domingo, 22 de abril de 2018

O professor


Resenha
Livro: O Professor
Autor: Cristovão Tezza
Lançamento: 2014

Revisitar nosso próprio passado pode ser uma experiência traumática. A obra O Professor, do escritor brasileiro Cristovão Tezza, autor de O Fiho Eterno, faz justamente isso. Heliseu é um professor da disciplina filologia românica da universidade e que está indo receber uma homenagem na faculdade em que leciona. O tempo cronológico do livro é a manhã em que Heliseu está se aprontado para comparecer à homenagem, porém, ao longo dessa manhã, o professor acaba rememorando sua vida inteira: o seu casamento; sua paixão por uma ex aluna; sua relação com o filho homossexual, entre outros fatos.

Ao mesmo tempo em que temos uma recapitulação da vida individual de Heliseu, tem-se no livro uma retomada da história do Brasil, desde os tempos da ditadura militar, passando por todos os governos, incluindo Lula e Dilma Roussef. A todo momento tem-se a passagem do plano individual para o coletivo e vice-versa.

O livro é muito bem escrito. Como o personagem principal é professor de filologia românica, disciplina que aborda a origem da língua, há trechos de livros com linguagem erudita, mas que são facilmente compreensíveis através do contexto. Mas a linguagem majoritária do livro carrega traços da oralidade. Pode-se perceber expressões características da língua falada no texto escrito.

A todo momento no livro o personagem questiona a velhice, onde pude fazer um paralelo com a matéria que ela lecionava na faculdade: assim como sua disciplina, que ao longo dos anos, tem sido considerada inútil, pelos discentes e docentes, visto que nenhum outro docente gostaria de pegar a matéria, ele mesmo, Heliseu, também foi envelhecendo e perdendo, aos olhos da sociedade, sua utilidade. Quando o personagem utiliza a expressão dos encontros intervocálicos, sugere que o tempo está passando, e a língua e a sociedade, assim como ele próprio, sofreram transformações.

 O livro é todo narrado do ponto de vista do Heliseu. Algumas passagens da vida dele até me fizeram criar um tipo de barreira para ser conquistada pelo personagem: o fato de ter enganado sua mulher com uma ex aluna; rejeitar o filho homossexual; não cuidar do filho quando pequeno, deixando a responsabilidade para sua esposa, entre outros. Mas, refletindo após a leitura do livro, acredito que seja esse o objetivo de Tezza: mostrar que somos seres imperfeitos e contraditórios. Em nossa intimidade, temos atitudes que seriam consideradas desrespeitosas. Tezza nos desnuda, ao mesmo tempo que nos mostra toda a intimidade de Heliseu. Afinal, quem tem coragem de contar sua história, nua, crua e sem floreamentos?

domingo, 15 de abril de 2018

Orlando: Uma biografia


Resenha
Livro: Orlando
Autora: Virginia Woolf
Lançamento: 11 de outubro de 1928

Virginia Woolf nasceu em 1822 na Inglaterra e se tornou uma das mais importantes figuras da literatura moderna. Estreou na literatura em 1915, com o romance The Voyage Out. Virginia sofria de profunda depressão e bipolaridade, e veio a se matar em 1941, jogando-se em um rio.

Apesar de ter sido casada a vida inteira com Leonard Woolf, crítico literário, teve um romance com sua amiga Vita Sackville West. O livro Orlando é uma carta de amor à sua amante Vita. Nessa obra prima da literatura mundial, temos um biógrafo que acompanha a vida de Orlando, um personagem imortal, durante quatro séculos: o começo da história se dá na era elisabetana na Inglaterra, no século XVI até chegar à segunda década do século passado. Durante todo esse tempo, Orlando morou em vários países diferentes. Um dos pontos interessantes é que o livro termina no tempo presente (presente da escritora, naquela época), no dia 11 de outubro de 1928, mesma data do lançamento do romance. Apesar de acompanhar a trajetória da personagem durante quatrocentos anos, Orlando termina a história com apenas 36 anos.

