouras, e esse tipo de trabalho é visto como uma ajuda ao marido, não sendo valorizado.

Além do ataque de leões, existem casos de mulheres que estavam sendo estupradas, e essas situações não encontravam repercussão na aldeia, visto que se tratava, apenas de mulheres, que nem seres humanos são, servindo somente para a servidão e procriação.

Mas , em contrapartida, temos no livro, -pelo ponto de vista das mulheres representadas nele: Mariamar; Naftalinda, a esposa do administrador, que se rebela contra toda a situação da mulher; Hanifa, que conhece a situação, mas não consegue se revoltar- possibilidades de reflexão belíssimas e tocantes. Couto consegue representar esse eu lírico feminino de maneira belíssima: conseguimos sentir a sofreguidão enfrentada por essas mulheres, que antes de se tornarem não pessoas, eram deusas, que tudo perderam.  Como mulher, vivendo no Brasil, país extremamente machista e desigual para as mulheres, consegui me identificar e sentir a dor sentida por aquelas mulheres, doeu muito em mim.

Arcanjo, apesar de ser homem, retrata as mulheres sob um ponto de vista positivo: como geradoras, seres humanos, dotados de ancestralidade, divindade. Ele tem uma fala incrível, ao final do livro, que trago aqui:

“Naquele momento estou rodeado de deusas. De um lado e do outro lado da despedida, naquele rasgar de mundos, são mulheres que costuram a minha rasgada história.”

Ao final do livro temos a confissão da leoa: nós, como mulheres, somos leoas, temos que enfrentar toda essa sociedade que nos odeia, quando confessamos, quando gritamos a opressão que sofremos, somos taxadas de loucas. É isso que o livro visa trazer: mostrar a história sob o ponto de vista das leoas, todo seu sofrimento e possibilidades de resistência e mudanças. A mensagem ao final é, que se nos unirmos, temos a potencialidade de transformar, minimamente, a sociedade em que vivemos. Leitura essencial !!!!

domingo, 20 de maio de 2018

Eu sou a lenda


Resenha
Livro: Eu sou a Lenda
Autor: Richard Matheson
Ano de lançamento: 1954

Clássico da literatura do terror, o livro Eu sou a Lenda já foi adaptado três vezes para o cinema: em 2007, o filme com mesmo nome, protagonizado por Will Smith; The last man on Earth, de 1964 e The Omega Man, de 1971.

No final dos anos 1970, uma praga, que parece ser oriunda de uma explosão de uma bomba atômica, é responsável por transformar as pessoas em vampiros. Robert Neville é um homem que consegue sobreviver à essa praga e não ser infectado, mas perde toda sua família, sua esposa e filha morrem em decorrência da praga. Acompanhamos a rotina do último homem da terra, seus dias repletos de solidão e angústia. Um ponto a ser destacado: o livro foi lançado na época da Guerra Fria, então podemos traçar um paralelo com o medo de ataques iminentes de bombas atômicas com a causa da praga no livro: uma explosão atômica. Nenhuma obra deve ser avaliada fora do seu contexto histórico.

Acompanhamos a trajetória de Neville: seus esforços para tornar sua casa impenetrável para os vampiros, único local em que ele se sente protegido. Neville pode caminhar durante o dia pela cidade, porém à noite os vampiros saem e ele precisa ficar preso dentro de sua própria fortaleza. As descrições dessa parte do livro são extremamente angustiantes, pois conseguimos sentir a solidão que o protagonista sente. Somos levados a fazer reflexões psicológicas sobre essa situação: o que sentiria o último homem do mundo?

Um ponto muito interessante no livro são as tentativas de explicação para a causa da doença que terminou por transformar as pessoas em vampiros. Do ponto de vista da literatura clássica, os vampiros são os mesmos: temem a luz do sol, o alho, a cruz. Mas, ao contrário de explicações místicas para esses fatos, o protagonista tenta explicar cientificamente todas essas características dos vampiros e a origem do problema. Vemos um Neville extremamente concentrado, seguindo métodos científicos afim de encontrar explicações plausíveis para os fenômenos que ele estava observando. O protagonista aprende coisas básicas, desde como manusear um microscópio (aparelho usado para aumentar objetos microscópicos) até mesmo teorias mais pesadas da Biologia. Por eu ser bióloga, achei muito interessante toda essa parte. Richard trabalha muito bem com a filosofia da ciência: será que os cientistas jogam fora as teorias que não se adequam aos fatos? Será que eles as adaptam? Podemos refletir sobre essas e outras investigações, enquanto acompanhamos a pesquisa de Neville.
O protagonista é um pouco machista: observa as mulheres vampiras, desejando-as, falando algumas vezes, inclusive, da possibilidade de estupro dessas vampiras, que em sua visão, ficavam lascivamente se oferecendo para ele. Sobre esse ponto, tenho algumas considerações: obviamente, ler isso sobre mulheres não me agrada, mas, refletindo, para não correr o risco de não estar descontextualizando a história, combina bastante com o enredo. Imaginem, o último homem da terra, sabendo que nunca mais teria relações sexuais com nenhuma outra mulher, é entendível esse tipo de pensamento por parte dele. Na solidão em que se encontrava, no ambiente de tensão, as características mais primitivas, mais horrendas dos seres humanos vem à tona. Acredito que tenha sido isso que o autor quis nos mostrar.

