domingo, 10 de dezembro de 2017

Máscaras ( Verão)- Estações Havana

Resenha
Livro: Máscaras – Estações Havana ( Verão)
Autor: Leonardo Padura

Terceiro livro da tetralogia Estações Havana, que acompanha o cotidiano de um policial investigador, Mário Conde, durante um ano inteiro de 1989, ano da queda do muro de Berlim.

Esse volume narra a investigação que Conde faz de um assassinato de uma travesti que ocorreu no Bosque de Havana, de maneira sórdida, em meio ao verão escaldante de Cuba. Durante a investigação, Conde conhece personagens peculiares, tais como o Alberto Marqués, dramaturgo que ficou proibido de fazer sua arte na década de 70 e 80, pelo fato de ser gay.

Durante todo esse livro, acompanhamos a discussão do sofrimento que gays, lésbicas, travestis, e pessoas transexuais sofreram em Cuba na década de 70, pois eram vistos como pessoas desviantes da norma padrão e pesos para a classe trabalhadora, o que não era muito diferente da forma como os não héteros também eram vistos nesse momento da história em todo o resto do mundo. Porém, acompanhar o sofrimento dessas pessoas nos faz sentir na pele como o preconceito pode ser cruel, pode inclusive matar, tema importantíssimo ainda na sociedade atual.

Como o próprio nome do livro sugere, nessa obra as Máscaras vão caindo uma a uma. Desde a revelação do fato de um homem que todos acreditavam ser o melhor do mundo e acaba se saindo um grandíssimo covarde, até o fato de Alberto Marqués se mostrar um homem extremamente culto, sábio, o que acaba por ajudar a quebrar a visão estereotipada que Conde possuía do público LGBT. Obviamente, Conde é um homem auto-reconhecidamente machista, mas podemos observar seu crescimento ao longo do livro no sentido de enxergar as pessoas LGBTs como sujeitos, dotadas de razão, sentimentos, talento e que não se resumem somente a sua sexualidade e gênero.

As máscaras, assim como no teatro, vão sendo retiradas gradativamente, o que é interessante para refletirmos como, em nossa sociedade da aparência e do espetáculo, às vezes um fato não é o que parece ser. Nas redes sociais, observamos pessoas cem por cento felizes o tempo inteiro, sem problemas, mas não sabemos o que se encontra por trás dessa máscara de felicidade e contemplação. Atrás disso, podem esconder-se pessoas depressivas, infelizes, entediadas. Por isso é importante refletirmos sobre as máscaras que colocamos em nós e nos outros, a fim de parecer desejável e desejado na nossa sociedade do espetáculo.


E ao se levantar
Olhou pros mascarados
Condenou
São todos falsos
Tantas cópias
De um rosto que antes era meu
(Rubel – Mascarados)

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Ventos de Quaresma

Resenha
Livro: Ventos de Quaresma (Primavera)
Autor: Leonardo Padura

Segundo livro da tetralogia Estações Havana, Ventos de Quaresma se passa na primavera do ano de 1989, ano da queda do muro de Berlim, evento que trouxe muitas mudanças para Cuba. Diante desse fato, acompanhamos mais uma das investigações do detetive Mário Conde, um saudosista e romântico policial, que queria ser escritor.

Nesse segundo volume, Conde precisa desvender o mistério do assassinato de uma professora  de química de 24 anos do antigo colégio dele, La Víbora, ao mesmo tempo que investiga o tráfico de drogas crescente em Cuba. Em contrapartida , Conde vive um momento mágico em sua vida pessoal: se apaixona por uma engenheira química tocadora de saxofone, com quem imagina possuir no futuro uma vida, casar e ter filhos.

Assim como no primeiro livro, temos descrições muito detalhadas da história, o que nos faz estar quase presente em todo o enredo, nos envolve de maneira deliciosa. Acompanhamos o Vento de Quaresma, que traz um prelúdio de uma nova era em Cuba. Pelo país e o mundo estarem atravessando momentos de mudanças, Conde se mostra cada vez mais nostálgico e melancólico, lembrando sempre do passado, do que já aconteceu.