Em um dia, quando Orlando tinha 30 anos, dormiu durante uma semana e acordou mulher. Simples assim. Sem sofrimentos ou dores. Orlando viveu 30 anos como homem e acorda mulher em determinado momento. Se a questão dos transgêneros já é polêmica nos dias atuais, imagina no começo do século passado? Virginia já entendia a questão de gênero há quase um século atrás e hoje em dia ainda lutamos pelos direitos das pessoas trans, homossexuais, da população LGBT de maneira geral. Ponto de destaque é que quando Orlando chega em sua residência como mulher, nenhum dos seus empregados duvida de sua identidade. Orlando já mandava um recado em plena década de 20 do século passado: devemos respeitar e legitimar a identidade de gênero de todas as pessoas. Abaixo segue um trecho que mostra como ocorreu a mudança de gênero de Orlando:

“A mudança parecia ter ocorrido completamente e sem sofrimentos, e de tal maneira que o próprio Orlando não demonstrava surpresa com ela. Muita gente, considerando isso, e sustentando que uma mudança de sexo é contra a natureza, esforçou-se para provar que  (1) Orlando sempre tinha sido mulher, (2)Orlando é, neste momento, homem. Deixemos biólogos e psicólogos decidirem. Para nós é suficiente constatar o seguinte fato: Orlando foi homem até os trinta anos; nessa ocasião tornou-se mulher e assim permaneceu daí por diante.”

É muito interessante a maneira como a autora aborda essa questão. Orlando era um sedutor quando homem, por vezes machista, acreditava que as mulheres deveriam estar sempre arrumadas, penteadas,castas,caprichosas e que viviam para servir aos homens, sendo sentimentais e temperamentais em exagero. Quando Orlando se torna mulher, passa a questionar tudo aquilo que aceitou como certo durante toda sua vida, sobre o gênero oposto que possuía. Seriam as mulheres mesmo frágeis, temperamentais? A autora aborda o machismo presente na sociedade através do estranhamento que Orlando sente sendo do gênero feminino ao constatar que na realidade, ser mulher vai muito mais além daquelas frivolidades que os homens diziam que as mulheres possuíam.

Em minha opinião, Orlando possuía um uma identidade de gênero fluida, se comportando ora como representante do gênero masculino, ora do feminino, como podemos constatar em um trecho abaixo:

“Embora diferentes, os sexos se confundem. Em cada ser humano ocorre uma vacilação entre um sexo e outro; e às vezes só as roupas conservam a aparência masculina e feminina, quando, interiormente, o sexo está em completa oposição com o que se encontra à vista.”

A autora abordou, através desse romance, a pluralidade existente nos seres humanos, somos diversos e complexos. Orlando, quando se descobre mulher, continua a ter atração por mulheres e também começa a sentir por homens.  A orientação sexual(por quem você se atrai) é independente de sua identidade de gênero, que é o modo como você se enxerga no mundo. Nesse ponto podemos enxergar um retrato de sua companheira Vita e a relação que as duas mulheres tiveram durante alguns anos.

Nesse romance também temos a passagem do tempo de maneira relativa, pois, apesar de atravessar quatro séculos, Orlando termina com 36 anos. Ou seja, existem pessoas com as quais dividimos pouquíssimo tempo de vida e que parecem tão intensos, que demoram séculos. Em contrapartida, podemos viver anos com outra pessoa e parecer que passou apenas um dia.

Além de todas as questões de gênero abordadas, machismo e passagem de tempo, a autora também fala sobre o fazer literário. Temos passagens belíssimas sobre como eternizar momentos através da literatura, o papel do escritor, do poeta, entre outros.

Somado à todos esses assuntos presentes no enredo, que por si só, já tornam a obra um clássico, temos a escrita maravilhosa de Virginia, que parece uma pintura. As descrições são minunciosas, por vezes imaginei a cena que estava lendo presente em um quadro, tamanha atenção aos detalhes dada pela autora. Também há a presença de forte desenvolvimento psicológico de seus personagens, fato que não era comum nos romances da época, que somente serviam para falar sobre determinados assuntos, sem desenvolver psicologicamente seus personagens, sendo esse mais um ponto que contribui para que a obra seja considerada um clássico atemporal, que deve ser lida, distribuída, refletida e compartilhada. Extremamente necessária nos dias atuais.

domingo, 8 de abril de 2018

A morte feliz


Resenha
Livro:  A morte feliz
Autor: Albert Camus

Por que vivemos e por que morremos? Segundo Albert Camus, só teme a morte aquele que teme a vida, pois a primeira é prerrogativa da última.  Autor franco-argelino, filósofo do absurdo, recebeu o prêmio Nobel em Dezembro de 1957. Sua mãe lavava roupas para fora e seu pai foi morto na Primeira Guerra Mundial, quando ele tinha apenas um ano. Seus familiares, por necessidade, preferiam que Camus trabalhasse como tanoeiro, mesma profissão de seu tio, mas estimulado e patrocinado por professores, prossegui seus estudos. De acordo com Camus, o absurdo está no paradoxo da existência humana: apesar do homem ser frágil, recusa-se a se deixar levar por uma vida vazia de sentido.