Em determinados momentos do livro , Neville reflete sobre os verdadeiros monstros da história: será que os vampiros são responsáveis pelo mal que os assola? Ele tem outra possibilidade de sobrevida, a não ser que matem, tomem o sangue à força? São questões para se pensar. O livro é um clássico, deve ser considerado como tal, pois nos abre infinitas possibilidades de interpretação. Vale a pena a leitura.

domingo, 13 de maio de 2018

Fahrenheit 451


Resenha
Livro: Fahrenheit 451
Autor: Ray Bradbury
Ano de lançamento: 1953

A distopia é a filosofia ou pensamento baseado em ficção que representa a antítese, o contrário da utopia. De acordo com a revista Galileu, é uma história com uma lição, que em geral, envolve a denúncia de regimes ditatoriais, tirânicos e autocráticos. Em suma, é uma janela escancarada para as consequências de qualquer tentativa de moldar e dar direção a algo tão plural quanto a civilização.

Fahrenheit 451 é uma distopia, um dos livros clássicos da ficção científica, obra-prima do autor. É importante levarmos em consideração o contexto do lançamento do livro, que se deu após o fim da Segunda Guerra Mundial, sendo uma clara crítica à censura intelectual promovida pelo nazismo.

O livro conta a história de Guy Montag, um bombeiro, que, ao invés de apagar incêndios, faz o trabalho inverso: é um incendiário. Nessa sociedade distópica, os bombeiros colocam fogo em livros, pois eles são muito perigosos, e foram proibidos à população.  Ele é casado com Mildred, uma mulher que passa os dias vendo telões e conversando com a TV e não troca nenhuma palavra de profundidade com seu marido. Guy leva sua vida normalmente, fazendo aquele trabalho que foi designado para fazer, sem refletir criticamente sobre, até conhecer sua nova vizinha: Clarisse.

Clarisse é uma adolescente, mas faz o que ninguém mais nessa sociedade tem a ousadia de fazer: pensar. No mundo do livro, as pessoas não leem, não refletem, necessitam de diversões instantâneas, saberes resumidos, fluidez, apatia, analfabetismo político. Ninguém pensa por si próprio, são levados a pensar, a sentir e não apreender, nem se envolver.
Voltando à Clarisse. Ela desperta no protagonista a vontade de pensar, de observar a natureza, contemplar o outro, assim, conhecendo a si mesmo. Podemos traçar paralelos com nossa sociedade atual, onde vivemos com o nariz enfiado em nossas telas de celulares, computadores e televisores, e não nos olhamos, não conversamos, não nos sentimos, não nos apreendemos. A realidade virtual é a que importa. O impressionante é que o autor criticava esse modelo de sociedade há mais de meio século atrás.

A sociedade do livro é – assustadoramente, devo acrescentar- parecida com a nossa. Nas escolas, não há professores. Os alunos aprendem com telas, onde passam vídeo aulas, semelhante ao que tentam empurrar para nossos estudantes atualmente: desvalorizando a profissão dos professores. Escolas onde os alunos não podem questionar, apenas aceitar. Existe um momento que a Clarisse questiona: me chamam de anti-social por não me encaixar nesse modelo de escola, porém eu observo, aprendo. Eles ficam parados em frente às telas. Quem é o verdadeiro anti-social? O que se encaixa nessa sociedade doente ou não?
Trago abaixo um trecho que exemplifica o papel da escola e da educação na sociedade do livro, e que podemos traçar paralelos com a nossa também:

“A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda a parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?”

Um ponto de destaque também: quase não existe parto normal na história. Os bebês nascem por cesárea. Semelhante à nossa realidade? Exatamente. Desumanizamos o modo de ser, estamos desumanizando, afastando a nossa humanidade desde a via do nascimento. Não estou dizendo que cesárea não é uma via humana de nascer, óbvio que é. Mas as altas taxas dessa cirurgia que salva vida, não eram para existir em condições normais.

O conhecimento pode ser perigoso. Os livros nos fazem pensar, nos desmobilizam, nos fazem sair do senso comum. Enfrentamos atualmente na sociedade brasileira um sem número de manifestações de ódio ao conhecimento, à reflexão, à ciência. Penso continuamente onde iremos parar com essa paixão ao avesso desenfreada pela não reflexão. 

O fascismo, que segundo Márcia Tiburi, ocorre quando não nos colocamos no lugar do outro, quando não praticamos alteridade, ronda e atravessa nossa sociedade. Diante disso, os livros, de literatura ou não ficcionais, são responsáveis por nos abrir os olhos. Penso que a literatura é importante, pois nos faz colocar no lugar de outra pessoa, praticamos empatia, sentimento tão importante, nessa nossa modernidade líquida, onde somos levados continuamente a nos desconectar verdadeiramente do outro que está ao nosso lado. Citando um trecho do filme argentino Medianeras: “Tantos quilômetros de cabos servem para nos unir ou para nos manter afastados, cada um no seu lugar?“.  Eis a questão. Por isso, digo : vida longa aos livros.

Abaixo, segue um trecho ,  que acho perfeito para fechar a resenha, que resume um dos papeis da literatura em nossa vida.

“ A maioria de nós não pode sair correndo por ai, falar com todo mundo, conhecer todas as cidades do mundo. Não temos tempo, dinheiro ou tantos amigos assim. As coisas que você está procurando, Montag, estão no mundo, mas a única possibilidade que o sujeito comum terá de ver noventa e nove por cento delas está em um livro. Não peça garantias. E não espere ser salvo por uma coisa, uma pessoa, máquina ou biblioteca. Trate de agarrar a sua própria tábua e, se você se afogar, pelo menos morra sabendo que estava no rumo da costa.”

2001- Uma odisseia no espaço

                                                               Resenha   Livro: 2001- Uma odisseia no espaço   Autor: Arthur ...