Podemos perceber uma Cuba diferente daquela que conhecemos, através dos livros de Padura: longe de um romance imparcial, conseguimos entender um pouco as contradições desse país que inspira tantos debates apaixonados. Não temos em nossa frente uma defesa acrítica do regime cubano de governo. Em seu lugar, observamos, através das descrições do cotidiano dos personagens, uma visão nada maniqueísta da vida em Cuba, com todas as suas alegrias e seus agrures, numa narrativa cada vez mais sórdida e comovente.


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Passado Perfeito ( Estações Havana) - Um livro sórdido e comovente

                                               Foto: Emanoel Daflon, da Daflon Fotografia


Resenha: Passado Perfeito (Inverno)
Autor: Leonardo Padura

Me apaixonei pela escrita de Padura ao ler O homem que amava os cachorros. Apesar de ser um calhamaço de mais de 500 páginas, devorei o livro e me interessei em saber mais sobre a vida e obra de Padura. Passado Perfeito é o primeiro livro da tetralogia Estações Havana, que retrata um ano inteiro, passando pelas quatro estações, na vida de Mário Conde, um detetive policial resolvendo seus casos em Cuba. O ano, não por acaso, é de 1989, ano da queda do Muro de Berlim e que trouxe muitas mudanças na vida de todos cubanos. A tetralogia ganhou uma adaptação pela Netflix, roteirizada pelo próprio Padura e sua mulher Lúcia, que vale a pena ver.

Nesse primeiro volume da série, Padura tem seu Ano Novo interrompido para resolver um caso: Rafael Morín, seu ex colega de pré-universitário e homem modelo, sumiu sem deixar vestígios. A partir desse acontecimento, somos levados a mergulhar na vida de Morín, que tem um passado aparentemente perfeito, e vamos descobrindo ao longo da narrativa que a perfeição realmente não existe.

Combinando com a estação retratada, que é o inverno, o livro possui um tom melancólico, pois Conde , quando começa a investigar a vida de Rafael, para conseguir entender o motivo do seu sumiço, acaba investigando a si mesmo, lembrando dos tempos de pré-universitário, em que Conde e seus amigos  tinham todos os sonhos do mundo, todas as possibilidades. Conhecemos e nos apaixonamos por cada personagem apresentada ao longo da trama. O Magro, amigo de Conde da época da escola, que já não é magro há muito tempo, que vive em uma cadeira de rodas após ser baleado e tem com Conde uma relação de irmandade; Jose, a mãe de Magro, que é como uma segunda mãe para Conde; Tamara, que era paixonite de todos os menino do pré universitário; Manolo, parceiro de Conde; Rafael Morín, com seu passado imaculado e Conde, que possuía o sonho de ser escritor, mas acaba virando policial por questões desconhecidas até mesmo pelo próprio.

Somos apresentados a uma Cuba desconhecida, nem descrita com paixão cega tampouco com ódio. Padura se utiliza de romance policial para retratar a realidade de seu país, seus costumes, por isso esse livro não se encaixa no gênero policial, ele vai além disso.

Conde se lembra muito de seu passado e por muitas vezes esse tempo é idealizado, romantizado, assim como todos nós quando nos lembramos de tempo antigos, Conde também idealiza e romantiza seu passado quando mais jovem.

Todos os detalhes do enredo são descritos de maneira meticulosa. Quando temos uma cena em que os personagens estão comendo, conseguimos quase sentir o gosto da comida, por conta da narrativa contundente. Assim como as cenas de refeição, as cenas de sexo são extremamente bem detalhadas e repletas de sensualidade, ainda que por vezes Conde descreva suas mulheres como objeto de consumo, esperando serem conquistadas pelo macho alfa em questão. Acredito que esse seja o único aspecto que não gostei muito no livro e na série, mas essas situações acabam sendo descritas de maneira tão natural que acabam por serem necessárias e fazerem parte da narrativa, da construção do personagem Conde. Porém, em certo trecho do livro temos uma vingança contra essa objetificação das mulheres.


Um livro para ser DEGUSTADO, de maneira sórdida e comovente!!


terça-feira, 21 de novembro de 2017

Crime e castigo


Resenha
Livro: Crime e Castigo
Ano de lançamento: 1866
Autor: Dostoievski

Fiódor Dostoievski havia lançado seu romance de estreia Gente Pobre, pelo qual fora muito elogiado, quando aos 27 anos, em 1849 foi preso por participar de um grupo clandestino e conspirar contra o Nicolau I, imperador da Rússia. Na época, havia sido condenado ao pelotão de fuzilamento, mas acabou tendo sua pena convertida em longos anos de trabalhos forçados em uma prisão na Sibéria e Cazaquistão. Lá no confinamento, junto com diversas pessoas, conheceu melhor a mente humana e quando deixou o exílio, se tornou um grande expoente da literatura mundial.