Em A morte Feliz acompanhamos a história de Mersault, um operário pobre, que acaba encontrando uma maneira de ganhar dinheiro: matando um ex amante de sua namorada. O homem , que é morto por Mersault logo na primeira parte do livro, não possuía pernas e tinha um intenso desejo de se matar, faltando-lhe coragem para realizar esse ato.

Para Mersault, um ponto necessário para a felicidade é o tempo. Enquanto passamos cerca de oito horas por dia presos em trabalhos que não gostamos, que sugam nossas energias, não teremos tempo para sermos felizes e viver a vida. Viver , e não apenas sobreviver, exige contemplação, reflexão. Quem é pobre, necessitado de bens materiais para sobreviver em nossa sociedade capitalista, não tem tempo de pensar e, portanto, de ser feliz.

A trama do romance é bem simples e pouco desenvolvida. Porém, acredito que o objetivo principal do autor foi cumprido: levar o leitor a refletir. A meu ver, a finalidade da obra é nos levar a pensar na vida e em sua finitude. O que dá sentido a vida é exatamente a consciência que possuímos de que um dia ela se esvai. A partir do momento que encaramos esse fato, estamos livres para viver todos os estágios da existência humana.

Livros que nos levam a pensar devem ser saboreados nos dias atuais, época de profundas transformações na sociedade humana, com informações vinte e quatro horas por dia. É necessário que façamos o exercício de refletir acerca da nossa existência. Como disse Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo, a leitura é uma atividade solitária, que nos leva a meditar. Eu vou além e acredito que, apesar de em primeira instância a leitura ser realmente uma atividade individual, as ponderações que esse ato nos traz e os debates devem ser compartilhados com nossos pares, a fim de que possamos enxergar novos horizontes e desvelar sentidos outros.


domingo, 1 de abril de 2018

A distância entre nós


Resenha
Livro: A distância entre nós
Ano de lançamento: 2006

Um livro, muitas reflexões. Ultimamente, tenho lido livros bem ricos, que me levam a pensar na vida e no sentido que atribuímos a ela. Mas a obra A distância entre nós, de Thirty Umrigar, me fez pensar mais do que os outros livros que li nos últimos tempos, pois aborda assuntos que me são muito caros: raça, classe, gênero, e sexualidade.

Através de uma narrativa fluida, porém não menos densa, a autora nos faz conhecer duas personagens tão distintas e tão semelhantes, ao mesmo tempo: uma empregada e sua patroa. A história se passa na Índia atual. A empregada se chama Bhima e passou vários anos de sua vida dedicados a servir sua patroa, Sera, uma mulher culta, bem educada e viúva parsi, uma casta de grande prestígio na Índia.

Unidas pelo fardo de ser mulher em uma sociedade patriarcal, ditada por costumes machistas, assim como na nossa sociedade ocidental, criam um laço, que é cultivado durante longos anos de convivência e dores compartilhadas: Bhima sofre por ser pobre, não ter estudos, estar sempre sendo enganada e passa para trás pelas outras pessoas; em contrapartida, Sera teve um casamento extremamente infeliz, com um marido violento que a agredia. Bhima sempre a ajudava após as surras de seu marido, cuidando dela, o que fez fortalecer ainda mais os lações entre as duas mulheres.

Um ponto interessante é que os personagens possuem camadas, não são, de maneira alguma, maniqueístas. Por exemplo, apesar de Sera tratar Bhima bem, diferentemente da forma como suas amigas tratam seus empregados, não permite que sua funcionária sente nas cadeiras de sua casa nem coma junto com sua família. A família de Sera se resume a sua filha Dinaz, que está grávida e seu genro Viraf, os dois tendo indo morar com Sera após a morte de seu marido. A família de Bhima é ainda menor: após ser abandonada por seu esposo, Gopal, e sua filha morrer, seu único parente é Maya, sua neta, filha de Pooja, sua filha que morreu. Maya, com apenas 17 anos, está grávida de um filho ilegítimo, fato que traz preocupações exacerbadas para sua vó, pois elas vivem em uma sociedade conservadora, onde a “honra” de uma mulher importa bastante.