O enredo de Crime e Castigo é bem conhecido: Rodion Romanovicht Raskolnikov, um  (ex)estudante paupérrimo de Direito, que morava em São Petesburgo para estudar e sobrevivia às custas do dinheiro que sua mãe mandava para ele resolve cometer um crime: matar uma velha usurarária, que emprestava dinheiro para os pobres e os explorava, recebendo todo o dinheiro de volta com juros astronômicos, se aproveitando da pobreza e necessidade alheias. Rodion planeja o assassinato da velha, porém no momento em que vai realiza-lo, a irmã dela, Lisavieta, uma doce criatura, chega em casa e acaba sendo morta juntamente com sua irmã. A partir disso, acompanhamos as consequências desse episódio na vida desse rapaz.

Rodion era um ser extremamente inteligente e perspicaz, sendo autor de uma teoria acerca de crimes, para ele existiam dois tipos de pessoas: comuns e extraordinárias. As comuns existiam para serem subjugadas às leis e as extraordinárias seriam imunes à elas. Pessoas tais como Napoleão, que mataram milhões, em busca de um bem maior. Podemos adivinhar à que classe de pessoas Raskolnikov achava que pertencia, com seu desprezo pelas pessoas e sua inteligência acima do usual.

Essa obra é um clássico, e como tal, é atemporal. São inúmeras as reflexões que podemos ter lendo essa grande obra prima, se emergimos e nos entregarmos de cabeça à leitura. As metáforas presentes ao longo de todo o texto são sensacionais. Como por exemplo a velha usurária representa para Rodion nada mais que um piolho, em suas próprias palavras, o próprio capitalismo, tão odiado por nosso protagonista, que explorava e subjugava os pobres, deixando-os sob seu domínio. A obra é lotada de personagens peculiares que contribuem para a grandeza magistral do enredo: Sonia, uma prostituta angelical que representava para Rodion a possibilidade de perdão, redenção, entrega; Lujín, um homem que gosta de ter entre seus domínios mulheres pobres para poder ser o herói da vida delas, entre outros.

Repleta de cenas extraordinárias, tais como o momento em que Lujín acusa Sonia de roubar dinheiro; as conversas entre o homem viúvo de Marfa e Rodion ou entre Rodion e seu amigo Rakumikin, todos esses diálogos contribuem para a grandiosidade da obra. Um ponto interessante a se ressaltar é como o autor retrata o pensamento de Raskolnikov: assim como somos assaltados por pensamentos enquanto falamos ou executamos ações, o protagonista também é invadido por reflexões, por muitas vezes nada agradáveis, no meio de suas falas e ações, contribuindo para a sensação de imersão tão urgente presente no decorrer de todo o livro.

Mais do que a história de um crime, o livro retrata um homem, antes de cometer o crime, sua humanidade, suas contradições. Seria Rodion capaz de viver em paz e livre após cometer seu crime ou só viveria em paz no momento em que se entregasse? O que se passa na cabeça de um criminoso logo após a ação criminal? Arrependimento, repulsa, dor? Conseguimos imaginar e mergulhar no mundo sórdido e sombrio de Rodion ao longo das mais de 500 páginas, ora sentindo pena do criminoso, ora sentindo raiva, ora compaixão, ora dúvida, num carrossel de sensações nada maniqueístas, que afinal, faz parte da vida de todas as pessoas. Um livro para ser lido, relido, discutido em qualquer tempo e espaço.


sábado, 28 de outubro de 2017

O Deus das Pequenas Coisas

                                                    Foto: Emanoel Daflon

Resenha
Livro: O Deus das Pequenas Coisas
Autora: Arundhati Roy
Ano de lançamento: 1997

A história do livro se passa em vários momentos: na Índia da década de 60 mesclando momentos da Índia atual (para a época do livro), na cidade de Ayemenem, estado de Kerala . A obra gira em torno de dois irmãos gêmeos bivitelinos muito unidos: Rahel e Estha. Esses irmãos foram separados quando tinham sete anos de idade, por conta de um acontecimento que mudou e moldou a vida dos dois e de toda a sua família. A partir desse acontecimento, somos convidados a conhecer profundamente outros personagens dessa trama.

Passamos a conhecer a intimidade de Ammu, a mãe dos gêmeos, que tinha um sonho de viver a vida, mas acaba casando com o primeiro homem que aparece na sua frente, para se libertar de seus pais, porém acaba caindo em outro tipo de prisão: a de um marido alcóolatra e violento; conhecemos Chacko, o tio dos gêmeos que não consegue superar o divórcio com sua ex-mulher; conhecemos Mamacchi, a avó cega das crianças; Baby Kochama, tia-avô e inimiga, sempre pronta a fazer mal a qualquer pessoa por puro prazer; Sophie Mol, a prima dos gêmeos que tem um desfecho trágico na história e finalmente Velutha, um sindicalista, membro do Partido Comunista, e paravan, intocável.
O livro aborda muito bem a questão dos intocáveis na Índia. As situações que essas pessoas passavam simplesmente por terem sido designadas ao nascer como pertencentes da casta dos intocáveis, que não possui outra função na sociedade, a não ser a de servir os tocáveis. O livro também trabalha muito bem a questão do marxismo e do partido comunista, que estava muito em voga na sociedade indiana, como uma tentativa de acabar com o sistema de castas na sociedade indiana, pelo menos em tese.

A escrita do livro é extremamente poética, me fazendo lembrar por muitas vezes o realismo mágico de Gabriel Garcia Marquez. A autora utiliza muitas figuras de linguagem, tais como metáforas, sinestesias, personificação, hipérboles. Não somente figuras de linguagem, mas outros recursos literários para podermos entender como os gêmeos pensavam e se expressavam. Eles gostam de juntar algumas palavras, como em Refrescodelaranja, refrescodelimão. Outras, eles gostam de separar, como em De Pois. Assim, podemos observar como essas crianças pensavam, e o texto ganha um tom próprio peculiar por conta desses detalhes. Aliás, a obra toda é um conjunto de detalhes extremamente bem trabalhados.

A obra nos faz refletir sobre as pequenas coisas do cotidiano e como no final das contas, são elas que importam. Elas que moldam nossa vida, seja de forma positiva ou negativa. Sempre nos lembraremos dos pequenos detalhes de um dia muito feliz ou muito triste por exemplo. Nos leva a refletir também, assim como na vida dessa família indiana tradicional, parafraseando o rapper Don L: uma frase muda o fim do filme. Ou seja, pequenos acontecimentos determinam e mudam o rumo de nossas vidas e podem influenciar no caminho traçado por nós a partir deles. Nos nossos sentimentos, nossos medos, angústias.

Podemos fazer uma reflexão também sobre o amor, a partir da relação proibida entre Velutha e Ammu. Afinal, quem merece ser amado? E quanto? E como? Os dois, mesmo sabendo de todos os riscos envolvidos na relação entre um tocável e um intocável na sociedade tradicional indiana na década de 60 escolhem viver um breve relacionamento, pois afinal, é nesses pequenos momentos compartilhados que os dois sofredores, por motivos diferentes, encontram a felicidade. O Deus das Pequenas Coisas e a sonhadora Ammu.


Quando lerem o Deus das Pequenas Coisas, prestem atenção aos detalhes, à sonoridade, ao não dito, que tem tanto ou maior significado do que é dito dentro do universo da trama. E mergulhem nessa leitura!

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A invenção das asas

                                             Foto:Emanoel Daflon

Resenha
Livro: A invenção das Asas
Autora:  Sue Monk Kidd
Ano de lançamento: 2014

Hetty “Encrenca” Grimké: uma menina que era escrava e foi dada de presente à uma outra menina de sua idade quando tinha 10 anos. Seu nome de “branco” é Hetty, mas tradicionalmente os negros davam nomes aos seus filhos que correspondiam às características percebidas de sua própria personalidade, por isso Encrenca. Sarah Grimké: filha de juiz, moradora da Carolina do Sul, abolicionista, e feminista. A obra em questão tem essas duas protagonistas, e retrata a vida das duas durante 35 anos. Baseado na figura histórica de Sarah Grimké, uma abolicionista e feminista que acreditava que os negros eram iguais aos brancos, no século XIX, na Carolina do Sul, altamente escravocrata e racista.