Ao longo da trama, podemos observar a maneira cruel com que os pobres são tratados pela sociedade. Basta apenas a pessoa possuir dinheiro e poder para ser bem tratada, com dignidade. Quando a pessoa é desafortunada, até mesmo os médicos de hospitais, que deveriam cuidar dos pacientes de maneira isonômica, acabam preterindo uns em relação a outros.

Maya muitas vezes questiona sua vó sobre a importância que ela atribui à família de Sera. Quantas vezes não deixou sua própria família sozinha para ir cuidar dos parentes de sua patroa? Esse questionamento me fez lembrar do filme brasileiro “Que horas ela volta?”, pois nele vemos uma mulher que cuidou a vida inteira do filho da patroa e acaba não tendo tempo para cuidar de sua própria prole.

Podemos perceber também como a sexualidade da mulher, seja aqui no ocidente como no oriente, é podada a todo momento. Como o nosso corpo não nos pertence: a sociedade patriarcal acredita possuir e controlar nossos corpos. Quando subvertemos essa lógica machista e fazemos uso de nosso corpo para nossos próprios prazeres ou necessidades , somos rechaçadas, enquanto os homens são estimulados a todo momento a se conhecer, a usar os corpos de outrem para se satisfazer. Seja aqui ou em Bombaim.

Vemos duas mulheres unidas pela dor de suas vidas, mas ao mesmo tempo, quando a verdade de uma dura realidade se revela, a classe a qual cada uma pertence acaba separando-as. O recado é claro: os poderosos do mundo nunca irão aceitar de bom grado que a plebe alcance e galgue os mesmos patamares que os seus.

A autora consegue construir muito bem a humanidade de todos os personagens: como podemos ser destrutivos, ou mesmo a mão que acalanta em horas difíceis. Somos seres complexos, plurais, não podendo ser definidos de maneira simplista. Acabo minha resenha por aqui recomendando fortemente a leitura do livro.



domingo, 25 de março de 2018

Contato


Resenha
Livro: Contato
Autor: Carl Sagan
Ano de lançamento: 1985

Carl Sagan foi um cientista, astrônomo, astrofísico, cosmólogo, escritor e divulgador científico americano. Durante sua vida, promoveu a busca por vida extraterrestre através do projeto SETI. Foi professor na Universidade Cornell, obtendo seu doutorado em 1960 pela Universidade de Chicago.


O livro Contato pertence ao gênero ficção científica. Sua protagonista, Ellie Arroway, é uma cientista astrônoma, que estuda a vida extraterrestre. Antes de conhecermos a Ellie pesquisadora, tomamos conhecimento de sua trajetória percorrida até o momento atual: ela sempre foi uma criança curiosa e inteligente. Seu pai sempre a incentivou a estudar Ciências, mas morre quando ela era ainda pequena, ficando sua educação à cargo de sua mãe e seu padrasto, um homem machista que acredita que mulheres não deveriam se dedicar à ciência. A Ellie criança adorava estudar e questionar seus professores, que não viam com bons olhos uma menina gostar de estudar ciências, matéria em que se encaixavam somente os meninos.

Apesar de todas as dificuldades da época, em relação ao fato de uma mulher se envolver nas ciências, Ellie consegue estudar e se torna uma pesquisadora referência em sua área. Podemos sentir na pele o machismo que a protagonista sofre em sua área de atuação, visto que, se ainda hoje, mulheres cientistas são vistas com maus olhos, naquela época, as mulheres tinham mais dificuldade ainda em conseguir ser bem sucedidas em suas profissões. Ela nos relata todas as situações constrangedoras pelas quais passa apenas pelo fato de ser mulher. Em nossa sociedade, meninas são levadas à cursar áreas não científicas. Eu, como professora de ciências e Biologia, faço questão que minhas alunas saibam que são perfeitamente capazes de estudar as ciências que quiserem. Nesse sentido, é importante essa representatividade presente em sua obra.

Já adulta, Ellie trabalha no projeto Argus, uma estação montada com o objetivo de fazer contato com vida inteligente fora da terra, se existisse alguma do tipo. Em mais um dia monótono de trabalho, a protagonista identifica uma mensagem enviada por seres que vivem em Vega, um planeta que fica a 26 anos luz da terra. O livro se passa na época da guerra fria, e no começo podemos perceber as disputas que ocorriam entre a União Soviética e os Estados Unidos. É nesse clima de tensão que a trama se desenvolve A partir desse momento, cientistas de todo o mundo se empenham para decifrar a mensagem. Nesse momento, podemos perceber uma tentativa de cooperação entre todos os países do mundo, nos fazendo refletir sobre o sentido da humanidade, e do não sentido de fronteiras na Terra, afinal somos todos habitantes desse mesmo planeta.

A mensagem é decifrada: os seres inteligentes propõem a criação de uma máquina, sem mencionar os objetivos e destino dessa máquina, que é uma nave com cinco lugares. São escolhidos indivíduos de vários países, para haver uma grande representatividade.

No livro, são feitas reflexões riquíssimas sobre o fazer científico, a vida do cientista, que serve para quebrar a ideia do cientista não humano. A ciência positivista transmite ao povo leigo a sensação de que a ciência é neutra e o cientista um robô, que apenas executa o método cientifico. No livro, percebe-se que existem motivações externas para o fazer científico, o contexto sócio histórico, a cultura, religião, vão influenciar no curso da ciência.

São executados maravilhosos debates sobre ciência e religião. Um cientista pode agir como um religioso e um religioso possuir o ceticismo científico? Isso pode sim ocorrer, pois as personagens desse livro não são unilaterais, possuem várias camadas.
É importante destacar que a presidente dos Estados Unidos do livro também é uma mulher, além da protagonista feminina. Ideal para incentivar nossas meninas a se apaixonarem pela ciência.

Sou suspeita para falar de um livro que aborda ciência, pois cursei Ciências Biológicas, sou professora de Ciências, então para mim, ler esse livro foi apaixonante. Além das discussões levantadas, as descrições são feitas de maneira bem detalhada e cinematográfica, levando-nos a imaginar todas as cenas descritas no enredo.

Um livro para ser lido, discutido, ainda mais na época que estamos vivendo, de ódio à ciência. Não é maniqueísta e o final te deixa com muito mais dúvidas do que respostas, perfeito para quem entende que a ciência é movida pelas perguntas. Vale a pena a leitura das mais de 400 páginas.

domingo, 11 de março de 2018

A Incendiária


Resenha
Livro: A Incendiária
Autor: Stephen King
Ano de lançamento: 1980

A Incendiária, de Stephen King, possui um enredo simples e de fácil envolvimento: universitários sem grana aceitam participar, para receber a quantia de 200 dólares, de um experimento na faculdade em que estudam; Um dos estudantes se chama Andy e uma das estudantes tem o nome de Vicky. O experimento foi de uma droga alucinógena chamada Lote 6, e não foram fornecidos maiores dados sobre a substância em questão. Anos depois, Andy e Charlie se casam. Após a experiência, Andy adquire a capacidade de telepatia, ele consegue influenciar atitudes das pessoas, enquanto Vicky possui uma fraca capacidade telecinética. O material genético dos dois sofre modificações a partir da experiência, por isso, quando eles tem uma filha, chamada Charlie, ela acaba herdando esses genes mutados de seus pais. A menina possuía o poder da pirocinesia, que consiste em conseguir atear fogo em quem ou no que desejar.
A partir do momento que a Oficina, órgão do Governo responsável pelas experiências nos universitários, descobre a existência de Charlie, começam a perseguir a família. A história narra a fuga do pai e da filha, pois descobrimos logo no primeiro capítulo do livro que a mãe da menina e esposa de Andy, foi morte à mando dessa mesma instituição.

O livro foi lançado no primeiro ano da década de 80, portanto temos que levar em consideração o contexto histórico em que estava inserido. Na época do lançamento, o mundo estava imerso no cenário da Guerra Fria, um período histórico de disputas e conflitos indiretos entre Estados Unidos e União Soviética, de ordem política, militar, econômica e sobretudo ideológica. Não houve conflito direto entre as duas potências, por isso é denominado de Fria. Estados Unidos tinha o objetivo de criar um soro da verdade para ser utilizado nos prisioneiros durante os interrogatórios, além de criar potenciais armas de destruição, para fazer frente à União Soviética. É nesse contexto que King escreve seu livro. Percebe-se nele a crítica à esses possíveis experimentos realizados, e todas as consequências oriundas deles.