Hetty, quando tinha 10 anos foi dada como propriedade para a Sarah quando esta fez 11 anos, mesmo Sarah tendo sido contra a posse de pessoas. Desde pequena, Sarah acreditava que negros e brancos eram pessoas iguais e deveriam gozar dos mesmos direitos. Desde pequena, lutava para se libertar de uma sociedade conservadora, preconceituosa, inclusive para se libertar de sua própria família. Já Hetty, sempre sonhou com a liberdade, para si e sua mãe, Charlotte. Desde criança, acompanhava os castigos desumanizantes que os negros escravizados sofriam. Esse é um livro feminista, pois mostra a luta por liberdade e emancipação de duas mulheres, claro que em graus diferenciados. Podemos perceber isso com a fala de Hetty quando se dirige à Sarah:

                  “Eu sou presa pelo corpo, mas você é presa pela mente.”

Um ponto muito importante que podemos perceber no livro é a legitimação da escravidão por parte da igreja. Em alguns trechos em que a Sarah está na igreja, podemos perceber como os dogmas da igreja contribuíram para a perpetuação da escravidão no Sul dos Estados Unidos. Um exemplo que podemos observar, e que foi verídico, conforme informado pela autora, foi o fato de Sarah ensinar crianças escravizadas a ler na aula de catequese e ser punida pelo padre por conta disso. Sarah também tenta fazer a libertação de Hetty, da maneira como ela pode quando é pequena, ensinando a pequena Encrenca a ler.

Podemos perceber a visão que os escravos possuíam do Deus retratado pela igreja, por conta da legitimação da escravidão por parte da Igreja, nesse trecho de Encrenca:

“Carregava a imagem de Deus na minha cabeça. Um homem branco, segurando uma bengala como a sinhá ou evitando escravos como o senhor Grimké.”

A obra mescla capítulos em que a narração fica por conta de Sarah e outros capítulos que fica por conta da Hetty. Com isso, podemos ler e conhecer o lado da escravidão vivido e sofrido pelos próprios escravos. Quando elas são crianças ainda, podemos perceber como a Sarah tem direito a ter sonhos, perspectivas de vida, enquanto a Hetty tem a sua infância negada.

Podemos perceber a trajetória tão importante das irmãs Grimké, não somente a Sarah, mas também sua irmã Angelina, que foram abolicionistas e defendiam o direito da mulher e dos negros de serem tratados como iguais na sociedade. Repare, elas iam além do que estava imposto, visto que mulheres não poderiam falar em público, muito menos defender a ideia de que negros eram iguais aos brancos. Nessa época, o Norte dos Estados Unidos já condenava a escravidão, porém não existia a defesa de igualdade racial. Elas foram mulheres que abdicaram de riquezas, famílias em prol de perseguir seus sonhos de liberdade.

A metáfora estabelecida pelo título da imagem é sensacional. Os negros são tratados como criaturas dotadas de poder e mágica, na sua terra Natal e possuíam asas, que são cortadas quando são levados à força pelos diversos locais onde a escravidão ocorreu.

O livro é antes de tudo um livro sobre amizade, sobre amor entre mulheres, não no sentido sexual do termo, mas em relação a amizade, parceria, que é abordada de forma sutil e muito bem construída ao longo de toda a trama.

A autora é uma mulher branca, por conta disso, devemos refletir sobre o motivo de muitas autoras brancas conseguirem escrever sobre a época da escravidão e racismo, e fazerem tanto sucesso e gerarem comoção com suas obras, enquanto obras de escritoras negras não alcançam o mesmo sucesso. É necessário que cada vez mais as próprias protagonistas pertencentes às minorias marginalizadas sejam capazes de escrever sobre suas próprias histórias e alcançarem igual sucesso e comoção às escritoras brancas.

Recomendo fortemente a leitura, por todos os motivos já mencionados. Fecho a resenha com uma frase que me fez refletir muito acerca do conteúdo do livro, fala proferida pela Encrenca:


“Permanecer em silêncio frente ao mal é em si uma das formas do mal.”