Percebi também uma crítica superficial à sociedade perfeitamente “democrática” e individualista nova iorquina, e estaduninense como um todo, onde as necessidades do coletivo sempre ficam em segundo plano frente às necessidades do indivíduo. Obviamente, as necessidades individuais valorizadas seriam aquelas das pessoas pertencentes às camadas mais altas da sociedade em detrimento das dos indivíduos considerados massa, mão de obra. Podemos traçar um paralelo nesse momento e em outros pontos com o livro Admirável Mundo Novo, do Aldous Huxley, onde temos uma sociedade fortemente hierarquizada e influenciada por esses ideais de segregação, assim como o citado acima , do presente livro analisado.

Como sempre, o mestre King foi extremamente detalhista no desenrolar da trama: seus personagens são muito bem desenvolvidos. Parece que estamos vivendo toda a fuga de pai e filha, conseguimos sentir empatia pelos dois, desejando que tudo dê certo ao final da jornada.

O diferencial do Stephen é a maneira como ele conduz sua obra, nos fazendo acreditar estarmos vivenciando aqueles momentos narrados. No final, não são fornecidos respostas, são geradas mais perguntas, te fazendo pensar em toda a história. Gostei bastante, pois acredito que a literatura deve ter o poder de nos deixar com a pulga atrás da orelha, nos fazendo refletir sobre determinado tema, sob a ótica que não estaríamos experimentando se lêssemos apenas literatura não ficcional. Vale a pena ser lido e discutido.

domingo, 4 de março de 2018

Macunaíma


Resenha
Livro: Macunaíma
Autor: Mário de Andrade
Ano de lançamento: 1928

Macunaíma nasceu já mostrando sua principal característica: preguiça. Nascido  às margens do mítico rio Uraricoera, na floresta amazônica. Era da tribo dos Tapanhumas. Se transforma em homem adulto quando toma banho de mandioca brava. Quando adulto, se apaixona por Ci, Mãe do Mato e tem um filho com ela, que morre ainda bebê.

A mãe do mato, cheia de tristeza após a perda do seu filho, sobe aos céus, se tornando uma estrela. A única lembrança que Macunaíma possui de sua amada é um amuleto, chamado de muiraquitã. O nosso herói sem caráter perde o amuleto e descobre que está em posse de Venceslau Pietro Pietra, o Piamã, gigante que come gente. Com a finalidade de recuperar seu amuleto perdido, Macunaíma parte com seus irmãos, Jiguê e Maanape para São Paulo.

Mário de Andrade foi um importante autor que participou do movimento modernista na literatura, sendo um dos destaques da Semana de Arte Moderna que ocorreu em 1922. Nessa obra, utiliza a oralidade , traços de expressão da língua falada, só que escrita. Mário debocha em vários passagens do livro da norma culta da língua.

Em um dos posfácios presentes no livro, o autor nos conta que escreveu esse livro durante um período de férias de 15 dias e que inicialmente, não tinha muitas pretensões acerca do sucesso dele. Essa obra se tornou um clássico da literatura brasileira, pois é uma metáfora importante sobre a formação do povo brasileiro, um povo que sofreu diversas influências de várias nacionalidades em sua formação. Macunaíma represente nossa gente, nosso povo e como ele foi massacrado pelo gigante Piamã, que representa simbolicamente o povo europeu. O enredo possui ainda metáforas para falar da igreja e dos países do oriente, o capitulo que fala da Vei Sol.

A obra traz explicações para a realidade baseadas em mitos. É explicada a origem do bicho do café, dos dias e noites, das formigas, entre outros. O autor traz uma característica do povo indígena, que explica a realidade baseada em fenômenos da natureza e mitologia, tão presente em nossa formação como brasileiros, que ignoramos. O autor mistura fantasia com realidade, numa ordem não cronológica, que no começo, me fez ficar um pouco perdida, pois não tenho muito costume com esse tipo de narrativa, mas que ao longo do romance, faz total sentido.  Li a obra num ritmo lento, acredito que pelo fato já mencionado anteriormente de não estar tão habituada a este tipo de narrativa, rapsódia que mistura tempos e espações de maneira tão intrínseca e original.

Finalizando, uma obra necessária, divertida e reflexiva. Um clássico da nossa literatura, que recomendo fortemente a leitura.

2001- Uma odisseia no espaço

                                                               Resenha   Livro: 2001- Uma odisseia no espaço   Autor: Arthur ...