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Quarto de despejo- diário de uma favelada

Foto de: Emanoel Daflon

Resenha
Livro: Quarto de Despejo
Autora: Carolina Maria de Jesus
Ano de lançamento: 1960

“Quando eu não tinha nada o que comer, em vez de xingar eu escrevia. Tem pessoas que, quando estão nervosas, xingam ou pensam na morte como solução. Eu escrevia o meu diário.”

Com essa fala da Carolina Maria de Jesus começo minha resenha. Quarto de despejo é o diário de uma mulher negra, pobre, favelada e mãe solteira que viveu no Canindé, extinta favela de São Paulo, às margens do Rio Tietê na década de 1950. O diário acompanha sua vida e rotina durante cinco anos, de 1955 até 1960.  Ela foi descoberta por um repórter, de nome Aurélio Dantas, que tendo sido convocado a escrever sobre a favela, conheceu Carolina e sensivelmente percebeu que ela tinha muito a contar.
Catadora de papel - e tudo mais que pudesse arrumar -, Carolina contava sua história através de cadernos velhos que encontrava no lixo. Ela era mãe de três crianças, as quais criava sozinha. Essa obra é extremamente densa, cruel e real. Realíssima! A autora estudou pouquíssimo tempo na escola, mas apesar disso, seu texto é repleto de lirismo e metáforas. Podemos perceber um exemplo disso na fala abaixo:

“Eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos.” 

Uma narrativa real e contundente dessa maneira só poderia ser obra de uma pessoa que vivia essa crua realidade. No livro, acompanhamos o relato de sua rotina e cotidiano da favela. Todas as brigas, violência, incesto, estupro, e principalmente e acima de tudo, a FOME. A fome é companheira fiel de Carolina e sua família durante toda a obra. Muitas vezes, senti vontade de chorar lendo trechos em que ela melhorava ou piorava seu humor de acordo com a disponibilidade de comida. Me fez refletir sobre pessoas que vivem nessa situação ainda, sem nem ter o que comer. Carolina vivia um dia após o outro. Sentimos na pele seu desespero quando não havia conseguido catar nada para tirar o sustento para seus filhos. Uma realidade cruel, que data da década de 50, mas não poderia ser mais atual. As favelas continuam a ser os Quartos de Despejo das cidades.
“É assim no dia 13 de maio eu lutava contra a escravatura atual- a fome.”
Como mulher negra e mãe, podemos perceber a opressão totalmente ampliada que Carolina sofria. O pai de um de seus filhos possuía recursos, mas mesmo assim não ajudava na criação de sua filha, ficando a cargo de Carolina todo o peso de sustentar sozinha uma família. Podemos perceber a todo momento como ela precisa se impor a todo momento para não ser mais uma mulher explorada e abusada dentro da favela.

“Quando eu era menina o meu sonho era ser homem para defender o Brasil porque eu lia na História do Brasil e ficava sabendo que existia guerra. Só lia os nomes masculinos como defensor da pátria. Então eu dizia para a minha mãe: - Porque a senhora não faz eu virar homem.”

Para além de toda dificuldade, fome e violência retratada na favela, podemos perceber um fato marcante: a solidariedade entre os que nada possuem. Na maior parte das vezes, os moradores da favela brigam e se desentendem, fruto do contexto em que estão inseridos, que é desesperador. Mas muitas das vezes eles se ajudam. Compartilham comida, cantam, fazendo da vida um fardo mais leve, quando compartilhado.
Acredito que toda pessoa deveria ler essa obra prima da nossa literatura. Uma literatura verdade, contada por uma pessoa que viveu e sentiu toda aquela realidade retratada. Por isso, apesar de erros gramaticais, não poderia ser mais adequada, cumprindo a função da língua, que é estabelecer comunicação. 

Foi muito difícil falar sobre esse livro por que são tantas questões retratadas, tanta realidade imprimida, tanto sentimento, que fica difícil colocar em palavras toda a enxurrada de emoções descarregada em mim com a leitura dessa obra. Por todos os motivos citados (e muitos outros), não deixem de ler e refletir sobre esse livro. Indispensável, para nos formarmos e reformarmos como seres humanos!

2001- Uma odisseia no espaço

                                                               Resenha   Livro: 2001- Uma odisseia no espaço   Autor: Arthur ...